quarta-feira, 4 de maio de 2005

Politicamente correto ou o poder que as palavras têm

Eu não quero denegrir ninguém, muito menos judiar da língua portuguesa, menos ainda ofender bichas, anões, ladrões, comunistas, nem nada. Mas a onda do politicamente correto chegou pra valer e começou a gerar incômodos. O mulato-baiano-quase-branco e ex-cachaceiro João Ubaldo Ribeiro, o careca do Zuenir Ventura e tantos outros jornalistas velhos e barrigudos já começaram a se manifestar. Então se é pra se manifestar eu também quero dizer minhas besteirinhas.





Vamos aos fatos: o governo federal, através da Secretaria Especial de Direitos Humanos, lançou na semana passada uma cartilha voltada para profissionais de comunicação, professores, policiais, advogados etc., sobre temas considerados preconceituosos ou pejorativos.

No domingo, tomado por uma ira libertadora da expressão, João Ubaldo Ribeiro escreveu um artigo declarando que isso era arbitrariedade e ditatura disfarçada. Foi seguido por muitos nos meios de comunicação e o assunto continua rendendo. A Sedh, por sua vez, deu um recuo na iniciativa. Uma pena, porque uma vez gerado o debate o que tem que se fazer é sustentá-lo para que dele não saiam vencedores e vencidos, mas que ganhe a sociedade como um todo.

O primeiro argumento dos coleguinhas da grande imprensa é que isso fere o princípio da liberdade de expressão e sobre este princípio armam-se de tanques e canhões para defendê-lo. Eu acho divertidíssimo esse povo que defende livre expressão nos grandes veículos de comunicação do país. Há estatísticas que mostram que 6 famílias concentram a quase totalidade dos meios de comunicação do Brasil. Há dados que mostram perseguição a jornalistas em redações e que muitos jornalistas independentes (que têm, estes sim, seu livre direito à expressão reprimidos), vêm sendo mortos ou feridos por ousarem exercer seu livre direito de dizer alguma coisa contra os poderosos. Esses pretensos paladinos da liberdade de expressão esquecem-se que em qualquer publicação séria existe um manual de redação que aponta, a partir de questões consensuais ou de discussões internas ao longo do tempo, termos que devem ou não ser usados, em que contexto determinada expressão pode ser usada ou não. E isso não fere nenhum um pouco o livre exercício da expressão de ninguém.

Uma outra questão que os coleguinhas têm posto é que o país tem coisas mais importantes a tratar, o que é uma grande verdade. O que eles esquecem é que o país precisa tratar das coisas grandes e pequenas concomitantemente. Não dá para fazer determinadas coisas em detrimento de outras. Por isso existe o Estado, por isso entendemos que seu papel deve ser o de atuar em determinadas áreas que consideramos prioritárias e estratégicas. Educação é uma delas. E uma cartilha como esta, com seus erros e acertos, nada mais é que uma estratégia de educar.

A comunidade judaica vai protestar porque na cartilha da Sedh não consta o verbo "judiar". E estão corretíssimos. Hoje, qualquer jornalista sério, não escreverá no seu texto nem o verbo judiar e nem o denegrir. Porque ambos têm uma carga preconceituosa enorme. Porque as outras questões incomodam tanto? Será que efetivamente não começamos a dar alguns saltos evolutivos em nossa sociedade quando começamos a discutir questões importantes como a linguagem?

Está certo o Zuenir quando diz que há sutilezas da linguagem que vão além das palavras. Sempre me lembro de um amigo australiano que viveu alguns anos no Brasil. Ele dizia que iria embora sem entender o fato de chegarmos pra um sujeito e chamá-lo de viado, filho da puta e corno e depois abraçá-lo dizendo que estávamos com saudades e há muito não nos víamos. Ele dizia impressionar-se como isso não acabava em briga. São de fatos sutis as nuances que separam o fato de eu chamar um amigo meu de viado e me referir a alguém que seja homossexual dizendo que ele é viado, ou ainda chamar de viado alguém numa discussão com a clara intenção de oferndê-lo. Mas não é porque existem essas sutilezas que deveremos colocar tudo num mesmo pacote e tratar tudo da mesma maneira.

Este é um daqueles momentos em que cabe dizer que o governo atirou no que viu e acertou no que não viu. O debate está nas ruas, na imprensa, nas listas e nos blogs. E isso já é um grande êxito. Nós não podemos permitir que as gerações futuras cresçam sem achar problemático chamar homossexual de bicha, viado, ou usar expressões ofensivas contra negros, mulheres, nordestinos, judeus etc.

A questão aqui não é se a discussão é sobre o politicamente correto. A discussão é sobre os valores que construímos em nossa sociedade e esses valores refletem-se no que dizemos, no como dizemos e nas palavras que usamos para dizer.

7 comentários:

Anônimo disse...

Caro Marcio.
Li o seu artigo conforme o indicado abaixo.Concordo com as suas observações. Ouso apenas acrescentar algo: os membros do grupo que venho chamando de "unânimidades de Ipanema" têm receio de perderem o Poder de determinarem para a "Opinião Pública" o que venha a ser "o certo", como por exemplo, o conceito de Liberdade (deles).
No fundo, no fundo, o que sempre valeu, de fato, foi a Liberdade DELES, desrespeitando o direito do outro no cotidiano, longe dos holofotes para não serem flagrados como os "vilões da história" e aí verem cair por terra tudo o que "pregam" em seus escritos e manifestações públicas.

Se confirmado, lamento apenas o mencionado "recuo" da Secretaria de Direitos Humanos. Esta falta de coragem para enfrentar o senso comum não condiz com a alardeada preocupação em superar as desigualdades históricas que só têm tornado o Brasil "eterno escravo" de mitos e seus propagadores e incentivadores.

O companheiro sabe que uma das preocupações da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio), ligada ao SJPMRJ, refere-se ao uso pernicioso de palavras que reproduzem o preconceito contra nós da comunidade negra. Espero em breve e junto com os demais integrantes da Cojira, e outros aliados como você, podermos construir alternativas capazes de sensibilizar nossos colegas jornalistas (e demais comunicadores sociais) para a necessidade de serem revistos este e outros conceitos expressos, diariamente, pelos meios de comunicação de massa (a tal da "mídia").

Saudações cojirísticas, Miro Nunes, da coordenação da Cojira-Rio.

Roseane disse...

Só queria lhe dizer que esse seu post tá muito bom...inclusive já repassei adiante...

Denise Arcoverde disse...

BRILHANTE BRILHANTE BRILHANTE!

Comecei essa conversa lá no blog e vou terminar agora, mas você disse tudo e brilhantemente, sobrtou muito pouca coisa pra acrescentar! concordo com cada letrinha sua! O Miro complementou maravilhosamente bem...

Tenho mais umas considerações a fazer, mas vocês dissram quase tudo! parabéns!

Ivan Moraes Filho disse...

Márcio,

Excelente contraponto a estuporados artigos de nossos medalhões midiáticos. Estamos indicando a leitura do teu texto no nosso querido Ombuds PE (www.ombudspe.blogger.com.br). Amém pra vc

Anônimo disse...

Márcio,
sou uma das pessoas para quem a Roseane repassou o endereço. Concordo contigo no que compete à indignação em relação ao alarde dado pelos profissionais mais antigos. Te confesso que, mesmo sendo um projeto com finalidades de educação social, me dá um leve gosto de patrulhamento ideológico-cultural. Não se mudam cabeças por decreto.
Fica o meu abraço.
Mara Lane
http://spaces.msn.com/members/maralanez/

Otavio Ferreira disse...

Grande Marcio,
Muito Lucido ! É isso aí ...Vamos afastar nossos olhares das perspectivas maniqueistas que dominam os debates, que tenham em vista igualdade e justiça em nosso país.
Realmente, está na hora da sociedade perceber que não se trata de escolher esse ou outro tema como prioritário, mas tratar de forma plural as questões que levam à harmonia na vida em sociedade.
Um abraço.

Rogerio Junior disse...

Meu amigo, acabei de ver vc dando uma entrevista no Jornal Hoje, achei muito legal. Resolvi te procurar na net, li seu post e vou passar a ser frequentador assíduo. Parabens! Um abraço do seu amigo que não te vê desde do aniversário de sua irmã ana Emília. Junior.