

Ao assistir ao filme "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei", dirigido por Cláudio Manoel (sim, ele mesmo, o Seu Creysson do Casseta & Planeta!), Micael Langer e Calvito Leal”, pare para pensar: o que pode levar um país como nosso, mestiço, misturado, com uma das maiores populações negras do mundo, a tentar (e às vezes conseguir!) aniquilar as carreiras de seus artistas negros mais talentosos? Muitos foram vítimas de preconceito racial disfarçado de preconceito social (afinal, não dá no mesmo? Preconceito é preconceito. Ou um é menos ignóbil que o outro?): Elza Soares sofreu nas mãos de vários maestros e da torcida racista do Botafogo (corrigindo: de alguns torcedores e de parte da imprensa, na época!); o maestro Erlon Chaves foi censurado por suas apresentações no comandando da Banda Veneno (“Eu quero mocotó”) e, antecipando o que a Blitz faria muito tempo depois, ao ficar dançando e rebolando com duas cantoras louras e boazudas. Erlon repetiu muitas vezes nos interrogatórios que era bicha e o que os milicos consideravam violentíssimo atentado ao pudor nada mais era do que sua performance de palco; Elizeth Cardoso, Tim Maia, Bino (baixista da banda Cidade Negra) e tantos outros. Até mesmo Pelé, com toda a sua importância ainda é vítima de “preconceito intelectual”.
Não seria diferente com Wilson Simonal de Castro, um showman que fez um espetacular sucesso no Brasil dos anos 60 e incomodou com sua figura (um negro sorridente com 1,85m de ginga), seu som (preconceituosamente apelidado de “pilantragem” pelos críticos musicais da época), seu estilo de vida (carros importados e conversíveis na garagem, muita bebida e mulheres) e sua aclamação popular. Claro, um Brasil como o nosso, “ariano por natureza”, não poderia tolerar que um filho de empregada doméstica chegasse aonde chegou: comandar um show no Maracanãzinho com um coral de mais de 30 mil pessoas, ser o garoto-propaganda dos combustíveis Shell com um contrato milionário. E, principalmente, ser um ídolo popular. Os diretores do filme conseguiram, através de atualíssimas e coloridas vinhetas e animações, dar o caráter pop da época, resgatando fotos, jornais, capas de discos e imagens (Simonal canta The Shadow of Your Smile num dueto com Sarah Vaughan, completamente seduzida por ele), além de colherem emocionantes depoimentos de Chico Anysio, Pelé (outro negro tão famoso quanto o próprio Simona), os cartunistas Jaguar e Ziraldo (ambos eram diretores do Pasquim, jornal que ajudou a disseminar o boato de que Simonal era dedo-duro do Dops e que neste documentário (e cada um a seu modo) fazem um misto de mea-culpa e justificativas por terem tomado tais atitudes) e muitos outros. Curiosamente, Simonal foi derrubado pelo políticamente correto Pasquim e resgatado por um incorreto “casseta”.
Vítima de uma disfunção hepática crônica – degeneração das funções do fígado – decorrente do alcoolismo - Simonal morreu em 2000, aos 62 anos, sem ver sua importância artística reconhecida e tentando provar que fora vítima de uma cilada, ao ser acusado de ser informante da ditadura nos anos 70 e de ter mandado a polícia seqüestrar e torturar seu contador por desconfiar que este estivesse lhe roubando. O cantor viu seu sucesso definhar e viveu mais de duas décadas no ostracismo. Ao final do filme, enxugue as lágrimas e - se você for negro - pense sobre o país em que vivemos e se existe mesmo racismo ou - como dizem alguns "não-negros" –isso é apenas paranóia da sua cabeça.