segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Morre em Salvador Mãe Nitinha de Oxum

Morreu hoje em Salvador, de causas ainda não divulgadas, a Yalorixá Areonite Conceição Chagas, mais conhecida como Mãe Nitinha de Oxum. Segunda na escala hierárquica da Casa Branca e com casa aberta no Rio de Janeiro, Mãe Nitinha, era, de acordo com sua filha Marta de Oxalá uma "mulher ilustre, importante, a ponto de receber das mãos do presidente Lula a Comenda do Rio Branco", no ano passado.

Mãe Marta não sabe informar o local do enterro. Pode ser em Salvador ou no Rio já que ela também tinha casa aberta na cidade.

De todo modo, é uma grande perda para o candomblé e para todos os que lutam para promover o diálogo inter-religioso em nosso país.

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Abaixo reproduzimos entrevista com Nitinha realizada pela União Umbandista dos Cultos Afro-Brasileiros:

ENTREVISTA COM YÁ NITINHA


A União Espírita dos Cultos Afro Brasileiro, criou um espaço para homenagear as gemas do candomblé, que são as Yalorisas e os Babalorisas que desenvolvem trabalhos sociais internos e externos. São essas pessoas laureadas citam pessoas que também desenvolvem esse trabalho e é por isso que estamos aqui com a Srª Yá Nitinha por quem foi citada por Meninazinha da Oxum, Mãe Beata de Yemonjá, espaço para quem tiramos o chapéu.

E estamos felizes por estarmos aqui e gostaríamos que a senhora sentisse-se à vontade para nos contar como é ser Yá Nitinha, um pouco de sua vida espiritual.

União Espírita(U) – Quando e em que época a senhora se iniciou para Orisá?

Yá Nitinha(N) – Eu tinha quatro anos de nascida; fui para Engenho Velho com 8 meses, minha madrinha que me criou, era do 2º barco. Se fosse viva teria 68 à 69 anos de santo.

U – A senhora pode citar essas pessoas que participaram da sua iniciação?

N – Marciliana, Tia Marcy, minha Yalorisá, Tia Luzia, Yaquequerê da casa, uma africana, minha mãe Sofia, uma africana D’ Ogum, Maria pequena de Osalá(africana), Mãe Eugênia, minha mãe Amanda(baiana que teve roça de candomblé em Coelho da Rocha), minha Gibonã de Obaluaiê, as outra que já são falecidas, Ekédi Dejá, me viu fazer Santo.

U – Como é que a senhora se sente fazendo parte deste Asé?

N – Eu tenho, sou louca por meu Asé, tenho muito orgulho do meu Asé e de minha mãe de santo que era de Oxaguiã, ela era uma santa, morreu com 105 anos de idade.

U – E Osum, fale um pouco dessa mãe?

N – Eu sou D’Oxum e gosto muito de Obaluaiê. Eu tenho 3 Osun, sou de Osun, Osun é louca por minha mãe, eu só queria ser de Oxum mesmo, amo todos os Orixás, talvez escolheria Obaluaiê que é a minha loucura.

U – Quando e como começou o Asé aqui no Rio de Janeiro?

N – Eu já tinha, e fiquei com o cargo de uma tataravó, quando eu cheguei no Rio de Janeiro eu já era Yalorisá, quando minha mãe de santo faleceu, fiquei muito perdida, e larguei tudo e não queria mais saber de candomblé e comecei a procurar trabalho na minha profissão. E apareceu um menino de Logun edé, então abria a casa. Eu morava em Realengo, Gustavo Barros.

U – Ficou muito tempo lá?

N – Lá em realengo eu botei uns três barcos, você conheceu a finada Encarnação, fiz a filha dela, fiz bastante lá. E casa de candomblé com vizinhos pesados, tudo incomodava, aí eu foi para rua Aroeira, coloquei mil defeitos, cheio de lama, um lugar feio e hoje eu estou aqui, vivo de aluguel, até que Oxossi me deu essa casa, a nossa casa que tem o nome de Sociedade Mãe de Deus das Candeias, aqui é a casa dos filhos de santo, porque a minha lá no Engenho Velho, é Sociedade e Sítio São Jorge.

U – Eu queria que a senhora me falasse dos seus filhos, família e filhos de santo?

N – Aqui é o seguinte, minha casa de candomblé é quase família. Se chegar uma pessoa que toque, um Ogãn de fora, com educação pedir o atabaque, dá porque é filho, neto, neto são os filhos, netos e sobrinhos têm Ogãn que eu criei, pequenos. Não sou uma mulher diferente, sou igual a todo mundo, tenho medo, aí dizem porque o santo não avisou, ele não é Deus, eu tenho medo de dar espaço aos outros na Casa de Oxum. Fico observando as coisas que estão acontecendo, violência contra pais de santo, é uma coisa horrorosa. Nós que batemos palmas e soltamos os foguetes, você só vai fazer o candomblé com poucas pessoas, tem convidados, vizinhos, mas tudo aqui é parente. A minha avó Yaquequerê da casa, minha filha fez lá na Bahia, ela vive aqui há 36 anos, croiu Renata irmã de Eni. Eu gosto e precisam, aí vou criando.

U – E sua família carnal no Asé?

N – Eu tenho 3 filhos, 2 confirmados e 1 aos 5 anos e outro aos 4, um é Ogãn de Oxoguiãn e outro é Ogãn de Oxalufãn. Meus irmãos de santo também filhos de minha mãe Marci.

U – A senhora é feliz com seus filhos de santo?

N – Dizer que sou infeliz, eu não sou com meus filhos de santo, tem uns que saem da casa e depois querem voltar, aí não aceito, porque quando volta, vem com a cabeça cheia de idéias e manias, então fica lá mesmo. Eu me dou muito bem com meus filhos de santo. Porquê faço deles a minha família. Nunca tive filhos de santo que me respondessem, pode até lá fora falar o que quiser. Eu não sou perfeita, não gosto de pagode quando acaba o candomblé, mas não censuro que faz, cada um faz o que quer. Eu acho isso feio, na Bahia não tem disso, acaba o candomblé e faz aquele samba. Aqui no primeiro dia do ano tem o samba da cozinha, não tem preceito, todo mundo samba, até eu caio na folia, falam por de trás, falam de Deus, quanto mais da gente. Falam por trás, não falam na minha frente, nem ligo...

U – Na falta de sua Yalorisá quem a sucedeu?

N – As pessoas que tem medo de botar a mão na minha cabeça, minhas irmãs, isso é muito chato, mas eu mesmo dou o meu borí, Esú come comigo, porque o santo que eu fiz está lá em Salvador, no Engenho Velho, aqui minha mãe pequena trouxe as duas. Dá uma satisfação ao público e aos meus filhos, não é todo mundo que pode ir a Salvador. A vida não esta pra brincadeira, aí eu faço uma festinha aqui para elas.

U – gostaríamos de saber quem hoje é responsável pelo Asé Engenho Velho?

N – A responsabilidade é de Altamira Cecília, e a Yaquequerê e Tetê de Yansã que mora aqui, minha irmã, do meu barco, ela não quis, ela queria ser Yalorisa, e não aceitei, eu sou a segunda pessoa depois dela.

Então as responsáveis pelo Engenho Velho são de Dona Altamira Cecília e Yá Nitinha. Só que a mãe de santo não faz nada sem a minha presença, eu sou a mais velha da casa, mais velho é Oxum, eu e Teté, Teté não vai de jeito nenhum, e minha irmã só tem nós duas. Eu a adoro, não tem idade, mas temos a mesma idade, iremos fazer 65 anos de santo. E agora que o filho dela faleceu, ela não vai mesmo. Mas ela é a Yaquequerê, e eu sou Otun Quequerê, ela não estando, eu sou Yaquequerê e eu sou iatebexê que tomo conta da sala. Sou Ojú Odé, que carrego a cabeça de boi. Faço Oro de Corpus Christi.

U – Gostaríamos de saber sobre os eventos que falam sobre a cultura de candomblé, a senhora pode citar quais as suas participações?

N – Eu nunca participei, porque sinceramente eu não gosto. Essas coisas de candomblé não, sabem porquê? Se eu for para ouvir bobagens, deixa eu ficar assim mesmo.

U – A senhora concorda que a cultura da religião ajudou de um ponto e prejudicou de outro? No saber dos livros, as propostas, os vídeos, isso colaborou ou prejudicou?

N – eu acho que têm muitos livros que você lê a aproveita e gosta. O livro de José Benistes do Asé Opó Afonjá, você lê e dá gosto de ler, mesmo ele colocando muitas coisas do Asé que não deveria ser posto, tiro o chapéu para ele e para o livro dele, mas não tiro para outros.

U – Aproveitando que a senhora tirou o primeiro chapéu para José Benistes, eu gostaria de citar mas alguns amigos do Asé ou não que colaboravam com a divulgação da cultura negra.

N – Agora tiro o chapéu para vocês duas, Torody D’Ogun e Drª Márcia Marques, porque o candomblé foi muito fechado, hoje vocês estão colocando o candomblé para frente. Ontem você ia fazer santo cega, hoje você já vai sabendo de alguma coisa. Eu acho que está certo. Este trabalho que vocês estão fazendo, isso é coisa certa, porquê antes o povo olhava para uma pessoa e dizia uma mulher aí que diz que foi mãe de santo mas ninguém sabe quem é.

Eu tiro o chapéu para todas as pessoas que estão botando a cultura negra civilizada, para o povo não pensar que somos ignorantes, analfabetos, que não sabemos nada, que o candomblé é uma coisa horrorosa. Vocês estão colocando na praça o que é o candomblé, tem gente educada, Doutores, tem gente que liderou o bloco da ciência, que sabe falar o BABÁ. O candomblé não é bagunça, peço a Yemonjá que é dona de todos que iluminam cada Ori. Cada vez vocês tenham mais sabedoria. A Xangô que é o dono da sabedoria e a Oxum que eles dêem mais força e coragem.

U – Existem muitos clientes que vem pedem e se apegam aos orixás, mas quando chegam lá fora têm vergonha de falar que freqüentam o candomblé, o que a senhora acha disso?

N – Eu já fiz muito Ebó, e é o que dá dinheiro, hoje eu não quero, eu só faço é dar borí, assentar, fazer santo e jogar. Eu tenho medo que um Ajé desse vir a minha casa e dizer: “Fui na casa de fulano de tal e gastei R$ 1,00(um real)” sendo que fala para os outros que gastou R$ 20,00(vinte reais). Só atendo as pessoas indicadas e tem que telefonar antes. Eu tenho dois clientes que são crentes, falei com o quarto cheio: “Ele é crente, é meu cliente, eu dei obí com água, eles estão desempregados e lá dá mais dinheiro” nunca mais vieram aqui, os desmoralizei. Que Deus abençoe vocês, que mãe de Deus das Candeias lhe dê força para ajudar agente. Naquele tempo antigo, dizem quando eu fiz santo, tinha um delegado que se chamava Pedrita e era de Ogum, Pedro Godilho e ele não gostava de candomblé, todos os candomblés ele queria fechar. Então dizia para meu pai João, que tinha um negro lá africano afogum e que iria a casa acabar com o candomblé. Meu pai João dizia: “Vá”, assim quando ele chegava na baixa D’Osun e via o candomblé tocando no Bogum, ficava a noite toda. Um dia ele foi no convento falar com os frades que no Engenho Velho tinha criança menor de idade, e essa criança era eu. Quando apontou para eu, tinha uma velha por nome de Maria Pequena, que quando via os homens, dizia ser todo mundo Aquidebã, sabem que Aquidebã significa polícia. Patônia lá vem o Aquidebã, me pegaram e colocavam dentro da orca.

Mas esses homens nunca tiveram o poder de me ver, aumentaram a minha idade, diziam que eu tinha feito santo com 7 anos, mas nem a menina de 4 e 7 anos nunca viram. Eu acho que o pessoal tinha mais fé, mais coragem, então tinham fé no santo e no Asé.

Eu não vou a candomblé de ninguém. Você é Yalorisá e não me leve a mal. Beata mesmo, ta fora, aqui em casa eu não deixo entrar cerveja.

Quando vai a candomblé, e acaba o culto, fazem aquela roda e ficam tomando cerveja e falando da vida dos outros. O que vou fazer, tenho 68 anos de idade, vou é dormir.

Quando eu vim para o Rio de Janeiro, o povo ia para o meu candomblé em Realengo, e gostavam do meu candomblé. Eu fazia caruru, xinxim, comida de santo, acarajé, abará e aruá, mas não tinha cerveja. Quando me mudei para cá, achei um absurdo, maionese com farofa, no final da encarnação vai ser assim.

Um belo dia teve uma Yaô aqui, inclusive eu a criei, compraram cerveja, fizeram maionese. Quando colocaram a mesa eu me tranquei e disse, assim não! Chega alguém do Engenho Velho e vê, irão falar mal de mim.

Não vou a candomblé que vai muita gente, meu filho Omorodessi vai fazer esse ano 25 anos de santo, e quando acabar fico no canto e não saio, pois as vezes conversam sobre coisas que não gosto. Eu adoro Beata, uma pessoa como eu que não gosta de fuxico, não vivo na casa dela, só estive lá para ver uma festa de Iemanjá, todas as pessoas que estavam lá não foram ver Iemanjá, e sim ver o Asé de Iemanjá. O povo tira o chapéu para ela. Muita gente diz que sou besta, mas não é isso, é que procuro meu lugar, não somos obrigados a gostar de todo mundo.

U – Vamos encerrar a entrevista, já sabemos que a senhora é muito ocupada, gostaríamos que mandasse uma mensagem para aqueles que estão no começo do caminho, onde a senhora já se lançou.

N – Existe muita ingratidão para quem ocupa a cadeira de Yalorixá, mas se você tiver fé no seu santo, erga a cabeça e siga em frente. Axé para todos, leitores, representantes da União, Babalorixás, Yalorixás e toda comunidade espírita!

Fonte: http://www.uucab.com.br/uucab_informativo_gemas_yanitinha.html

5 comentários:

Avanir disse...

É menos uma Yalorixá autêntica junto a nós. Mãe Nitinha faz-me lembrar muito a Yá Natalina de Oxum, já falecida há muitos anos e que era a mãe de santo de minha mãe carnal, Maria de Lourdes, falecida há um ano e que era Dofonitinha de Ogum.
Yá Natalina também só servia após o candomblé, as comidas típicas e não deixava fazer cantorias e nem samba de roda após o Candomblé.
Minha falecida mãe sempre seguiu as orientações e ensinamentos de sua mãe de santo. Naquele tempo, lá pelos idos de 1957,quando mamãe foi raspada, a feitura de santo era muito diferente. Minha mãe ficou 6 meses na camarinha antes da saída e tinha uns preceitos que não vemos mais hoje em dia.
Que Olodum dê à Mãe Nitinha um lugar no seu reino cheio de paz e de luz para que de lá possa iluminar os caminhos de todas(os) nós.
Um abração afro
Avanir

Renato D´jagun disse...

Maezinha,que mae oya encaminhe a senhora para um jardim de muitas flores.

obrigado por lutar pelo nosso candomble

Anônimo disse...

OBRIGADO.

UMA HONRA.

CLAUDIA CASTRO

Anônimo disse...

Ouvi falar de Mãe Nitinha de Oxum,pela primeira vez no centro que faço parte...Quando foi contada a história e vida dela com o barracão,me interessei e passei a querer me informar...Muito legal essa entrevista,forte abraço,Jussara.

Learn english disse...

Tenho todo respeito pela mãe de santo dona nitinha. Mas minha amada mãe de santo dona Julieta Santos Matos(Gimêgi) foi a maior de todas.Ela faleceu ontem 11/03/2010, nos deixa uma irreparavél saudade,mas eu sei que ela esta juntinho de oxala,Vá com deus minha amada mãe,é com lagrimas nos olhos que escrevo.

SALVE GIMÊGI.
Passem a frente