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quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Xô Sarney - Vira Movimento Nacional

Vejam vocês como um tiro pode sair pela culatra. A coligação que apóia José Sarney ao Senado, no Amapá, acionou a Justiça por que o blog da jornalista Alcilene Cavalcante reproduziu uma caricatura que havia sido pintada num muro contra o senador. A justiça acatou o pedido da coligação e proibiu o blog de veicular tal imagem. Ou seja, no momento em que estamos enfrentando graves problemas na Internet com a veiculação de materiais que incentivam a pedofilia, racismo, homofobia entre outras práticas, a velha ceguinha resolve que o problema está em veicular a caricatura "ofensiva" ao acreano da gema José Sarney.

Pois bem, deram com os burros n´água e hoje um movimento nacional de reprodução da caricatura está em andamento. Isto porque acreditamos que varrer pessoas como Sarney da política fará um bem danado à própria política. Depois porque cremos ser necessário nos solidarizarmos com Alcilene Cavalcante e, por fim, porque acreditamos que censuras desse tipo só merecem nosso desprezo.

Então faça parte, copie a caricatura. Reproduza em seu site, eu seu blog, anexe ao seu email e mande aos amigos. E se você tem familiares e conhecidos no Acre, melhor ainda, convença-os a dar um imenso "Xô Sarney", para o próprio e seus aliados.

(Eu estou reproduzindo a charge nos três blogs que nos meus dois blogs sérios (o Palavra e o Atentos à Mídia) e no meu blog de humor e safadeza que é o Bom-Gosto)

terça-feira, 29 de agosto de 2006

" Queridos amigos,

Duas semanas atrás, mais de 300.000 de nós, de 150 países, se uniram para parar a guerra no Líbano. Como nós ajudamos a estabelecer um frágil cessar fogo lá, nós recebemos centenas de emails de vocês, sugerindo que nós continuemos nossa campanha focando na causa-raiz dos problemas na região: a relação Israel/Palestina. Centenas de civis foram mortos na Palestina no último mês e os tanques de Israel e os foguetes do Hamas aprisionaram os residentes em uma situação desesperadora.

Imagens deste conflito assombram nossas televisões há décadas. Especialistas concordam que o conflito Israel/Palestina é a causa raiz da guerra no Líbano, promove tensões entre Israel e o mundo árabe e é citada por Islâmicos radicais como uma razão chave para ataques terroristas nos Estados Unidos e em outros países. E ainda, por anos a fio, não houve esforços combinados ou liderança para reiniciar o processo de paz, apesar de vários indicativos de esperança e oportunidades. Por favor, clique abaixo para solicitar ao Conselho de Segurança da ONU, ao Primeiro Ministro de Israel, ao Presidente e ao Primeiro Ministro da Palestina para implementarem imediatamente um cessar fogo entre Israel e Palestina e relançarem um novo e abrangente processo de paz:

http://www.ceasefirecampaign.org/index.php?id=36

Este é um momento de oportunidade no Oriente Médio. A atenção do mundo todo está focada na região e líderes mundiais, tais como o Primeiro Ministro do Reino Unido, Tony Blair e o Secretário Geral das Nações Unida,s Kofi Annan a estarão visitando nas próximas semanas. Em setembro, quase todo líder mundial estará se reunindo no encontro das Nações Unidas, em Nova Iorque. O Presidente dos EUA, George Bush modificou rapidamente sua agenda para focar toda sua atenção numa confrontação mais ampla com a Síria e o Irã. Nós precisamos agir rapidamente antes que este momento passe para direcionar atenção para os objetivos corretos. Por favor, clique abaixo para assinar nosso apelo à ação e enviar sua mensagem personalizada diretamente aos tomadores de decisão:

http://www.ceasefirecampaign.org/index.php?id=36

Se suficiente pressão for criada, um cessar fogo entre Israel e Palestina pode ser alcançado em alguns dias. Reiniciar o processo de paz tomará mais tempo, mas nós podemos dar um primeiro passo ajudando a posicionar esta questão no topo da agenda internacional...

Com esperança,

Ricken, Priscila, Tom, Alicia e o resto da Equipe da Campanha de Cessar Fogo."

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Elife monitor: escutando a rede

elife monitor: escutando a rede

Acaba de entrar no ar, em modo beta, o elife monitor, um serviço que já escuta mais de 2.600 comunidades web de língua portuguesa e mostra o que de relevante está sendo dito lá, contra ou a favor alguma coisa. a página de entrada tem as 100+ marcas [ou pessoas] mais comentadas da web brasileira e, apesar de uns ajustes que ainda têm que ser feitos, o sistema já pode ajudar muitsa gente a entender o que significa presença na rede. vai ser muito útil pra empresas e suas assessorias de comunicação…

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Os Estatutos do Homem

Os Estatutos do Homem

Thiago Mello

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:

O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo
gosto de aurora.

Artigo VII.

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X.

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI.

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
a festa do dia que chegou.

Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

sábado, 19 de agosto de 2006

Duas histórias, dois homens geniais

Lembrança do Cavalo Louco

Construção do monumento ao guerreiro indígena norte-americano Crazy Horse foi iniciada em 1948 e se estende até hoje
Redação


Um artista, uma obra, uma vida. O escultor autodidata Korczak Ziolkowski passou 34 anos trabalhando em um único projeto. Em 1948, ele recebeu uma incumbência de chefes Sioux: mostrar ao homem branco que os índios também têm heróis. Ziolkowski morreu em 1982, mas sua saga continua viva. Em uma montanha americana de Black Hills, Dakota do Sul, está a obra que se tornará a maior escultura do mundo. É o monumento ao guerreiro Lakota Crazy Horse, que terá 173m de altura e 197m de comprimento.

O rosto de 27 metros de altura mostra as feições de um herói. Ou melhor, de dois. Depois de receber a missão dos Sioux, o escultor não desistiu nunca. Aquilo se tornou seu objetivo de vida. Seu e de sua família. Em 1950, Ziolkowski se casou com Ruth, que chegou a Dakota do Sul no mesmo ano em que a obra começou. Eles criaram dez filhos, sempre dedicados ao projeto.

Mesmo com a morte do marido, Ruth nunca pensou em abandonar o trabalho. Hoje, ela é chefe, avó, mãe, captadora de fundos e gerente de operações da missão. ‘‘Foi a minha vida também, por todos aqueles anos’’, lembra, com saudades. ‘‘Eu não saberia o que fazer mais.’’ O filho Casimir segue os passos e a obstinação do pai. Quer ver a escultura pronta e ajuda o máximo que pode.

Ajuda também vem de turistas, que ficam fascinados com a magnitude do Crazy Horse de pedra. Todo ano, cerca de um milhão de visitantes passam por Black Hills para ver de perto a escultura. O dinheiro que eles gastam em artesanato indígena, livros e tíquetes de entrada mantém vivo o sonho de Ziolkowski.

O local onde está sendo erguido o monumento a Crazy Horse foi cenário do ‘‘oscarizado’’ filme Dança com Lobos, dirigido e estrelado por Kevin Costner. Com sua história politicamente correta do cotidiano dos índios Sioux, Costner levou sete estatuetas para casa. É difícil acreditar, entretanto, na simpatia que se observa entre um militar americano e os nativos.

Em 1870, um grupo de guerreiros liderados por Crazy Horse chacinou a Sétima Cavalaria do Exército dos Estados Unidos. Cada parte tinha seu ponto de vista. Os brancos achavam que podiam invadir as terras, os índios achavam que as terras eram deles. Quem estava certo? De fato, as tribos nasceram no local, foram os primeiros ocupantes, os verdadeiros nativos. Defenderam seu lar com um banho de sangue.

Duas décadas depois, em 1890, a Sétima Cavalaria se vingou. Mais sangue derramado: 104 guerreiros e 250 mulheres e crianças Sioux foram assassinados. O evento, que chocou a opinião pública americana na época, hoje é lembrado apenas por uma simples placa em Woondeed Nee, local das mortes.

As colinas de Black Hills também abrigam outro grande monumento, desta vez em homenagem ao homem branco. São os rostos de quatro presidentes americanos — George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln — esculpidos a poucos quilômetros da estátua de Crazy Horse. O ‘‘cavalo louco’’ também fica próximo a uma cidade chamada Custer, em homenagem ao general George Armstrong Custer, herói da Guerra Civil americana e comandante da Sétima Cavalaria. Uma ironia do destino.

Hoje, os Oglala-Lakota, tribo de Crazy Horse, ocupam a reserva indígena Pine Ridge. Com 270 mil hectares, é uma das maiores do país. Dos 22 mil habitantes, 90% estão desempregados. As manadas de bisonete, principal fonte de alimento dos índios por séculos, praticamente desapareceram. O que restou está nas mãos de fazendeiros particulares. Na guerra das raças, certamente os brancos venceram, mas o sonho do escultor Ziolkowski persiste. Crazy Horse vive.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Um vitória para os direitos humanos

Brasil é condenado por Corte Interamericana de Direitos Humanos

Corte Interamericana de Direitos Humanos
Condenação é a primeira contra o Brasil na Corte Interamericana
Familiares de uma vítima de abuso de direitos humanos venceram pela primeira vez um caso contra o Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos, sediada na Costa Rica.

O caso diz respeito à morte do cearense Damião Ximenes, em novembro de 1999, enquanto estava internado na Casa de Repouso Guararapes, uma instituição psiquiátrica à época filiada ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Damião morreu quatro dias depois de ser internado na clínica, que fica a 200 km de Fortaleza.

Embora o laudo do Instituto Médico Legal – redigido pelo mesmo médico que trabalhava na Casa de Repouso – apontasse "causa (de morte) indeterminada", Damião apresentava marcas de tortura e maus-tratos.

Em mais de 80 páginas de justificativas, a Corte decidiu que o país violou a Convenção Americana de Direitos Humanos em quatro artigos.

A sentença determina que o país a investigue os responsáveis pela morte de Damião e realize programas de capacitação para profissionais de atendimento psiquiátrico, além de elevar o valor da indenização aos familiares.

O tribunal enfatizou que é a primeira vez que julga a "violação dos direitos de uma pessoa portadora de deficiência mental".

De Ipoeiras, no interior do Ceará, a irmã de Damião, a contadora Irene, aplaudiu a decisão, mas lamentou que tenha sido necessário recorrer a um órgão internacional para conseguir as reparações pelo caso.

"Fomos à corte porque no Brasil um crime cometido por um manicômio nunca seria julgado", disse ela à BBC Brasil. "O do meu irmão seria apenas mais um."

Notificada nesta madrugada, a Secretaria Especial de Direitos Humanos ainda não se pronunciou sobre a sentença.

Caso

O caso se tornou notório no Ceará por conta da pressão de grupos de direitos humanos e da imprensa local à época em que ocorreu.

No dia 1º de outubro de 1999, Damião foi levado por sua mãe, Albertina, à Casa de Repouso Guararapes. Ela temia pelas crises do filho, que também sofria de epilepsia.

Na segunda-feira seguinte, Albertina voltou à clínica, mas teve a notícia de que o paciente "não estava em condições de receber visitas".

Fonte: Arquivo pessoal da família
Caso suscitou pressão de grupos de direitos humanos

Segundo a irmã de Damião, Irene, a mãe resolveu entrar à força. Lá, encontrou o filho "amarrado, com as roupas rasgadas, sangrando, coberto de hematomas e andando com dificuldades", relata Irene.

Caído aos pés da mãe, Damião teria dito: "Polícia, polícia…"

"Vendo o filho naquele estado, Albertina solicitou aos funcionários que o levassem para tomar um banho, indo em seguida procurar por um médico que pudesse atendê-lo na clínica", relata o processo encaminhado à Corte pela Organização não-Governamental Justiça Global, que representou a família.

"Encontrou finalmente o Dr. Francisco Ivo de Vasconcelos – diretor da Casa de Repouso Guararapes e legista do IML de Sobral – que se limitou a prescrever alguns remédios, sem sequer examiná-lo."

Sem opção, a mãe voltou à sua casa, no município de Varjota, a 70 km de Sobral. Mal chegou, foi chamada de volta à clínica. Lá, descobriu que o filho havia morrido.

A morte de Damião foi atribuída a "parada cardiorrespiratória" e "causa indeterminada" pelo mesmo médico que assinou os laudos da instituição psiquiátrica e do IML, respectivamente.

Indignada, a família procurou grupos de direitos humanos e a comissão de direitos humanos da Assembléia Legislativa do Ceará.

Em julho de 2000, a pressão da opinião pública levou a uma intervenção de 120 dias na Casa de Repouso Guararapes, que foi fechada.

Responsabilidades

O processo que chegou à Corte acusou o Brasil de violar quatro artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos: o 4º (direito à vida), o 5º (direito à integridade física), o 8º (direito às garantias judiciais) e o 9º (direito à proteção judicial).

Ao longo do processo, o Brasil reconheceu que havia violado os dois primeiros artigos, mas afirmava que havia tomado providências para melhorar a fiscalização e o credenciamento de instituições psiquiátricas no país.

Por meio de convênio com o governo do Estado do Ceará, ofereceu-se à mãe de Damião uma pensão vitalícia no valor de um salário mínimo, que foi recusada pela família.

"Consideramos que este é um valor insignificante, que não cobriria nem as despesas de sete anos com o caso", disse Irene.

Os valores foram elevados pela decisão da Corte Interamericana.

Congresso Nacional, em Brasília
Para governo, legislação sobre clínicas psiquiátricas melhorou

O Brasil argumentou ainda que processos individuais tramitam contra os funcionários e proprietários da clínica na Justiça estadual.

Este ponto de vista vinha sendo questionado pela defesa da ONG Justiça Global, que destacou a lentidão dos trâmites judiciais, seis anos após a morte de Damião.

“Decisão histórica”

A diretora da organização, Sandra Carvalho, disse que a decisão é "histórica".

"(A decisão) é uma referência para a proteção dos direitos humanos e, em particular, dos pacientes psiquiátricos. O Brasil tem agora a oportunidade de mostrar que quer combater violações (deste tipo)", disse a diretora-executiva.

Em voto separado, o juiz brasileiro Antonio Cançado Trindade criticou a legislação brasileira de direitos humanos, e em particular uma mudança constitucional realizada em 2004, que dificultou a aprovação no Congresso de tratados internacionais na área.

É a primeira vez que um caso de abuso de direitos humanos no Brasil é julgado na Corte Interamericana da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Apenas há oito anos o país aceita a competência do órgão para julgar casos de direitos humanos. Foi um dos últimos no continente.

No Peru, que aceita a Corte desde 1981, e na Colômbia, que acata as decisões do órgão desde 1985, as sentenças têm ajudado a criar uma legislação no campo dos direitos humanos.

Uma série de sentenças condenatórias ao Estado peruano durante o regime do presidente Alberto Fujimori tem sido especialmente apontada como um marco na luta pelos direitos humanos dentro do país.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Texto fantástico, vale à pena ler

Por Airton Luiz Mendonça - Artigo do jornal o Estado de São Paulo

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio... você começará a perder noção do tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sangüínea.

Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol. Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar: nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamen
tos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo. Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e "apagando" as experiências duplicadas.

Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente. Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo.

Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo. Como acontece? Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência). Em outras palavras, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa... São apagados de sua noção de passagem do tempo...

Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga aexperiência repetida. Conforme envelhecemos, as coisas começam a se repetir - as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de
televisão, reclamações... enfim... as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo.

Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.

Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a ... r-o-t-i-n-a. Não me entenda mal. A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.

Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo: M & M ( Mude e Marque). Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a
família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas. Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia). Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo. Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente.

Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes. Seja diferente. Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos... em outras palavras... V-I-V-A. Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo. E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém
disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais v-i-v-o... do que a maioria dos livros da vida que existem por aí.

Cerque-se de amigos. Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes. Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é? Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.

sábado, 12 de agosto de 2006

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Para além da primeira página

Para além da primeira página - O que o Jornal Nacional e a Folha de S. Paulo omitiram e o que Instituto Datafolha investigou

Por Wânia Sant´Anna

A abordagem feita pelo Jornal Nacional, em 22 de julho, e pelo jornal Folha de S. Paulo, em 23 de julho, da pesquisa de opinião dos brasileiros a respeito do Estatuto da Igualdade Racial e a política de cotas nas universidades reafirma, definitivamente, a má fé e a prática de manipulação dos grandes meios de comunicação no tratamento dos direitos da população negra do país.

O mais grave exemplo desta manipulação está no fato dos dois veículos de comunicação terem omitido que a pesquisa de opinião sobre esses assuntos estava combinada a uma sondagem sobre a intenção de voto nos três principais candidatos às eleições presidenciais – Lula, Geraldo Alckmin e Heloisa Helena. Isso mesmo! O Jornal Nacional e a Folha de S. Paulo simplesmente cortaram essa dimensão da enquete.

Como ficamos sabendo disso? Muito simples. O editor do jornal Ìrohìn nos pediu para fazer comentários sobre os resultados da pesquisa do Datafolha. Afinal, frente a todo o massacre da mídia contras as cotas para afro-descendentes nas universidades, é de grande relevância ter comprovado que a maioria da população brasileira, 65%, é favorável à medida. As informações veiculadas no Jornal Nacional e Folha de S. Paulo eram, claramente, insuficientes para uma avaliação mais detalhada.

No caso do Jornal Nacional, a intenção mais explícita era “detonar” com a proposta do Estatuto da Igualdade, jogando tintas fortes no fato de apenas 9% dos entrevistados estarem bem informados sobre o Estatuto e esmaecendo o fato de 46% mencionarem ter tomado conhecimento de sua existência. A Folha de S. Paulo “poupava” discretamente o Estatuto, mas também não deixou de enveredar pelo argumento do “desconhecimento” da população sobre esse assunto, e o seu interesse principal ficou em torno das cotas nas universidades, minimizando a opinião favorável da maioria ao destacar que entre os mais escolarizados e de maior renda a posição era contrária a essa política. O interesse da Folha foi o de polarizar o debate – ou seja, contrapor a política de “cotas raciais” às “cotas sociais”. Assim, e não por acaso saíram atrás dos “analistas”, e leia-se nenhum ativista de organização negra, para opinar sobre uma e outra proposta – cotas raciais versus cotas sociais.

Enfim, diante da suspeita de que havia algo de parcial na divulgação da pesquisa, parti para a fonte da informação: o Instituto Datafolha. O que teria sido, realmente, investigado pelo Datafolha? Disponibilizar recursos para uma pesquisa de opinião nacional nos moldes seguidos pelo Instituto já era algo a ser comentado, e não parecia crível imaginar que eles não tivessem descido a detalhes sobre esse assunto. Bingo! Estava certa, a pesquisa era muito mais ampla e as omissões muito mais graves.

Logo no primeiro parágrafo do texto de divulgação da pesquisa e elaborado pelo Instituto Datafolha lê-se, exatamente, o seguinte: “A maioria (65%) do eleitorado brasileiro é favorável de que 20% das vagas em universidades públicas e particulares sejam reservadas para pessoas negras e descendentes de negros, como prevê um dos capítulos do projeto do Estatuto da Igualdade Racial, que vem sendo discutido no Congresso, revela pesquisa realizada pelo Datafolha. Um quarto dos eleitores (25%) é contra as cotas para negros nas universidades”. Os grifos são nossos e estão aqui colocados para comprovar a má fé e a prática de manipulação dos meios de comunicação. O assunto é tema de agenda eleitoral e isso não parece ter sido omitido por lapso editorial. Em véspera de eleição, de alguma forma, tudo o que diz respeito ao comportamento e pensamento dos eleitores merecem atenção. E um assunto como esse não tem perfil para ser deixado de lado. Deixá-lo de lado não é omissão é decisão.


O que pensa o eleitorado brasileiro sobre as cotas nas universidades
A preocupação em apurar a opinião de eleitores demonstra que o assunto está na agenda eleitoral e assumiu, definitivamente, contornos nacionais. Pela pesquisa ficamos sabendo que entre os entrevistados que pretendem votar em Lula, 69% são favoráveis às cotas para negros nas universidades, 21% são contra, 4% são indiferentes e 7% não sabem – ou seja, não emitiram opinião a respeito. Entre os eleitores de Geraldo Alckmin, 66% são favoráveis às cotas, 29% são contra, 3% são indiferentes e 2% não sabem. Entre os eleitores de Heloisa Helena – aproximadamente 10% do eleitorado nacional – 56% são a favor, 28% são contra, 3% são indiferentes e 2% são não sabem. Entre os eleitores que declararam votar nulo ou branco, 56% são a favor, 38% contra, 4% são indiferentes e 2% não sabem.

Assim, a manchete de primeira página da Folha de S. Paulo, na edição de domingo, escondeu o essencial: que o eleitorado brasileiro, seja qual for a sua opção, atual, de voto não acredita que as cotas para negros nas universidades dividam o país. Essa informação talvez tenha inspirado o Presidente e candidato Luiz Inácio Lula da Silva a fazer, em Olinda, e já na segunda-feira, 24 de julho, a defesa do sistema de cotas, “Quando a gente começa a discussão das cotas, os que são contra, são por preconceito”. E indo mais além, acrescenta, “A gente vai em banco e não vê gerente negro, a gente não vê um dentista, um médico negro. A gente não vê na maioria das profissões uma pessoa negra”. (“Presidente acusa de preconceito os contrários a cotas”, FSP 24/07/2006) Mas por que é que o Presidente introduziu o debate sobre mercado de trabalho? Ele teria feito isso apenas para destacar a necessidade de profissionalização da população negra?

Talvez, sim. Porém é aqui, neste assunto, que surge uma outra incrível manipulação na divulgação dos resultados da pesquisa. O Instituto Datafolha também investigou a opinião do eleitorado sobre cotas nas empresas públicas e privadas, nos seguintes termos: “O Estatuto da Igualdade Racial prevê que sejam reservadas no mínimo 20% das vagas nas empresas públicas e privadas pra pessoas negras e descendentes de negros. E você é a favor ou contra que sejam reservadas vagas nas empresas para negros e descendentes de negros?”

E, também, neste assunto o eleitorado é francamente favorável às cotas para os afro-descendentes no mercado de trabalho. Entre os entrevistados que pretendem votar em Lula, 71% são favoráveis às cotas para negros nas universidades, 19% são contra, 4% são indiferentes e 6% não sabem. Entre os eleitores de Geraldo Alckmin, 69% são favoráveis às cotas, 27% são contra, 3% são indiferentes e 2% não sabem. Entre os eleitores de Heloisa Helena 62% são a favor, 35% são contra, 2% são indiferentes e 1% são não sabem. Entre os eleitores que declararam votar nulo ou branco, 58% são a favor, 32% contra, 5% são indiferentes e 2% não sabem. Ou seja, os percentuais de aprovação são, em todos os casos, até ainda mais elevados se comparados às maiorias expressivas de posições favoráveis às cotas nas universidades.

No entanto, o assunto não foi sequer considerado pelo Diretor Geral do Datafolha, Mauro Paulino, ao comentar a pesquisa na própria Folha de S. Paulo, “Necessidade de informação”, na edição de domingo, 23 de julho. O interesse do Diretor esteve concentrado em afirmar que “apenas um em cada dez brasileiros considera-se bem informado sobre o projeto de Estatuto da Igualdade Racial em tramitação no Congresso”, que “a ampla maioria (78%) concorda, mesmo que em parte, que as ‘as vagas nas universidades devem ser ocupadas pelo melhores alunos, independente da cor, raça ou condição social’”, e, finalmente, que “a pesquisa demonstra que a falta de informação é terreno fértil para se trabalhar os conceitos do tema. A maneira como esses conceitos serão comunicados e debatidos, principalmente nos veículos de comunicação, será determinante a partir daqui no posicionamento dos brasileiros sobre a questão. É papel das pesquisas acompanhar e revelar eventuais mudanças nesse cenário”.

Com esses argumentos, opiniões e escondendo informação tomada junto aos entrevistados e eleitores sondados nesta pesquisa, o Sr. Mauro Paulino deveria ser publicamente questionado, pois manipulou, de forma flagrante, em seu comentário, o conjunto de resultados obtidos pela pesquisa e, mais grave, corroborou com uma consulta na qual pelo menos uma de suas perguntas não expressa o que propõe o Estatuto da Igualdade Racial.

A proposta de cotas nas universidades, e defendida no Estatuto, não prevê reservas de vagas aos candidatos negros “independentemente das notas obtidas no vestibular em relação aos que não são negros e descendentes de negros” como apresenta o Instituto Datafolha. Portanto, antes de mencionar a necessidade de debater conceito e almejar, pela manipulação, posicionamento dos brasileiros sobre a questão, as pesquisas deverão dar tratamento justo e ético aos entrevistados e aos receptores de seus resultados, principalmente nos meios de comunicação.

Os receios do Instituto e da Folha de S. Paulo – o perfil incontestável da aceitação das cotas
O problema do Instituto Datafolha e Folha de S. Paulo é que eles sabem que será dificílimo reverter a impressionante e acachapante tendência favorável às cotas nas universidades e mercado de trabalho. Para o caso das cotas nas universidades, excetuando o grupo de pessoas com renda familiar superior a dez salários mínimos (2% da população) e com formação universitária, todos os perfis analisados pelo Datafolha demonstram maioria a favor das cotas. O Instituto revirou o perfil dos entrevistados, literalmente, pelo avesso: cor, sexo, idade, escolaridade, renda familiar, ocupação, religião, região do país na qual vive hoje, preferência partidária, avaliação do governo Lula, voto declarado para presidente no segundo turno de 2002 – em todas essas situações (recortes) o resultado foi favorável às cotas para negros nas universidades, todas! E em muitos casos, a posição favorável, percebe-se, é irreversível, chegando a percentuais superiores a 70%. Então, durmam com um barulho desses!

Sexo, Cor, Idade e Escolaridade – Perfis básicos das posições favoráveis
Homens e mulheres têm percentuais quase idênticos em sua posição favorável às cotas para negros nas universidades – com uma ligeira posição mais avançada das mulheres: 66% dos homens são a favor, 26% contra e 8% são indiferentes ou não sabem; entre as mulheres, 69% são a favor, 24 são contra e 10% são indiferentes ou não sabem ou não.

Entre as pessoas que se declararam brancas 62% são favoráveis às cotas para negros nas universidades nos termos apresentados pelo Datafolha, e apenas 31% são contra, 8% são indiferentes ou não sabem. Como nas pesquisas do IBGE também aqui as opções disponíveis para a população afro-descendente em relação à cor são as clássicas “preto e pardo”. Então, entre os autodeclarados pretos, 69% são a favor, 22% contra e 9% são indiferentes ou não sabem. Entre os pardos, 67% são a favor, 22% contra e 11% são indiferentes ou não sabem. Entre os que se declararam indígenas, tem-se o maior percentual de favoráveis às cotas, 77% e contra, apenas, 16%, os indiferentes e os que não sabem são 7%. Entre os amarelos, o grupo mais escolarizado no conjunto da população brasileira, outra grande surpresa, 66% são a favor, 27% contra e 7% são indiferentes ou não sabem.

Esses números são excelentes contra-argumentos para aqueles que insistem em afirmar que as cotas dividirão o país. Não é isso, exatamente, o que pensam os brancos, afro-descendentes, indígenas e população de origem asiática do país – todos, rigorosamente, todos exibem posição favorável superior ou próxima à média nacional de 65%. Ou seja, sob este aspecto, cor da população, a consistência do resultado nacional é inconteste. E, é bom sublinhar, a posição contraria uma visível minoria.

No que diz respeito a opiniões segundo faixas etárias, importa mencionar que os jovens entre 16 e 24 anos ultrapassam a média nacional de favoráveis em 1%. Nessa faixa etária, 66% são favoráveis às cotas para negros nas universidades, 27% são contra e 7% são indiferentes ou não sabem. Na faixa etária entre 25 e 34 anos, 67% são a favor, 26% são contra e 7% são indiferentes ou não sabem. Ou seja, os jovens e o grupo etário que lhes segue imediatamente demonstram perfis de aceitação praticamente idênticos.

Finalmente, os dados relacionados à escolaridade dos entrevistados.
A Folha de S. Paulo tentou relacionar a posição favorável às cotas como uma preferência de pobres e sem escolaridade e “decreta”: “A maior taxa de aprovação das cotas raciais ocorre entre as pessoas com escolaridade fundamental (71%). Já entre os entrevistados com nível superior acontece uma inversão: 55% são contra as cotas raciais.” Neste caso, inversão seria ter, entre os entrevistados com nível superior, 71% de contrários às cotas. Os 55% contra as cotas são, na realidade estatística, os menos favoráveis – o fato é que, neste grupo, 42% são a favor, 4% são indiferentes ou não sabem e eles, os de nivel superior, representam apenas 13,5% da amostra de pessoas entrevistadas. Não tem nada a ver com a maioria expressiva do grupo com escolaridade fundamental favorável às cotas e cuja presença de contrários é de apenas 16%.

Para completar, é importante que se registre uma outra importante e deslavada omissão: a posição dos entrevistados com escolaridade média, a rigor, os mais interessados no assunto e de peso amostral muito próximo ao grupo com escolaridade fundamental. Muito bem, entre o grupo com escolaridade média 65% são favoráveis às cotas, 30% são contra e 5% são indiferentes ou não sabem. Conclusão, unindo as opiniões favoráveis do grupo de escolaridade fundamental e média tem-se uma concordância de sólida relevância estatística.

O jogo duro e sujo
Os ativistas em favor das políticas de ação afirmativa – eu creio - nunca imaginaram que este assunto fosse algo leve de enfrentar. A pesquisa do Instituto Datafolha com a seleção de perguntas elaboradas, os comentários de seu Diretor Geral à Folha de S. Paulo e o conjunto de matérias que este veículo fez circular na sua edição de 23 de julho demonstram que o jogo será duríssimo de enfrentar. O jogo será duro e sujo porque a intenção será buscar as contradições nas opiniões. Daí a introdução, não por acaso, de seis (!) frases sobre as quais os entrevistados deveriam demonstrar o seu grau de concordância, discordância e neutralidade (nem concordância nem discordância). A concordância e a discordância deveriam ser ainda ser qualificadas com “concorda totalmente”, “concorda em parte”, “discorda totalmente” e “discorda em parte”. Ou seja, a segunda parte da estratégia de virar pelo avesso o eleitorado e a opinião pública nacional.

Foi justamente deste conjunto de frases que se chegou à conclusão de que é possível, como textualmente menciona o Instituto Datafolha, que “o debate seja deslocado da questão racial para a social”. Foi a partir da aferição sobre o grau de concordância ou discordância sobre essas frases que se permitiu afirmar que 87% dos entrevistados concordam que “deveriam ser criadas cotas nas universidades para pessoas pobres e de baixa renda, independente da raça” – e isso a despeito de 65% dos entrevistados terem se declarado a favor das cotas para negros na universidade, a partir de uma pergunta direta com opções de respostas igualmente diretas nesta mesma pesquisa!

De toda sorte, o que eles também perguntaram e omitiram em sua análise foram as opiniões relacionadas a princípios que, para nós, os ativistas, fundamentam a exigência de reparação pelos danos causados por mais de 350 anos de escravidão e nenhuma política de proteção ou promoção da população liberta em 13 de maio de 1888.

O Instituto Datafolha apresentou a seguinte frase para avaliação dos entrevistados: “As cotas nas universidades são necessárias porque os negros foram escravizados e merecem ser compensados por isso” . E assim ficamos sabendo que 54% dos entrevistados concordam com essa colocação, 37% discorda e 9% nem concorda e nem discorda. Entre os que se declaram brancos, 51% concordam, 41% discordam e 8% nem concorda e nem discorda. Entre os pretos 56% concordam, 35% discordam e 9% são indiferentes. Entre os pardos 57% concordam, 34% discordam e 9% também são indiferentes. Entre os indígenas, mais uma vez uma maioria expressiva, 65% concordam e apenas 27% discordam, os indiferentes são 8%. E, finalmente, entre os entrevistados de origem asiática 61% concordam, 38% discordam e, como os indígenas, apenas 8% são indiferentes. O jogo será mesmo duríssimo e sujo, também.

O Instituto Datafolha ouviu 6.264 eleitores, a partir de 16 anos de idade, nos dias 17 e 18 de julho, em 272 municípios. E, segundo informam, a margem de erro máxima, para o total da amostra, é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A íntegra da pesquisa podia, até o dia 30 de julho de 2006, ser acessada na página web do Datafolha.

Fonte: Irohin Online