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terça-feira, 31 de maio de 2005

Até quando? - Segunda parte




Se ainda vivêssemos o período em que achávamos que a revolução daria jeito em tudo estaríamos aqui agora esperando que ela chegasse para que uma nova aurora surgisse em nosso país. Infelizmente os processos revolucionários tais como os do século passado não existem mais e não sabemos que tipo de mobilização de massa este novo século irá produzir. No entanto há questões que devem ser tratadas com a dureza com que se tratariam num processo revolucionário, por exemplo:

Impunidade: há que se fazer alterações substanciais nas leis brasileiras. Não dá para um sujeito ser condenado a 30 anos de prisão, cumprir seis e sair por bom comportamento. Questões como bom comportamento, réu primário e cela especial precisam acabar. Criminoso é criminoso, seja rico, pobre, preto, branco, analfabeto ou doutor em qualquer coisa. O que torna alguém um marginal é o fato de cometer atos ilícitos. Assim, pouco se me dá se o bandido é nascido na favela, criado na miséria ou é um granfino da geração condomínio. Errou, camarada, cana! E pelo tempo que foi condenado.

Afonso Romano de Sant´Anna escreveu certa vez que nossa legislação permite que todos cometamos pelo menos um crime na vida. Ele falava exatamente sobre o fato de existir na lei a figura do réu primário. Ora, um sujeito que mata e estupra ou rouba a merenda escolar de 1.500 crianças é um cretino que merece ficar 10, 20 ou 30 anos na cadeia. Se ele nunca cometeu um crime antes, problema é dele. Errou, camarada, cana!! Pra valer. Pra ficar mesmo. Fugiu? Aumenta a pena em um terço. Fugiu de novo? Dobra. Se os criminosos começarem a ter medo da cadeia começarão a delinqüir menos.

Logicamente que uma política como essa deveria vir acompanhada de ampla reforma do sistema penitenciário brasileiro. O preso deveria trabalhar, estudar, produzir. Afinal, mente vazia é a oficina do diabo. Quanto mais ocupado, mais produtivo e mais valorizado como ser humano, maiores serão as chances de ressocialização;

Aparelho policial - Sou de opinião que se tem que pôr tudo abaixo e construir algo novo. Usando a imagem construída pelo Luis Eduardo Soares sobre a banda pôdre, há que se lembrar que às vezes, mesmo que se retire o que já apodreceu, os vermes já começaram a contaminar o lado que ainda está bom. Assim, mesmo concordando que em sua maioria os policiais são cidadãos de bem, não são corruptos e são conscientes do seu papel como agentes da lei, o fato concreto é que a estrutura montada é ruim. Primeiro não há um plano de carreira decente. Segundo os salários são miseráveis. Terceiro não há equipamentos e por aí se vai. Ou seja o lenga-lenga todo mundo conhece. Como resolver, se não dá pra jogar tudo ao chão? Algumas idéias: primeiro acho que o policial deveria ter um preparo de pelo menos dois anos antes de ir pra rua. Quem já fez artes marciais sabe que a média de tempo para sair da fase iniciante até chegar à graduação plena vai de cinco a oito anos, dependendo da arte que se pratique. Imagine um sujeito que entre para a polícia e nunca lutou nada na vida, nunca atirou, nunca teve aula de direção defensiva, nunca lidou com tática de guerrilha. Ora, não serão em seis meses que o sujeito estará preparado. Isso sem contar questões teóricas tais como direito, sociologia, história, direitos humanos entre outras questões que o sujeito deveria conhecer. Portanto, nada mais natural que houvesse aí uma preparação de no mínimo dois anos para o policial ir para a rua.

Neste momento, quando isso ocorresse e ele deixasse de ser um iniciante para tornar-se efetivamente um agente da lei ele deveria ter: um salário base na faixa de 2.500 a 3.000 reais; uma carta de crédito do governo para adquirir um imóvel onde bem entendesse; um plano de saúde razoável para si e seus familiares e bolsa de estudos para seus filhos em uma escola de qualidade. Com isso este policial não teria a maioria das preocupações que têm os reles mortais. Em contrapartida um crime cometido por um policial, fosse ele qual fosse, deveria ter pena dobrada (afinal o exemplo deve vir de cima) e, de semelhante modo, qualquer crime cometido contra um policial também teria sua pena dobrada.

Seria necessário desenvolver um sistema que permitisse que o policial que entrasse nos escalões superiores a a partir de cursos internos, merecimento e uma série de fatores pudesse galgar posições até chegar ao topo da carreira. Nem é preciso dizer que dentro dessa lógica seria totalmente proibido ao policial o desenvolvimento de qualquer atividade paralela sob o risco de demissão sumária. Isso tudo, obviamente, partindo-se da premissa de que a Polícia Militar e a Polícia Civil virariam um aparelho só, de preferência com outro nome, outra cara e outros símbolos.

É mister pensar que dentro de uma lógica sistêmica propostas como essa são apenas paliativos se não se inserirem num contexto maior de mudança política e social. Efetivamente o que o Brasil precisa é de um choque forte (por isso a menção aos processos revolucionários). A noção (também construída com o objetivo de manter tudo como está) de que somos um povo pacífico precisa ser combatida. Ser pacífico não significa ser passivo. Precisamos ser agentes de nossa própria história e buscar construir o caminho que, de fato, leve o Brasil a um patamar mais decente do este em que estamos vivendo.



segunda-feira, 30 de maio de 2005

Até quando?

Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ser saco de pancada?

De vez em quando os meios de comunicação fazem algumas matérias dando cara de novos a temas que já são velhos conhecidos da maioria das pessoas. No último fim de semana o jornal O Globo publicou em manchete de primeira página que oficiais da PM do Rio de Janeiro são donos, sócios ou parentes de donos e/ou sócios de empresas de segurança privada. Coisa que todo mundo já sabe, mas que quando sai publicado num jornal com O Globo, retira das gargantas um oh coletivo como se supresa fosse.

Infelizmente não é. Sabemos há muito tempo que oficiais da PM, delegados, inspetores entre outros são sócios de empresas de segurança, são donos de empresas de taxi e, também fazem parte dos esquemas de vans e kombis clandestinas. Não há nenhuma novidade aí. Como também não é novidade que os marginais estão cada vez mais armados, cada vez mais estão instalando barricadas nas entradas das favelas e, a lógica de proibir que cidadãos de bem não circulem em determinadas áreas das favelas, ou de uma favela para outra, também é antiga.

Essas informações que circulam nos meios de comunicação de tempos em tempos fazem com que as ditas autoridades se manifestem, alguns cidadãos escrevam para os jornais mas depois tudo volta a ser como dantes. Nada muda, as atitudes não mudam.

O massacre das crianças da Cinelândia causou impacto brutal. Hoje, a morte de 30 trabalhadores, crianças e mulheres, mortos por policiais bandidos já não causam o mesmo impacto. Infelizmente, com o passar do tempo as pessoas estão ficando anestesiadas com a sistematica situação de abandono que o Rio de Janeiro está vivendo.

O fato concreto é que de uns anos pra cá ocorreu um fenômeno que foi o de se fazer determinadas concessões a questões que ultrapassam qualquer limite moral ou ético. É inaceitável que um policial militar, seja de qual patente for, atue numa empresa de segurança privada porque isso gera conflitos de interesses, por óbvio. É como se fosse dado a um juíz o direito de advogar nos dias de folga, e essa possibilidade nem é discutida no meio do Judiciário.

O Brasil que ao longo de décadas orgulhou-se do seu famoso "jeitinho" percebe agora que esta prática está cada vez mais corroendo os alicerces éticos e morais da nação brasileira. À medida em que aceitamos a pagar a cervejinha do guarda porque estamos com o Ipva vencido, ou aceitamos que crianças vivam nas ruas, ou, ainda, entendemos que não há problemas em parlamentares contratarem parentes, estamos fazendo mover a grande engrenagem que faz com que a corrupção (e sua filha, a violência) em todos os seus níveis sejam inconscientemente aceitas pelos mais estapafúrdios motivos.

Alguns gostam de falar que a corrupção (e sua filha...) só existem porque as pessoas ganham mal. Mentira deslavada! Até porque se fosse por aí, todos os pobres deste país, 70% ou mais da população brasileira, que vivem com menos de 500 reais por mês, seriam ladrões contumazes. Vê-se frequentemente atos de corrupção velados ou explícitos entre aqueles que têm maior poder aquisitivo ou até mesmo melhores condições de trabalho e estudo que a maioria de miseráveis do país. Os pobres pagam suas dívidas, aos trancos e barrancos, mas pagam. Se não pagarem não poderão fazer prestações, não poderão ter crédito na praça e com isso ficarão impossibilitados de adquirir bens que à vista dificilmente terão condições de comprar.

Já as classes mais favorecidas inventam um monte de meneios para dizer que a coisa não é bem assim e com isso vamos alimentando a cadeia que está fazendo do Brasil uma vergonha para todos aqueles que ainda a têm.

Enquanto não mudarmos nossas atitudes individuais e coletivas de nada adiantarão políticas de combate à corrupção. Enquanto não tivermos um choque ético e uma franca mudança nas posturas éticas de cada cidadão, de cada grupamento profissional, de toda a sociedade, continuaremos achando que não há problemas entre o coronel comandar um batalhão num dia e no outro ser dono de uma empresa que vende serviços exatamente aonde aquele batalhão está falhando em sua função precípua.

Gabriel o Pensador, o mesmo autor dos versos que abrem esse texto, na mesma música chamada "Porrada" conclama:

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doeça sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro

Se não mudarmos nossas atitudes com relação ao aparelho policial, à nossa indiferença com a criminalidade (de todos os formatos e classes sociais) e com os políticos que há cada dia expõem às escâncaras sua absoluta falta de compromisso com o povo, o que nos restará será apenas tomar porrada e mais porrada.

quarta-feira, 25 de maio de 2005

Direito à Comunicação na Sociedade da Informação: o papel estratégico do Software Livre

Introdução

O século XXI se inicia sob grande impacto das Tecnologias da Informação e da Comunicação, as TICs. Os últimos vinte anos viram acontecer transformações no cotidiano das pessoas como o boom da Internet, da telefonia móvel (celular), da comunicação via satélite, o desenvolvimento da TV Digital, o surgimento de novas mídias tais como o CD player, o DVD, etc. Por outro lado se presencia uma aceleração das inovações tecnológicas que em pouco tempo vão alterar o que hoje aparenta ser tão novo: a nanotecnologia, o processamento quântico, a inteligência artificial, as redes sem fio, etc. Nota-se que a relação do tempo versus inovação tecnológica alcançou um patamar jamais imaginado, que reduz cada vez mais a distância temporal do antigo e do novo. Enfim, o marco fundamental do fim do século XX e início do século XXI é o de que a humanidade está intimamente marcada pela comunicação, pela informação e pelas tecnologias daí originadas. Não basta mais ao ser humano falar e ser ouvido. O ser humano do novo século precisa também ser visto, lido e ter sua especificidade comunicacional expandida ao limite máximo da capacidade de replicação das informações e de uma infra-estrutura capaz de suportar as tecnologias digitais convergentes.

Assim, o surgimento dos “subprodutos” da Internet tais como blogs, fotologs, chats, comunidades virtuais tornam-se uma realidade porque para este homus tecnologicus a informação deixa de ser tratada de maneira passiva. O receptor da informação passa a ser também um potencial difusor de novas informações. Desta maneira, o blog editado por um jovem iraquiano durante os ataques americanos pode alcançar um número de pessoas tanto quanto os veículos de comunicação oficiais (ou tradicionais) que lá estavam. Ou seja, as Tecnologias da Informação e da Comunicação, possibilitam recriar o mundo a partir do local. A aldeia global é antes de tudo uma aldeia local (embora o grande capital tente negar a existência desta segunda). O paradoxo da globalização é que quanto mais as grandes fronteiras vão sendo derrubadas, maiores se tornam as especificidades étnicas, religiosas, culturais etc. Dentro de um mundo global é necessário, antes de tudo, afirmar minha identidade como indivíduo: “Eu blogo logo, eu existo”.

A importância da Tecnologia da Informação para todos

Se por um lado a difusão das Tecnologias da Informação e da Comunicação provoca revolução nunca antes vista na história da humanidade, por outro ela nos traz o grande desafio (aparentemente insuperável) de evitar que as mazelas e desigualdades do mundo real se repitam na virtualidade onde este novo mundo se situa. Ou pior, que esta exclusão digital agudize as mazelas das desigualdades sociais. Utópico? Sem dúvida! Mas necessário é que se faça o exercício de pensar como incluir aqueles que estão fora. E o grande desafio é tipificar os que hoje não têm acesso às novas tecnologias porque estes podem ser vistos, grosso modo, de duas formas: pessoas que não se alfabetizaram e, portanto, têm grande dificuldade em compreender um texto e, muitas vezes, o que está sendo apresentado em vídeo, falado num rádio etc.; e um grande contingente de pessoas pobres que, mesmo tendo condições melhores em termos da percepção da realidade não têm recursos suficientes para estarem devidamente inseridas as várias interfaces geradas pelas TICs.
Entretanto, existe um cenário ainda mais preocupante, que foge da tipificação do quadro de analfabetismo ou o que comumente se conceituou como analfabetos funcionais: são as pessoas que possuem um grau de instrução elevado (médio ou superior para padrões brasileiros), percepção da realidade, leitura crítica, contato com a tecnologia digital, mas ainda não foram sensibilizados pela questão estratégica da Tecnologia da Informação. Este mesmo grupo de incluídos em boa parte tem dificuldade de perceber este importância deste acesso à tecnologia como direito Universal, pois se relaciona com os computadores, a internet, os conteúdos somente como itens de consumo ou otimizadores de processos. Isto faz com que o assunto não alcance na sociedade a dimensão necessária para se pensar o país daqui alguns anos. Umberto Eco disse recentemente: "a questão da Tecnologia da Informação será caso de vida ou morte no futuro para os países que pretendam alcançar sua soberania".

O Software Livre e suas vantagens subjetivas

O que o Software Livre traz como importante paradigma conceitual é que o espírito colaborativo, o compartilhamento de informações, a difusão do conhecimento são os elementos fundantes de uma nova concepção em que o “gratuito” e o “livre” tornam-se cada vez mais distantes da visão tradicional que os usuários de informática têm dos softwares. Apontar vantagens e desvantagens do SL sobre o SP é um risco e fica muito datado e reduzido no tempo. Poderíamos, dois anos atrás dizer que um dos grandes problemas era a interface gráfica, ou a instalação (monitores e impressoras), ou ainda, o suporte. A realidade demonstra que não são mais. A cada dia surgem novas distribuições trazendo a possibilidade de rodar o programa sem instalá-lo, de usá-lo em conjunto com outros sistemas operacionais, com interfaces gráficas variadas. Em termos do suporte cada vez mais profissionais se especializam em Software Livre e algumas universidades no país já oferecem cursos nessa área. Ou seja, o fator tempo não foi impeditivo para tais avanços.

Abstraindo a questão técnica (o que é praticamente impossível quando se trata de software) a maior vantagem trazida pelo Software Livre é subjetiva: ele (o SL) resgata a noção de liberdade. Não uma liberdade caótica, um espaço sem regras e leis, pelo contrário, resgata a noção da liberdade responsável que faz com que indivíduos dos mais distantes países encontrem-se em fóruns e listas de discussão e produzam soluções, resolvam problemas, criem novos aplicativos. A idéia de uma rede global torna-se real à medida em que ela agrega indivíduos dispostos a colocar seus conhecimentos a favor de toda a humanidade. Isto é algo novo e que só é possível com advento da internet e se fortalece com a concepção filosófica por traz do SL. Portanto, independente de determinados produtos serem melhores ou piores este é um aspecto que o Software Proprietário nunca conseguirá superar: a livre colaboração. Caso o faça, terá capitulado ao SL, do contrário... jamais será possível.

No caso específico da informática, e outros seguimentos relacionados (em especial a Internet), podemos pensar que a dicotomia entre software livre e software proprietário, está claramente relacionada com o exposto acima. Enquanto um aprisiona o código, o outro liberta; enquanto um impõe limites o outro abre e, seguindo esta linha de raciocínio, percebemos que se trata de uma dicotomia entre a liberdade e o aprisionamento tecnológico. No entanto, esta não pode ser uma discussão maniqueísta: de um lado estão os bem intencionados do SL e do outro os perversos do SP. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, pois este tipo de adjetivação não interessa à propagação das tecnologias livres e ao aprofundamento do debate. Não se trata de uma luta entre bons e maus. Trata-se de concepções de mundo distintas onde alguns vêem o conhecimento e a informação como patrimônio de toda a humanidade e não apenas um elemento de lucro para uns poucos, e outros como a única capacidade de evolução desta mesma humanidade. É neste sentido que trazemos algumas considerações sobre o papel estratégico do Software Livre no momento em que começamos a discutir a comunicação como um direito humano.

Software Livre: uma estratégia alternativa para Sociedade da Informação

O Software Livre, que tem seu resultado financeiro determinado por outra lógica, tem a razão de sua existência na perspectiva de tornar o mundo melhor para todos e todas sem distinção, em função do seu livre processo de produção, claro que neste escopo todos e todas são os produtores e usuários de software. Surge do desejo utópico de fazer do ser humano senhor da tecnologia e não o contrário. Visa desenvolver o conhecimento e não “vender” facilidades de modo que a pessoa se torne refém de um determinado tipo de programa ou, muitas vezes, controlado por este programa sem o direito de saber afinal que tipo de controle é este. A fronteira do Software Livre alcança além das fronteiras da Internet, ele está nas escolas, nos hospitais, na máquina pública, nas redes de supermercados e magazines, na operação dos grandes sistemas. Ou seja, por mais distante que possa parecer à discussão sobre SL e SP, a verdade é que ambas tocam no real o tempo todo e percebe-se uma disputa comercial clara entre os dois mundos.

Hoje, muito mais do que pensarmos em uma inclusão digital precisamos ter clareza de que outras inclusões são tanto quanto necessárias. A inclusão tecnológica, a social, a do(a) cidadão (ã), a de setores discriminados da sociedade etc., são parte de uma engrenagem que precisa funcionar em absoluta harmonia. Até porque convergimos cada vez mais entre o mundo real e o mundo virtual.

É impossível não pensar que a opção estratégica que o governo brasileiro, as empresas, Organizações Não-Governamentais, instituições acadêmicas e de pesquisa etc., estão fazendo pelo Software Livre significarão no médio e longo prazo um salto de qualidade para o país como um todo. Se acompanhada dessa opção vierem ações de capacitação e formação de quadros profissionais o Brasil estará efetivamente saindo do rol dos países subdesenvolvidos para subir mais um degrau. Esta opção carece de uma forte participação do governo, mas depende de todos os setores sociais: é um compromisso que deve ser assumido pela sociedade brasileira.

A sociedade da informação e as TICs são realidades presentes no mundo de hoje e não podem ser tratadas como algo metafísico. Pelo contrário, temos a obrigação, como cidadãos e cidadãs de pensarmos em como podemos nos apropriar destes meios para atuar no sentido de buscar melhorias, para o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso estado, o nosso país, o nosso planeta. Estamos diante de uma mudança brusca de paradigmas que faz com que um adolescente que tem acesso à Internet consiga, aos 15, 16 anos, acumular mais informação do que Platão conseguiu em toda a sua vida. Exageros à parte, estes jovens estão desafiando o processo tradicional de acumulação de conhecimento e tal influência ainda não foi mensurada. Logicamente a informação adquirida não se transforma instantaneamente em conhecimento, senão, teríamos Platões imberbes aos borbotões. Mas, efetivamente, nossos jovens incluídos digitalmente, têm um poder comunicacional e de acúmulo de informação infinitamente maior do que tiveram seus avós e bisavós.

Pensar em comunicação como direito humano é, antes de tudo, imaginar que as maravilhas da sociedade da informação precisam ser compartilhadas com todos: pobres e ricos, negros e brancos, urbanos e rurais etc., etc. Esta é a premissa básica: incluir os que estão fora. Colocarmos uma premissa prioritária, não nos exime de alcançar outros patamares de discussão, como pensar a qualidade da informação: na difusão, na troca, na sinergia. A questão é que o atraso da universalização no Brasil direciona o raciocínio imediato de dirimir a distância de excluídos e incluídos. Torna-se vital, sem deixar o imediatismo em segundo plano, elaborarmos em debate amplo com a sociedade para definirmos os alicerces estratégicos para consolidação do software livre.

Construir essas alternativas é o nosso grande desafio. Cada um de nós precisa assumir seu quinhão de responsabilidade e avançar rumo a este desafio. Esta Sociedade da Informação é nossa. Já demos grandes passos. Iniciamos a caminhada, longa, incerta e cheia de armadilhas. Importante não desanimar com a síndrome do nosso “terceiro-mundismo” e nem parar no meio do caminho, esperando o mercado ou as determinações do mundo desenvolvido direcionarem o caminho. O Software Livre é uma hiper-via, mas ela ainda está no seu início, precisamos pavimentá-la, e fazermos com que a filosofia da construção do software livre atinja outros componentes do mundo em convergência digital e caminhos solidários e coletivos para tal Sociedade da Informação.
Texto em co-autoria com Corinto Meffe - Ministério do Planejamento
É livre a reprodução desde que com citação dos autores e da fonte.

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terça-feira, 17 de maio de 2005

A Lua me disse

Reproduzo abaixo matéria do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, sobre a novela a Lua me Disse, onde eu dou meus pitacos sobre as personagens negras e indígena do folhetim. Comentem.


O avesso do avesso


Militantes do movimento negro criticam o perfil das personagens Whitney e La Toya, de "A Lua Me Disse", novela de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa

CINTHYA OLIVEIRA - Jornal o Tempo, Belo Horizonte


Antes mesmo de estrear, "A Lua Me Disse" já dava sinais de que estava disposta a polemizar. Quando a Globo anunciou que a novela das sete — que chegou à sua grade de programação no dia 18 do mês passado — teria duas personagens que rejeitariam sua raça, o movimento negro tratou de ficar de olho nas intenções dos autores, Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa.

Na trama, Anastácia e Jurema, interpretadas pelas atrizes Zezé Barbosa e Mary Sheila, abominam sua origem. Intitulam-se afro-americanas, alisam e clareiam os cabelos e chegam ao exagero de usar pregadores de roupa no nariz para dormir. A negação é tanta que elas se deram novos nomes: La Toya e Whitney, em referência às cantoras norte-americanas (vale lembrar que La Toya Jackson, a exemplo de seu irmão Michael, fez cirurgia para afinar o nariz e durante muito tempo "embranqueceu" sua pele).



Sem perder tempo, os autores instauraram a polêmica já nos primeiros
capítulos, quando Anastácia/La Toya perdeu o emprego numa loja por ter se recusado a atender um cliente negro, assim como ela. "Não me abaixo para preto", alegava. Agora a questão será acentuada, já que as duas irmãs tomarão conta da mansão de Regina (Maitê Proença).

Os militantes do movimento negro preferiram esperar a novela mostrar a que veio, antes de fazer um julgamento. Agora, com pouco mais de 20 dias de exibição, especialistas em teledramaturgia e representantes da luta contra o racismo começam a torcer o nariz.

Contra-reação

Para Marcio Alexandre Gualberto, editor da Afirma — Revista Negra Online, a trama global não reflete a realidade. "Quando os autores da novela resolvem tratar de forma `bem-humorada' o preconceito de negros contra negros estão, na verdade, externalizando (sic) uma contra-reação a todo o debate que as organizações do movimento negro e a militância vêm fazendo em torno da questão das relações raciais no Brasil. O preconceito do negro contra o negro é um dos principais argumentos dos brancos para justificarem, quando tentam, a existência da discriminação racial no Brasil", diz o jornalista e militante.

De acordo com ele, esse tipo de racismo não existe, mas, sim, uma insatisfação do negro motivada por problemas histórico-sociais. "Veja a sutileza da coisa: desde pequenos somos bombardeados por um nível de informação que nos leva a não gostar do que somos. O padrão de beleza é o loiro; o sucesso é refletido no branco, o negro é mostrado como inferior e como tudo o que não presta. Não é à toa que nos anos 70 o movimento negro lutava antes de tudo pelo resgate da auto-estima".

Ridicularização

Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa já previam que suas personagens levantariam tal debate. Em entrevistas à imprensa, os autores sempre disseram que o exagero das personagens fazia parte da estratégia. A conscientização viria no momento em que o público visse o quanto Whitney e La Toya são ridículas.

Por e-mail, os autores comentaram o tratamento de um tema tão delicado em uma comédia. "`A Lua me Disse' é uma novela de humor e acreditamos que, com este formato, a melhor forma de chamar a atenção para um problema é exacerbar suas características. Mas esta não é uma plataforma da novela. Nosso compromisso é levar ao público várias histórias de humor, sem que elas necessariamente tenham sido inspiradas numa causa, numa pessoa ou numa história específica. A trama que envolve as personagens de Latoya e Whitney é apenas uma entre tantas outras que fazem parte da novela."

Miguel e Maria Carmem também defendem as personagens: "As irmãs são vaidosas sim, gostam de se cuidar, de se vestir bem e de ter acesso a coisas que as deixam felizes. E quem não quer isso? Apesar de ter pouco dinheiro, a dupla usa os recursos disponíveis para dar voz à sua vaidade e para seguir modismos. Se não têm dinheiro para ir ao salão, elas mesmas dão um jeito nisso".



A atriz Zezé Barbosa, que sempre fez questão de frisar o quanto se
orgulha de suas origens, diz que o tom exagerado dado pelos autores poderá despertar os telespectadores para a questão. "Saí para passear em Copacabana e vi várias La Toyas e Whitneys na praia. Elas fazem uma franjona lisa, pintam o cabelo de loiro ou castanho. Cheguei a ficar meio chocada com isso. O bacana das personagens do Miguel é que são bem populares e conseguem levar para a TV o que existe nas ruas", afirma a atriz.

Autores devem enfrentar a Justiça

Whitney e La Toya não são as únicas personagens a levantar discussões Brasil a fora. Semana passada, veiculou na imprensa uma nota de repúdio assinada por entidades do Mato Grosso contra a forma com que Índia (vivida por Bumba) é retratada na novela. Na trama, ela é uma empregada maltratada pelos patrões. A nota diz que "a índia Nambiquara, na caricatura da novela, está condenada ao extrato mais subalterno da sociedade, quase como se fosse um animal exótico, divertido, digno de riso. Uma imagem que não é totalmente alheia à nossa realidade, onde o preconceito legitima a exploração, a expropriação e o abandono do poder público. Cabe à televisão brasileira o importante papel de educar, todos sabemos. De um autor/ator respeitado pelo seu público (Miguel Falabella) esperamos mais do que a confirmação de idéias e valores que os povos indígenas lutam tanto para superar, nas suas mais variadas formas de discriminação das diferenças."



Valores

Para o editor da revista Afirma, Marcio Alexandre Gualberto, é incompreensível como as atrizes que interpretam Whitney, La Toya e Índia possam concordar com a linha traçada pelos autores. "A novela é de um mal gosto atroz. A figura da índia é horrorosa, as duas irmãs ridículas. Mas sabe o que é o pior, é que as profissionais em questão se submetem a um papel desses. Nós, jornalistas, temos nossos limites éticos e há coisas que não faríamos por nos violarmos como pessoas e profissionais. Por que esses profissionais não sentem isso?", diz Gualberto.

Segundo Regina dos Santos, fundadora do Fórum Nacional de Comunicação contra o Racismo e presidente da ONG Dombali, em várias localidades do país estão sendo estudadas a representação do negro dentro de "A Lua Me Disse" e alguns militantes já planejam entrar com processos na Justiça. "Com esses personagens, mais uma vez a Globo diz a que veio: sempre dividir (as raças) e mostrar o contrário (da realidade). A população negra está revoltada e isso só vai mudar quando houver moralização por parte da mídia".

Posição desagradável

A maneira extremamente caricata com que as personagens La Toya e Whitney estão sendo construídas não tem agradado a vice-coordenadora do núcleo de telenovelas da ECA/USP, Maria Lourdes Motter. Ela acredita que os autores têm total liberdade para tratar a questão racial, mas a maneira escolhida é arriscada. "Acredito que seja intenção deles transformá-las em personas caricatas. Parece-me que vão tratar da questão racial de duas maneiras, mostrando uma personagem que parte para ação afirmativa e exige respeito (Violeta, vivida por Isabel Fillardis), e o outro lado, preocupado com o branqueamento. Isso acaba ficando ridículo e objetivo deve ser esse, chocar e divertir, ao mesmo tempo", diz a professora.

Mesmo entendendo o objetivo do autor, Maria de Lourdes diz estar se sentindo um pouco incomodada — chega a contar que La Toya e Whitney já estão ficando um pouco cansativas — e acredita que os negros estejam numa posição desagradável ao assistir à novela. "É possível mostrar o preconceito e dizer que isso é algo ruim, que causa sofrimento e exclusão. Existem várias maneiras de fazer isso, mas a escolha é do autor". A professora diz ainda que não duvida que a controvérsia esteja sendo implantada para levantar a audiência do horário. "Em geral, as polêmicas dão amplitudes interessantes para as telenovelas. A mídia divulga a polêmica e todos vão conferir para ter uma posição sobre o assunto".

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Indique este blog

Voce que vem por aqui dar uma olhada nas bobagenzinhas que vez ou outra cometo pode agorar indicar o blog para seus amigos. É só ir na coluna à direita, nos links, abaixo, está a indicação. Clicou ali vai se abrir uma janelinha. É só você preencher e mandar bala.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Politicamente correto ou o poder que as palavras têm

Eu não quero denegrir ninguém, muito menos judiar da língua portuguesa, menos ainda ofender bichas, anões, ladrões, comunistas, nem nada. Mas a onda do politicamente correto chegou pra valer e começou a gerar incômodos. O mulato-baiano-quase-branco e ex-cachaceiro João Ubaldo Ribeiro, o careca do Zuenir Ventura e tantos outros jornalistas velhos e barrigudos já começaram a se manifestar. Então se é pra se manifestar eu também quero dizer minhas besteirinhas.





Vamos aos fatos: o governo federal, através da Secretaria Especial de Direitos Humanos, lançou na semana passada uma cartilha voltada para profissionais de comunicação, professores, policiais, advogados etc., sobre temas considerados preconceituosos ou pejorativos.

No domingo, tomado por uma ira libertadora da expressão, João Ubaldo Ribeiro escreveu um artigo declarando que isso era arbitrariedade e ditatura disfarçada. Foi seguido por muitos nos meios de comunicação e o assunto continua rendendo. A Sedh, por sua vez, deu um recuo na iniciativa. Uma pena, porque uma vez gerado o debate o que tem que se fazer é sustentá-lo para que dele não saiam vencedores e vencidos, mas que ganhe a sociedade como um todo.

O primeiro argumento dos coleguinhas da grande imprensa é que isso fere o princípio da liberdade de expressão e sobre este princípio armam-se de tanques e canhões para defendê-lo. Eu acho divertidíssimo esse povo que defende livre expressão nos grandes veículos de comunicação do país. Há estatísticas que mostram que 6 famílias concentram a quase totalidade dos meios de comunicação do Brasil. Há dados que mostram perseguição a jornalistas em redações e que muitos jornalistas independentes (que têm, estes sim, seu livre direito à expressão reprimidos), vêm sendo mortos ou feridos por ousarem exercer seu livre direito de dizer alguma coisa contra os poderosos. Esses pretensos paladinos da liberdade de expressão esquecem-se que em qualquer publicação séria existe um manual de redação que aponta, a partir de questões consensuais ou de discussões internas ao longo do tempo, termos que devem ou não ser usados, em que contexto determinada expressão pode ser usada ou não. E isso não fere nenhum um pouco o livre exercício da expressão de ninguém.

Uma outra questão que os coleguinhas têm posto é que o país tem coisas mais importantes a tratar, o que é uma grande verdade. O que eles esquecem é que o país precisa tratar das coisas grandes e pequenas concomitantemente. Não dá para fazer determinadas coisas em detrimento de outras. Por isso existe o Estado, por isso entendemos que seu papel deve ser o de atuar em determinadas áreas que consideramos prioritárias e estratégicas. Educação é uma delas. E uma cartilha como esta, com seus erros e acertos, nada mais é que uma estratégia de educar.

A comunidade judaica vai protestar porque na cartilha da Sedh não consta o verbo "judiar". E estão corretíssimos. Hoje, qualquer jornalista sério, não escreverá no seu texto nem o verbo judiar e nem o denegrir. Porque ambos têm uma carga preconceituosa enorme. Porque as outras questões incomodam tanto? Será que efetivamente não começamos a dar alguns saltos evolutivos em nossa sociedade quando começamos a discutir questões importantes como a linguagem?

Está certo o Zuenir quando diz que há sutilezas da linguagem que vão além das palavras. Sempre me lembro de um amigo australiano que viveu alguns anos no Brasil. Ele dizia que iria embora sem entender o fato de chegarmos pra um sujeito e chamá-lo de viado, filho da puta e corno e depois abraçá-lo dizendo que estávamos com saudades e há muito não nos víamos. Ele dizia impressionar-se como isso não acabava em briga. São de fatos sutis as nuances que separam o fato de eu chamar um amigo meu de viado e me referir a alguém que seja homossexual dizendo que ele é viado, ou ainda chamar de viado alguém numa discussão com a clara intenção de oferndê-lo. Mas não é porque existem essas sutilezas que deveremos colocar tudo num mesmo pacote e tratar tudo da mesma maneira.

Este é um daqueles momentos em que cabe dizer que o governo atirou no que viu e acertou no que não viu. O debate está nas ruas, na imprensa, nas listas e nos blogs. E isso já é um grande êxito. Nós não podemos permitir que as gerações futuras cresçam sem achar problemático chamar homossexual de bicha, viado, ou usar expressões ofensivas contra negros, mulheres, nordestinos, judeus etc.

A questão aqui não é se a discussão é sobre o politicamente correto. A discussão é sobre os valores que construímos em nossa sociedade e esses valores refletem-se no que dizemos, no como dizemos e nas palavras que usamos para dizer.