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quarta-feira, 27 de julho de 2005

Dia do Motociclista ou deveria ser o Dia do Amigo?

Na semana passada foi comemorado o Dia do Amigo. Recebi emails e ligações carinhosas de amigos e amigas lembrando-me da data. Hoje é o Dia do Motociclista e fiquei pensando que as duas datas deveriam ser comemoradas juntas.

Em agosto de 2004 eu comprei um triciclo. O triciclo precisava de consertos e ajustes. Eu não conhecia nada desse universo motociclistico. Procurei na Internet e entrei numa lista de discussão cujo nome, curiosamente é Motociclist@, e ali pedi algumas dicas. Jorraram informações e pessoas dispostas a ajudar.

Com o passar do tempo fui conhecendo outros proprietários de triciclos, fui me enturmando na lista. Fui tomando umas cervejas com um aqui, comendo um churrasco com outro ali e, finalmente, percebi que havia descoberto minha turma.

Não que eu não tenha amigos. Tenho-os e muitos, graças a Deus. Mas eu nunca tive é uma turma. Aquela galera que um fio de afinidade faz transformar em amizade sincera e profunda. E fui descobrir isso no mundo motociclístico.

Lembro-me que em outubro do ano passado fui a um encontro em Irajá e na saída meu triciclo não queria pegar por nada. Um dos organizadores do encontro, Vice-Presidente dos Coringas de Irajá (que infelizmente esqueci o nome), ficou UMA HORA E MEIA comigo e meu cunhado tentando fazer o triciclo pegar. Chamou outras pessoas pra ajudar até que descobrimos que o problema estava na gasolina que era batizada. Essa foi, para mim, uma das maiores provas de consideração que já tive na vida. O cara não me conhecia, nunca tinha me visto, mas pelo simples fato de eu ter pedido uma chave de fenda emprestada ele saiu da festa em que estava e era um dos organizadores, para me dar atenção.

Depois disso conheci os Kafajestes (moto clube que adotei e que me adotou reciprocamente), estabeleci fantásticas relações de amizade com meus irmãos da lista Triciclo/Trike Brasil. Fui a Porto Alegre e ao Recife a trabalho e pude conhecer o Daniel Genésio (sem moto clube) e o Maia (Abutres), respectivamente, que me acolheram e me trataram como se fosse um irmão de sangue. Participei de eventos beneficentes, fui a passeios, tomei mais cervejas e comi mais carne...

Enfim, posso dizer que no dia do amigo eu tendo a pensar com muito carinho nos meus irmãos motociclistas e digo também que no dia dos motociclistas penso com muito carinho que hoje tenho muito mais amigos do que tinha antes.

E é isso, e apenas isso, que faz a vida valer à pena ser vivida. Afinal, dela nada levamos. Mas se deixamos plantada a semente do amor no coração dos nossos amigos, independente da crença que tenhamos podemos ter certeza que atingimos a imortalidade.

Parabéns, meus irmãos motociclistas e que nossas vidas sejam longas e as estradas sejam gentis com cada um de nós. Beijos no coração de cada um de vocês.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Nos últimos dez anos ocorreu um salto qualitativo nas discussões sobre direitos humanos no país. Se por um lado os temas de direitos humanos remetiam o cidadão comum a relaciona-los às questões voltadas para a violência e segurança pública, por outro levava os acadêmicos a tratarem de elementos muitas vezes incompreensíveis para a maioria das pessoas. Assim, tínhamos de um lado, a simplificação dos direitos humanos e de outro um arcabouço teórico e conceitual extremamente sofisticado.

Este cenário é alterado substancialmente quando as organizações da sociedade civil começam a trazer os direitos humanos econômicos, sociais e culturais para o seio das discussões de direitos humanos tradicionais. Avança-se no sentido de resgatar a Conferência de Viena (1993), que afirmou a indivisibilidade e universalidade dos direitos. Desta forma, tratar os direitos civis e políticos como direitos de primeira geração e os direitos econômicos, sociais e culturais como de segunda geração, passou, não apenas a ser um erro conceitual mas propiciou, sobretudo, a construção de um novo discurso e a possibilidade de um novo olhar sobre os direitos humanos no país.

As conferências nacionais de direitos humanos, promovidas pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara e por organizações da sociedade civil, também contribuíram efetivamente para dar aos direitos humanos, econômicos e sociais (Dhesc) uma visibilidade que até então era restrita aos círculos acadêmicos ou da militância mais antenada com as discussões internacionais.
Em 2000 a Conferência Nacional de Direitos Humanos discutiu e aprovou que o país apresentasse perante o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas, um relatório sobre a situação destes direitos no país. Um ano depois, uma comissão viajava a Genebra para apresentar este informe. As articulações que levaram à produção do relatório, sua apresentação em Genebra e posterior retorno às organizações nacionais possibilitaram o surgimento da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais e Culturais (Dhesc Brasil) que é hoje, sem dúvida, a principal articulação em torno deste tema em nosso país.

Avanços graduais na defesa dos direitos

A forma mais simples de sintetizar o que são os direitos civis e políticos é apontar o que o Estado não deve fazer contra a pessoa humana. Assim, ações como torturar, proibir o direito de ir e vir, de manifestação política, de reunião e de opinião, são expressamente proibidas pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. Já no caso dos Dhesc, o pacto que o rege (Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais – Pidesc) preconiza uma série de ações que devem ser implementadas pelo estado para que direitos como educação, saúde, trabalho, lazer, cultura, desenvolvimento econômico próprio, ciência e tecnologia entre outros, sejam efetivados.
As organizações da sociedade civil, nas duas últimas décadas, mas principalmente a partir da década de 1990, passaram a usar como estratégia o uso de uma série de instrumentos internacionais para defender esses direitos. Denúncias aos Comitês e à Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) e ações junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) passaram a ser comuns para algumas organizações não apenas visando denunciar, pura e simplesmente, mas fazer com que efetivamente as determinações e recomendações destes órgãos internacionais sejam cumpridas pelo governo brasileiro.

Hoje já se contabilizam êxitos importantes que estas ações lograram alcançar. O mais significativo deles é, sem dúvida que as organizações que lidam com os direitos humanos ampliaram seu raio de atuação saindo apenas da esfera da violência para discutir de forma ampla e qualificada, políticas públicas que venham a se transformar em políticas de defesa dos direitos humanos em sua concepção mais ampla.

No entanto, percebe-se que apenas estas ações não bastam. Se por um lado os direitos humanos se solidificam como elemento inerente à democracia e ao Estado de Direito, por outro percebe-se que há que se avançar mais ainda na formulação e conceituação de novos direitos. Segundo a teoria do direito os direitos humanos não nascem prontos e acabados, eles são conquistas constantes e graduais das sociedades e dos indivíduos que os demandam. Não é possível, portanto, falar em direitos humanos como uma plataforma pronta, mas sim como um espaço de construção e aprimoramento constantes.

Um segundo salto é necessário

Os Dhesc possibilitaram este significativo salto e a interface de várias agendas distintas em torno dos direitos humanos. Agora, surge a necessidade de se implementar discussões profundas sobre temas que avançam no mundo real e no virtual a velocidades nunca antes vistas na história da humanidade. Um tema que aparece como elemento inovador nas discussões de direitos humanos recentes é o que toca na comunicação, na informação e nas novas tecnologias de informação e comunicação (Tics).

A Internet, que ao mesmo tempo propicia a democratização da informação, dá possibilidade a que se propaguem ações de xenofobia, racismo, homofobia, pedofilia e quetais. Os meios de comunicação impressos, radiofônicos e televisivos começam a convergir entre si e os temores de que instrumentos tão poderosos concentrem-se nas mãos de uns poucos tornam-se cada vez mais reais.

Mais do que nunca é importante trazer à baila o que significa efetivamente discutir o direito à comunicação e à informação num mundo global em que a velocidade com que os fatos e não fatos circulam são realmente extraordinários. Esta é uma discussão que rebaterá tanto nas questões relacionadas à educação, quanto na concessão de licenças públicas para rádios e TVs, bem como toda a discussão sobre inclusão digital e a opção estratégica pelo Software Livre.

Discutir o direito à comunicação na sociedade da informação é ainda um grande desafio quando se pensa que as organizações da sociedade civil vêem as questões de comunicação e de informação apenas como técnicas e não como questões político-estratégicas.

Não é de agora que a comunicação e a informação saíram da esfera dos profissionais da área para permear campos tais como o do entretenimento (que não são necessariamente jornalísticos, apesar de recentemente estes estarem cada vez mais imbricados) e da política. Este casamento entre comunicação e política, que em nosso país gera o absurdo de famílias inteiras perpetuarem seu poder político via os veículos de comunicação que controlam, é uma ameaça real à sociedade como um todo e precisam ser urgentemente enfrentados. Não há dúvida que um controle cidadão sobre os meios de comunicação, as concessões de licenças e a democratização do acesso às TICs precisarão ser tratados pela sociedade de forma madura e racional. As convergências entre rádio, TV, mídia impressa e Internet, já são realidade e com isso os poderes dos detentores destes veículos se ampliam cada vez mais.

De semelhante modo é fundamental discutir com mais seriedade e menos interferência dos grandes controladores da mídia do país o papel das rádios e TVs comunitárias. Verdade é que mesmo com o governo Lula em nada se alterou o quadro de perseguição, prisão de dirigentes e destruição de equipamentos das rádios comunitárias.

Um necessário olhar para o futuro

Ainda hoje parte da legislação que rege as rádios comunitárias é dos anos de 1970. Leis sobre a Internet, direitos de autor na web entre outros praticamente não existem. Infelizmente a concepção arcaica dos legisladores brasileiros faz com que estejamos muito para trás em discussões fundamentais no que tange tanto às novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e ao campo da comunicação como um todo.

Neste momento, e este é o primeiro embate político que o novo ministro das comunicações Hélio Costa está travando dentro do governo, está formado um Grupo de Trabalho Interministerial para discutir a Lei Geral de Comunicação do país. É uma discussão fundamental pois implicará discutir o sistema de concessão de rádios e TVs, a entrada de capital estrangeiro e por aí vai.
É fundamental que a sociedade civil organizada esteja próxima e participe desse debate. Hoje toda a chamada mídia alternativa, comunitária e popular precisa estar atenta a essas discussões. Não dá, numa perspectiva de luta por direitos e na estratégia de visibilidade da comunicação como um direito humano, deixar este debate apenas para os especialistas e os grandes proprietários da mídia do Brasil.

Faz-se necessário nesse momento tratar de ampliar o raio de ação das organizações sociais que lidam com a temática da comunicação com outras questões que são absolutamente vitais neste momento. A problemática da questão juvenil e da violência urbana passa por maior acesso à educação e ao pleno emprego. Um link entre esta problemática e ações efetivas de inclusão digital, acesso às novas tecnologias e ao Software Livre poderão se tornar um caminho fantástico para centenas, ou milhares de jovens, que hoje se vêem à volta com o desemprego e sem alternativas futuras.

Os direitos humanos na sociedade da informação devem ser vistos como indissociáveis da noção de que todos e todas devem ser beneficiados pelos novos conhecimentos e novas tecnologias que venham a ser desenvolvidos.

Pensar em comunicação como direito humano é, antes de tudo, imaginar que as maravilhas da sociedade da informação precisam ser compartilhadas com todos: pobres e ricos, negros e brancos, urbanos e rurais etc., etc. Esta é a premissa básica: incluir os que estão fora.
Colocarmos uma premissa prioritária, não nos exime de alcançar outros patamares de discussão, como pensar a qualidade da informação: na difusão, na troca, na sinergia. A questão é que o atraso da universalização no Brasil direciona o raciocínio imediato de dirimir a distância de excluídos e incluídos. Torna-se vital, sem deixar o imediatismo em segundo plano, elaborarmos um debate amplo com a sociedade para definirmos os alicerces estratégicos para consolidação do software livre, dos programas de inclusão digital, de uma nova lei de concessões de rádios e TVs etc. Construir essas alternativas é o nosso grande desafio.

segunda-feira, 18 de julho de 2005

Desarmamento, cultura da impunidade e direitos humanos

Finalmente foi aprovado pelo Congreso e agora em outubro teremos o plebiscito contra o desarmamento. Tudo caminha para que a população brasileira soberanamente dê um basta ao comércio e fabricação de armas em nosso país. Sem dúvida, uma grande vitória para os movimentos sociais, os parentes de vítimas de violência e todos aqueles que trazem em si a paz como principal bandeira para a vida entre os povos.


Temos, no entanto, que ter muito cuidado em depositar nossas esperanças em apenas uma ação quando tantas outras deveriam ser efetivadas em conjunto para combater com mais eficácia a extarrecedora violência que vem tomando conta do nosso país. Sem dúvida o desarmamento é um passo importantíssimo. Mas apenas ele sem um enfrentamento forte das rotas de entrada de armamento e drogas ilegais; de um apuro na inteligência dos aparelhos policiais; uma substancial alteração no modus operandi dos nossos agentes da lei, não bastarão para reduzir a violência num átimo, como sonham os defensores do plebiscito.

Mais ações deverão ser desempenhadas principalmente no âmbito do Executivo. No entanto, não podemos negar que no campo do Legislativo e do Judiciário há ações fundamentais que precisam ser levadas em conta como formas de contribuição ao combate à violência e à criminalidade. A principal dessas ações, a meu ver, seria uma ampla reforma do Código Penal de maneira a fazer com que aspectos que levam à impunidade ou a determinadas brechas pudessem ser suprimidos, como, por exemplo: questões tais como "réu primário", "bom comportamento" e "prisão especial".

Affonso Romano de Sant´Anna já falou sobre a questão do réu primário: " é como se estivessem dizendo que todo mundo tem direito de matar alguém inconseqüentemente uma vez. Só depois é que se torna criminoso." E é fato, por este princípio um sujeito que roube um quilo de feijão num supermercado ou outro que mate e estupre 10 mulheres, uma vez que não tenha ainda tido condenação nenhuma é réu primário e por isso merece tratamento especial. Distorção pura. Crime é crime e como tal deve ser tratado

E o mesmo deve valer para a questão do bom comportamento, progresso de pena e quetais. Ora, um criminoso é condenado por um crime cometido. Comprovando-se sua culpa esgotadas todas as formas de defesa ele deve cumprir o prazo determinado e cabe ao Estado fazer de tudo para que esta pessoa se recupere. O sistema prisional deve ser modificado de maneira a fazer com que o prisioneiro possa estudar e profissionalizar-se. Possa, logicamente, pagar pelo crime cometido, mas, principalmente, tenha a chance de recuperar-se para a vida e para o mundo.

Para nós, que atuamos no campo dos direitos humanos é sempre complicado tratar do tema da violência, até porque o senso comum já nos taxa logo de cara como defensores de bandidos. No entanto, há que se fazer aqui uma auto-crítica e uma observação sobre isso. Quando findada a dituratura militar muito precisava ser reconstruído e muitas eram as heranças deixadas pelo período das trevas. Uma delas era exatamente a forma de agir truculenta e sem amparo legal do aparelho policial. Fazer com que a polícia passasse a agir dentro da normalidade de um estado de direito era, antes de tudo a afirmação do comprometimento democrático do país. Isso foi feito por governadores eleitos ao fim da ditadura (como Leonel Brizola no Rio, que proibiu que as polícias invadissem casas em favelas sem mandato de busca). Era necessário e foi importantíssimo que isso tenha sido feito. No entanto, as organizações que lidam com os temas dos direitos não conseguiram transmitir à população que seu compromisso com a democracia e com a prática cidadã não quer dizer, automaticamente alinhamento com a criminalidade. Pelo contrário, quem acabaou construindo e reforçando essa visão foram exatamente aqueles que acham que a polícia tinha que perseguir e enjaular os famosos três pês brasileiros : putas, pobres, pretos.

É fundamental que avancemos no combate à violência e numa cultura em que o apareto de repressão e controle à criminalidade seja respeitado e temido. Não por sua força mas por sua prática corajosa em não corromper-se e em não flexibilizar-se. Falta muito para chegarmos lá, mas creio que a proibição das armas será um passo, com ele virão outros que farão com que retomemos o caminho da paz, do qual, somos mundialmente reconhecidos como defensores e praticantes.

quarta-feira, 13 de julho de 2005

Egoísmo

Alguns homens passam um bom tempo de suas vidas lutando para poder realizar os seus sonhos.

Muitos se perdem no conceito sobre a felicidade. Li em algum livro que a felicidade pode ser medida pela distancia do que se tem com o que se quer. É uma verdade cruel! Para um senador é mais factível o sonho de ser presidente. É fácil assim!

No nosso mundo motociclístico, a maioria dos estradeiros são pessoas já com alguns carnavais a mais e têm na moto ou triciclo sua realização de liberdade. É o único meio em que nos despimos de todos os preconceitos e somos iguais, em termos.

O ritual começa quando ligamos para os amigos e determinamos onde e quando vamos nos encontrar. É difícil aguardar o próximo fim de semana. Começamos com a moto/triciclo, lógico, olhando cada detalhe de nossa fiel companheira da estrada: óleo; rolamentos; bengalas; balança; lâmpadas; velas; pressão dos pneus; filtros; gasolina; cabos e enfim, nós mesmos.

Para nós basta uma mochila com o mínimo possível. Afinal não podemos sacrificar nossa companheira com excesso de peso. Definido o trajeto, verificada a condição climática, que quase sempre nos trai, começamos o ritual da vestimenta.

Separamos tudo arrumadinho em cima da cama e em cada peça que vestimos, lembramo-nos dos bons momentos nos encontros anteriores. Quando finalmente colocamos o capacete, já em cima de nossa fiel amiga, nosso coração já esta em compasso acelerado. Aceleramos e nos entregamos à total integração com a natureza. Cada curva, cada árvore, cada pássaro, cada detalhe da estrada nos toca como uma orquestra. Tudo é musica, tudo é alegria.

Chegamos em nosso destino e nos entregamos à celebração da vida e bebemoramos na confraternização com os antigos e os novos amigos. Este é o motociclismo que todos sonham. Não interessa se o evento esta ou não legal, o que realmente faz sentido é poder estar com os amigos e fazer ali o seu encontro. Nada supera isto! Um churrasco amigo, um
papo descontraído, moto e mais moto. Este é o nosso assunto preferido, na sexta, no sábado e, se puder, no domingo também. É só alegria!

Só que tem gente se excedendo na festa e esquece que tem família em casa aguardando-o ansiosos por sua presença paterna e amiga. A confraternização não pode ultrapassar os limites do bom senso e da razão. Quando isto acontece os resultados são imprevisíveis. É preciso lembrar que sua fiel companheira de estrada vive uma luta constante contra a física.

Quando se está sobre o efeito do álcool e, principalmente, sobre os resultados de dois dias de farra, não temos reações rápidas e nosso reflexo é totalmente prejudicado. Não seja egoísta! Quando estiver celebrando a vida bebemorando o momento, lembre-se que você tem pessoas que o amam e precisam de você. Pare e pense em como seria a vida dos seus sem a sua presença. Imagine você em pé diante de seu próprio velório vendo as pessoas desesperadas porque você se foi. Tanto sofrimento por que você foi egoísta. Pense nisto!

Chega de tanta imprudência. Sua família não merece. Você não merece!

Lunard de Castro Dolabella
Lista Motociclist@

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Então foi para isto?

Poeta, escritor, tradutor e observador atento da realidade do país Affonso Romano de Sant´Anna nos brinda, mais uma vez, com um texto profundo e sintético do momento que estamos vivendo. Um texto fantástico que faço questão de compartilhar com aqueles e aquelas que costumam visitar este humilde blog.


Então foi para isto?

Affonso Romano de Sant´Anna
Publicado nO Globo, dia 9/07/05 - Caderno Prosa e Verso

Então foi para isto que desembarcamos nessas praias com nossas caravelas, ostentando a cruz e a espada e dizimamos quatro milhões de índios pela varíola e pelas armas?

Então foi para isto que trouxemos seis milhões de escravos da África e os encaixotamos nos “tumbeiros”, esfolando-lhes o lombo e a alma nas lavouras de cana e de café?

Então foi para isto que ajudamos os portugueses a botar para fora os franceses, espanhóis e holandeses e depois botamos para fora também os portugueses?

Então foi para isto que os cavalos arrastaram Felipe dos Santos pelas pedras de Vila Rica e foi para isto que Tiradentes ofereceu seu pescoço à forca deixando seu corpo esquartejado em diferentes cantos de Minas?

Então foi para isto que Ganga Zumba, Zumbi e os seus resistiram durante 67 anos em Palmares, até que Domingos Jorge Velho levasse como troféu 3.900 orelhas de negros?

Então foi para isto que, na Bahia, os negros haussás fizeram as revoltas de 1807, 1809, 1813 e os nagôs as revoltas de 1809, 1826, 1827, 1828, 1830 e 1835?

Então foi para isto que homens livres, mais escravos e mulheres, de novo na Bahia, fizeram a Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, em 1798?

Então foi para isto que Frei Caneca em Pernambuco meteu-se primeiro na Revolução Praieira de 1817, depois na Revolução de 1824 e, desafiando o Império, foi preso e fuzilado já que ninguém tinha coragem de enforcá-lo?

Então foi para isto que a corte portuguesa se transferiu para cá, D. João VI começou nossa primeira modernização, viramos Vice-Reino e Pedro I proclamou aquele “Independência ou morte” às margens do Ipiranga?

Então foi para isto que fizemos a guerra contra o Paraguai e matamos Solano Lopez numa irremissível carnificina?

Então foi para isto que Mauá criou indústrias, ferrovias, estaleiros e bancos e enfrentou o capital estrangeiro até a ruína?

Então foi para isto que tivemos a revolta da Cabanada no Pará, a Balaiada no Maranhão, a Sabinada na Bahia, as setembradas, as novembradas, as abriladas e não sei quantas outras revoluções esperançadas?

Então foi para isto que Caxias saiu esmagando todas essas revoltas pelo país e Rio Branco lutou para manter e alargar nossas fronteiras?

Então foi para isto que massacramos os farrapos no Rio Grande e mandamos 7.260 soldados eliminar 25 mil miseráveis beatos em Canudos?

Então foi para isto que exilamos Pedro II e sua barba e nos tornamos positivistas e republicanos?

Então foi para isto que a Marinha se rebelou contra Deodoro e Floriano e, meio século depois, marinheiros e sargentos se rebelaram com Jango?

Então foi para isto que meu avô Pedro Sant’Anna participou da Revolta da Armada em 1893?

Então foi para isto que meu pai Jorge Sant’Anna botou sua farda e deu tiros durante as revoltas e revoluções de 1924, 1930 e 1932?

Então foi para isto que o Marechal Rondon saiu pelo país demarcando fronteiras, dizendo que preferia morrer a ter que matar um índio?

Então foi para isto que os anarquistas fizeram tantas greves entre 1917 e 1920 e em 1922 surgiram os comunistas?

Então foi para isto que os artistas modernistas fizeram a Semana de Arte Moderna, apregoando que iam atualizar o espírito brasileiro?

Então foi para isto que os tenentes se rebelaram em 22 no Forte Copacabana, de novo em 1924, lá em São Paulo, e finalmente chegaram ao poder em 64?

Então foi para isto que se formou a Coluna Prestes percorrendo 24 mil quilômetros tentando incendiar o país com a fugidia idéia de revolução?

Então foi para isto que Minas e Paraíba se juntaram ao Rio Grande do Sul para acabar com a República Velha e botar Vargas no poder em 1930?

Então foi para isto que São Paulo se rebelou contra Vargas em 1932 exigindo uma Constituição?

Então foi para isto que Graciliano Ramos e tantos outros foram parar na Ilha Grande?

Então foi para isto que Monteiro Lobato enfrentou os trustes do ferro e do petróleo, foi preso e se exilou?

Então foi para isto que Prestes, pela esquerda, e Plínio Salgado, pela direita, tentaram organizar as massas e chegar ao poder?

Então foi para isto que os pracinhas saíram do sertão desvestindo-se de Jeca Tatu e botando farda para morrer nos morros gelados da Itália?

Então foi para isto que Villa-Lobos fez suas “Bachianas”, Niemeyer seus edifícios esculturais, Portinari seus painéis, Drummond sua poesia, Guimarães Rosa perpetrou seu sertão, Clarice nos iluminou e Nelson Rodrigues nos satirizou?

Então foi para isto que, seja no Círio de Nazaré, em Aparecida do Norte, ou em Juazeiro do Norte, jejuamos, subimos ladeiras e escadarias de joelhos em preces, fomos a terreiros, fizemos e pagamos promessas?

Então foi para isto que Vargas caiu em 45, voltou em 50 e se matou em 54 com um tiro no coração?

Então foi para isto que eu, soldado da 4 RM, ficava de sentinela a noite inteira na estação enquanto Lacerda fazia periclitar toda a nação?

Então foi para isto que JK enfrentou a mediocridade, a reação e o provincianismo e fez seu plano de metas, propondo em cinco anos trazer 50 de progresso e desenvolvimento?

Então foi para isto que botamos lá o Jânio, tiramos Jânio, botamos Jango, fizemos parlamentarismo, voltamos ao presidencialismo e continuamos tirando, botando e tirando presidentes e, com a cara pintada, levamos Collor à condenação?

Então foi para isto que corríamos da polícia, suportávamos porradas e choques nas celas da ditadura?

Então foi para isto que tantos foram para o exílio, tantos morreram na guerrilha, enquanto outros, do outro lado, também morriam defendendo a ordem institucional?

Então foi para isto que Tancredo batalhou e pateticamente morreu?

Então foi para isto que fizemos tantos comícios de diretas, deliramos nas praças e ruas e tentamos dar sentido à palavra cidadania?

Então foi para isto que se sonhou chegar ao poder e se lutou para ter um sindicalismo moderno sem o ranço das velhas ideologias e se envolveu todo um país na palavra esperança?

Então, foi para isto?