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sexta-feira, 18 de abril de 2008

Rolo vibra: "Até que enfim, cinema de negão!"



Em parceria com o African Filme Festival, de Nova York, a mostra traz um panorama contemporâneo de filmes africanos e brasileiros.

A CAIXA Cultural recebe, de 22 a 27 de abril, a mostra "Espelho Atlântico". Com direção geral da cineasta Lilian Solá Santiago, o evento traz uma primorosa seleção de filmes africanos e da diáspora negra para o Rio de Janeiro. Espelho Atlântico é uma abordagem atual e significativa da produção cinematográfica africana contemporânea e também da realizada fora do continente, mas que dialoga diretamente com a herança cultural do continente africano.

Av. Almirante Barroso, 25, Centro (ao lado da estação Carioca do metrô)
Tel: 21 2544 4080 – Site: www.caixacultural.com.br
Temporada: de 22 a 27 de abril de 2008
Sessões: a partir das 19h (curta-metragem sempre seguido de um longa metragem)
Classificação etária: confira a programação
Preço: R$ 4,00 (inteira); R$ 2,00 (meia-entrada)
Acesso para portadores de necessidades especiais

Dia 22
O Clandestino
Direção: Jose Laplaine - Zaire/Angola, 1997, 15 min.
Quando um angolano clandestino chega a Lisboa, ele percebe que a Europa de seus sonhos não é o paraíso que imaginava. Sempre tendo que fugir de um policial persistente, ele começa a ter saudades da terra natal.
Kuxa Kanema – O nascimento do cinema (doc.)
Direção: Margarida Cardoso, Bélgica / França / Portugal, 2003, 52min
O governo Moçambicano cria após a independência, em 1975, o Instituto Nacional de Cinema (INC), pois o presidente, Samora Machel, sabia do poder da imagem para a nação socialista. A ruína do INC após um incêndio acompanha a desilusão dos moradores com o regime. Vencedor do Festival de Nova York de Filmes Africanos.

Dia 23
Mama Put – (ficção)
Direção: Seke Somolu, 2006, 30min, Nigéria
A história de um grupo de jovens armados que invade a casa de uma pobre família mostra o poder do alimento de transformar, salvar e estremecer relações sociais na Nigéria. Mama Put é o filme de estréia do cineasta nigeriano Seke Somolu.
A cidade das mulheres – (doc.)
Dir: Lázaro Faria, 2005, 72 min, Brasil
O filme é uma resposta à Ruth Landes, antropóloga norte-americana que esteve, em 1939, na Bahia, e se surpreendeu com a força e a soberania das mulheres do candomblé dentro de uma organização matriarcal. Ganhador dos prêmios Tatu de Ouro e BNB de Cinema.
Dia 24
Menged (ficção)
Direção: Daniel Taye Workou, 2006, 20min., Etiópia
Adaptação de um conto popular etíope, sobre a trajetória de um pai e seu filho até o mercado. Mostra a Etiópia de hoje: um país na transição entre modernismo e tradicionalismo. Venceu do Urso de Cristal no Festival Internacional de Filmes de Berlim.
Mortu Negra (ficção)
Direção: Flora Gomes, 1987, 85min, Guiné-Bissau.
No interior da Guiné, lutando contra a presença colonial, o exército de libertação constrói o dia-a-dia entre a vida comunitária e o percurso para a independência de seu país. O filme marca a estréia do consagrado cineasta Flora Gomes.
Dia 25
Balé de pé no chão (documentário)
Dir: Lilian Solá Santiago, 2008, 17 min, Brasil
Documentário sobre Mercedes Baptista, principal precursora da dança afro-brasileira. Bailarina de formação erudita, cria seu grupo na década de 50, e estuda os movimentos do candomblé e das danças folclóricas. Vencedor do Prêmio Palmares de Comunicação 2005.
Hollow City (Na Cidade Vazia) – (ficção)
Direção: Maria João Ganga, 2005, 88min., Angola
O filme narra a trajetória de um menino órfão, que, assim como muitos outros de sua geração, lutam pela sobrevivência em Angola que está devastada após a revolução civil. Conquistou o grande prêmio do Festival de Filmes de Paris.
Dia 26
Maria sem graça (vídeo / ficção)
Leandro Godinho, Brasil (SP), 2007, 14min
Maria das Graças, menina negra de 12 anos, moradora da periferia de São Paulo, atormenta a vida de sua mãe para alcançar seu maior sonho: ser a apresentadora Xuxa Meneghel. Selecionado para o Festival Internacional de curta-metragens de São Paulo.
Família Alcântara (documentário)
Direção: Lílian e Daniel Solá Santiago,2006, 52min
História de uma família extensa, cujas origens remetem-se à bacia do Rio Congo, na África. Através de gerações, preservam sua história, com o coral, teatro e a congada. Premiado no 11º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, no Mato Grosso.
Dia 27
The Ball (ficção)
Orlando Mesquita, 2001, 5 min, Moçambique
Em um país que luta para combater a Aids, vinte milhões de preservativos são distribuídos, isto é, 5 por pessoa por ano. Muitas pessoas as usam de outra forma, por exemplo, os garotos que as utilizam para fazer bolas para jogar futebol.
O Herói (ficção)
Angola / França / Portugal, 2004, 97 minutos
Direção: Zezé Gamboa
Um soldado mutilado na explosão de uma mina volta à Luanda após 20 anos de combates. No elenco o senegalês Makena Diop, as brasileiras Maria Ceiça e Neuza Borges. Premiado no Festival de Sundance (EUA) e no Festival de Cinema Africano de Milão, entre outros.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Grande Otelo é Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro


Com um bem bolado cenário que evocava a eterna preocupação do homem (e de sua arte – o cinema) com o tempo, o sonho e também a memória, representado através do relógio derretido de Dali, ampulhetas gigantes, e de uma animação com um relógio de engrenagens à mostra, que ora mostrava o tempo passando, ora servia de telão para mostrar os candidatos aos prêmios e os homenageados. Foi assim, entre celebridades, repórteres do Pânico na TV e fotógrafos com lugares marcados lááá em cima nas frisas e curralzinho para trabalhar na cobertura que o Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro 2007, consagrado pela Academia Brasileira de Cinema, foi apresentado ontem no Rio de Janeiro. Com vencedores nas 23 categorias, que levaram pra casa o troféu Grande Otelo, uma curiosa escultura de João Uchôa que lembra uma jabuticaba, a premiação mostrou a força do cinema brasileiro, bem representada pela Academia Brasileira de Cinema. Filmes que entraram em cartaz nacionalmente tiveram expressivas bilheterias, foram parar nas prateleiras das locadoras e no reino da pirataria, receberam o “Grande Otelo”.

Nos agradecimentos, Lula Carvalho, eleito o melhor Diretor de Fotografia d filme Tropa de Elite, não se furtou em falar a favor dos direitos humanos e comentar a atual situação da segurança pública no País. O produtor Marcos Prado também fez sua manifestação política, ao abrir uma bandeira do Tibet, quando subiu ao palco para um dos prêmios de Tropa. Até Renato Aragão, um dos homenageados - apresentado pelo “desengraçadíssimo” Daniel Filho - ironizou com sua própria trajetória de mais de 40 anos no cinema, onde “fiz protagonistas que apanhavam dos bandidos na tela e da crítica especializada fora dela”. Os outros premiados agradeceram aos colegas, aos parentes e aos filhos recém-nascidos e por nascer.

Destaque para Hermila Guedes como melhor atriz pelo “O Céu de Suely”, Wagner Moura como melhor ator em “Tropa de Elite” e “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” de Cao Hambúrguer, o melhor filme de ficção e Otto Guerra pelo longa de animação "Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock’n’roll".

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Igreja Universal distribui "óleo santo" contra a dengue

E o Malafaia ainda quer que os jornalistas fiquem dando os nomes, identidades e cpfs dos malandros da fé. Aí, Malafaia, essa galera você sabe onde mora. Vais fazer alguma coisa??? (Marcio A.)

Por Latuff

Diante da epidemia de dengue que mata no Rio de Janeiro, muitas soluções tem sido apresentadas. Larvicida, fumacê, tendas de hidratação, hospitais de campanha, anúncios na TV e outdoors na tentativa de esclarecer a população quanto ao combate dos focos do mosquito. Esqueça tudo isso! A salvação está num "óleo santo" distribuido pela notória Igreja Universal do Reino de Deus.

Num panfleto intitulado "Proteção divina contra a dengue", a Igreja conclama os incautos a se concentrarem nas dependências da suntuosa "Catedral Mundial da Fé", onde receberão um "cálice com o óleo santo" para que "todos sejam livres desta epidemia".

No verso do folheto, um espaço para que o fiel possa listar as pessoas que serão agraciadas com a "oração da proteção".

Tamanha estupidez dispensa maiores comentários. As imagens do panfleto falam por si.



domingo, 13 de abril de 2008

O Vociferante Silas Malafaia e a Intolerância Religiosa

2 Coríntios 13.8: Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade.


Quem assistiu ontem ao programa do reverendo Silas Malafaia, tanto na Rede TV, quanto na Bandeirantes, viu um homem indignado. Alguém que estava manifestadamente afetado em sua fé, em sua crença... enfim, um homem ferido.

O motivo de tamanha indignação do reverendo era o fato de o jornal Extra ter veiculado algumas semanas atrás matérias demonstrando a vinculação entre determinadas igrejas evangélicas e o tráfico de drogas, surgindo, desta vinculação um monstruoso quadro de intolerância contra os praticantes da umbanda e do candomblé nos morros cariocas.

Em seu ódio santo, Silas Malafaia chamou o jornalista de safado, de covarde, o desafiou a provar quem são as igrejas e os pastores que fazem isso e, de público, disse que estas igrejas e estes pastores seriam débeis mentais, idiotas, caso estivessem fazendo tal vinculação, afinal, o poder do Evangelho, e tão somente ele, já basta para tirar as pessoas das drogas, da prostituição e do homossexualismo.

Em nenhum momento Malafaia tocou na questão da intolerância religiosa. Buscou apenas desqualificar a matéria e, ao mesmo tempo pontuar que o que existe é uma série de interesses políticos por trás, os dele, inclusive, como veremos mais à frente.

Silas Malafaia citou duas vezes a palavra umbanda, nenhuma vez a palavra candomblé, e em dado momento referiu-se a cultos afro. E parou aí. Nada mais disse. Não se referiu ao fato de que, independente de ser ou não débil mental o pastor que está ali "convertendo" o traficante, o fato real e objetivo é que há casos graves de violência e de intolerância religiosa contra pessoas não cristãs nessas comunidades.

De repente, não mais que de repente, o discurso do reverendo mudou e ele passou a falar da questão da homossexualidade. Reparem que acima eu grafei o sufixo ismo, quando ele, o Malafaia, refere-se ao "homossexualismo". Ou seja, o sufixo ismo é o que determina doença, é o que se tornou uma das primeiras bandeiras do movimento GLBT que era dizer que a homossexualidade não é doença, mas uma condição que já nasce com a pessoa.

O reverendo Silas Malafaia é pessoa extremamente bem preparada. É um orador brilhante, profundo conhecedor da Bíblia, da hexegese, da hermenêutica e por aí vai. Pelo que deu a entender ontem, é ainda formado em psicologia. Portanto, não é um desses ignorantes fundamentalistas que lêem a Bíblia de qualquer maneira e saem interpretendo-a da forma mais absurda possível. Não. Silas é um pastor pentecostal que sabe falar e sabe o que quer. E não há dúvida que hoje a seara pentecostal é um grande império financeiro e político.

Quando Silas Malafaia deixa de falar como um pastor, um dirigente religioso e passa a falar como um doutrinador político ele acaba por revelar a verdadeira face do seu discurso, que é, nada mais, nada menos, que conduzir as massas evangélicas naquilo que virou a grande bandeira de luta dele e de seu grupo político: o combate à homossexualidade e pelo espaço político-ideológico-doutrinário.

Quando ele diz que a sociedade brasileira não deve temer uma república evangélica, no fundo, no fundo, ele está dando a dica do desejo inconsciente dessa massa que cresce e grassa na ignorância da maioria da população brasileira.

Infelizmente o pentecostalismo e seu irmão mais pernicioso, o fundamentalismo, visceja nos espaços onde a falta de educação formal, o subemprego, a pobreza e a violência estão mais presentes. E, coincidentemente, por um desses mistérios que os Kamels e Maggies da vida respondem rapidinho, são espaços também frequentados por uma população negra, desamparada, desassistida. É triste, portanto, ver essa população negra rejeitar sua história, sua raíz, sua tradição, em nome de uma concepção teológica equivocada que busca dizer às pessoas que elas têm que se santificar quando o Cordeiro de Deus, com seu sacrifício, já tirou o pecado de toda a humanidade.

O que está posto, na verdade, é uma disputa. Uma disputa por cabeças, uma disputa por rebanho, uma disputa por mais e mais gente. Gente que esteja disposta a seguir líderes religiosos em suas guerras santas contra tudo aquilo que eles definem como imoral, como não aceitável, a partir de suas próprias perspectivas.

Em verdade, a fala de Silas Malafaia reforça a idéia de que um embate está sendo travado, que uma guerra está prestes a explodir e que ele, como um general de exército, está dando as palavras de ordem, a voz de comando para os seus soldados.

No entanto temos que romper a lógica de guerra. Temos que buscar reforçar a laicidade do estado. Temos que buscar garantir os mecanismos constitucionais e jurídicos que garantem a liberdade de culto. Temos que reforçar o diálogo com setores evangélicos que estejam dispostos a contribuir para essa compreensão e não fecharmos os canais a partir da fala de Malafaia ou de outros que possam vir depois.

Tenho a firme convicção de que o reverendo Silas Malafaia acredita em cada palavra que diz. Acredito na fé que o move e acredito na pureza de sua alma e nas boas intenções de seu coração. No entanto, problematizo esta fala a partir da percepção de que ela nao ajuda no combate à intolerância, mas a reforça a idéia de que há um mundo puro e correto (o cristão, evangélico) e a um outro errado, perdido e impuro que precisa ser convertido. E é essa lógica que precisa ser modificada. As perguntas são: estarão os evangélicos dispostos a travar este debate? Estarão eles dispostos a compreender que Deus em sua grandeza pode se manifestar de diferentes formas a diferentes culturas? Ou estarão dispostos a manterem a lógica de que a eles a verdade pertence?
São algumas questões que precisamos ter em mente para começar esse debate num outro patamar.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Da arte de ser Pelópidas...



Da arte de ser Pelópidas: 
Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo, alagoano que se mudou para o Rio de Janeiro nos anos 30, não imaginava que seria Paulo Gracindo e que faria carreira e sucesso até o fim da vida, no rádio, no cinema, na televisão e no teatro. E sua cine-biografia “Paulo Gracindo - O Bem-Amado”, dirigida e produzida pelo clã dos Gracindo (com Epaminondas, o nosso Gracindo Júnior, à frente), emocionou o público ao mostrar na tela grande, imagens de nossa memória afetiva, onde a televisão e as novelas e os casos especiais tem espaço reservado. Quem não se lembra de Gracindo como o Primo Rico do humorístico de tv Balança Mas Não Cai. Ou, antevendo Cesar Maia, com Odorico Paraguassu, o ardiloso e bufão prefeito da cidade de Sucupira, em O Bem Amado, de Dias Gomes. Há também Os Ossos do Barão e O Casarão, onde Paulo Gracindo interpretou várias épocas e idades. Para os cinéfilos, Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha e Tudo Bem (1978) de Arnaldo Jabor, mostram um ator mais maduro e seguro, ousando na interpretação (durante longos anos, Gracindo - um homem bonito - era escalado para papéis de homens elegantes e afetados). Com a maturidade, sua beleza física passou por uma transformação que resultou numa busca e entrega por personagens mais consistentes. Mesmo faltando cenas do espetáculo Brasileiro: profissão Esperança (que fez com a cantora Clara Nunes), este filme que é uma bela homenagem da família ao seu patriarca e, principalmente, ao seu público. E a todos nós.

Da Divisão, nasceu a Ordem


Manchester, 1976. O punk e seus ícones, Sex Pistols e Buzzcocks explodem no mundo, se contrapondo aos seus antecessores compatriotas da década anterior, os supostamente comportados Beatles. Na esteira desse sucesso, o Joy Division se estabeleceu na cena underground, culminando o desejado sucesso como suicídio de Ian Curtis, aos 23 anos, após descobrir-se epilético. Na época, sem olhar para trás, os membros sobreviventes Bernard Sumner, Stephen Morris e Peter Hook fundam o New Order. Grant Gee dirige este documentário que não fica lento em momento algum, com cenas inéditas, muita barulheira punk de início, música boa quando eles aprendem a tocar e depoimentos dos envolvidos na banda, hoje, senhoras e senhores vetustos, como convém aos ingleses que já foram muito loooucos! Atentem para a curiosa figura do finado vocalista e sua dança, que inspirou muito renato russo por aqui alguns nos mis tarde.

Documentario puro: Sumidouro e O Aborto dos Outros


Cris Azzi e Carla Gallo são cineastas da nova geração. Com olhares atentos e preocupações sociais, os diretores de Sumidouro e O Aborto dos Outros, respectivamente, trazem à tona dois temas que ocupam a imprensa escrita, falada e televisada (ave, Odorico!) do país: a construção de barragens que desalojam moradores de comunidades ribeirinhas e as questões legais do aborto.

Em Sumidouro, Cris acompanha durante alguns anos, o processo de deslocamento de 5 mil moradores no Vale do Jequitinhonha (MG), para a construção do lago de 200 metros de profundidade que vai alimentar a Usina Hidrelétrica de Irapé. Deixando para trás casas, cemitérios, histórias familiares e o rio – sua referência e fonte de subsistência, os moradores vão para novas cidades, reconstruídas na chapada, onde as casas são iguais e têm na campainha uma das grandes novidades. Com sua câmera discreta, Cris estabelece uma relação de confiança com os moradores e consegue transformar o tempo real em tempo ontológico, deixando que as pessoas, a natureza e tudo o mais sejam o focos de movimentação e não a câmera, algo raro na linguagem cinematográfica atual.

Carla Gallo aborda vários casos de mulheres em vias de realizar abortos por diferentes razões: estupro, má-formação fetal grave ou o desejo de simplesmente interromper a gravidez. As mulheres em geral são pobres, o que as faz entrarem em conflito com suas convicções religiosas ou terem problemas com a Justiça. A diretora consegue realizar um comovente acompanhamento de vários casos, sem usar imagens apelativas ou cruas, mesmo mostrando boa parte das cenas em hospitais. Um detalhe interessante é a linguagem usada por Gallo, ora tornando o filme arrastado - o que de certa forma tira do foco da questão do aborto – ora tornando o filme atraente – o que acontece quando ela registra um dos depoimentos enquadrando apenas o olho da paciente em um grande close-up (Buñuel puro!).

Jequié de Salomão, Salomão de Jequié


Waly Salomão era muito doido! Não tinha travas nem papas na língua, antes de ser atacado, atacava, colocando os interlocutores a sua volta na berlinda. E o filme mostra isso, mostra que o poeta era um fingidor nato, estava sempre falando, fazendo, atuando para as olhos-câmeras dos outros. Pan-Cinema Permanente de Carlos Nader é isso. Uma overdose de Waly Salomão. Como ele mesmo era, em sua figura, em sua fala, em sua poesia (esta sim, o seu melhor!). Ele me foi apresentado por José Junior, do Afroreggae. Fomos até Barra da Tijuca, num pequeno táxi, porque Waly nos apresentaria alguém de uma gravadora que daria uma força no então jornal da Ong. Waly deve ter me achado um chato, porque na volta não me deu papo (e olha que eu nem abri a boca na ida e menos ainda durante a reunião!). Depois cheguei a encontrá-lo algumas vezes pelo Brasil. Durante o filme, muito bem feito, alguns amigos dão declarações que se mostram dúbias: declarações de amor ou críticas ferinas? Com seu jeito espaçoso e sua figura operística, Waly consegue dar a direção (em português!) de um talk-show do qual participou na Síria, onde foi encontrar suas raízes. Material inédito, bastante interessante (com cenas impagáveis como as que mostram o poeta quebrando, acidentalmente, um narguilé – um cachimbo de água utilizado para fumar - e prontamente perguntando quanto custaria um novo). Faltaram depoimentos de seu irmão Jorge Salomão e de seu parceiro Jards Macalé em parte compensados pela leitura de alguns de seus poemas por Antonio Cícero. A canção que Caetano Veloso compôs para Waly (seu eterno afeto-desafeto) diz tudo.