segunda-feira, 30 de maio de 2005

Até quando?

Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ser saco de pancada?

De vez em quando os meios de comunicação fazem algumas matérias dando cara de novos a temas que já são velhos conhecidos da maioria das pessoas. No último fim de semana o jornal O Globo publicou em manchete de primeira página que oficiais da PM do Rio de Janeiro são donos, sócios ou parentes de donos e/ou sócios de empresas de segurança privada. Coisa que todo mundo já sabe, mas que quando sai publicado num jornal com O Globo, retira das gargantas um oh coletivo como se supresa fosse.

Infelizmente não é. Sabemos há muito tempo que oficiais da PM, delegados, inspetores entre outros são sócios de empresas de segurança, são donos de empresas de taxi e, também fazem parte dos esquemas de vans e kombis clandestinas. Não há nenhuma novidade aí. Como também não é novidade que os marginais estão cada vez mais armados, cada vez mais estão instalando barricadas nas entradas das favelas e, a lógica de proibir que cidadãos de bem não circulem em determinadas áreas das favelas, ou de uma favela para outra, também é antiga.

Essas informações que circulam nos meios de comunicação de tempos em tempos fazem com que as ditas autoridades se manifestem, alguns cidadãos escrevam para os jornais mas depois tudo volta a ser como dantes. Nada muda, as atitudes não mudam.

O massacre das crianças da Cinelândia causou impacto brutal. Hoje, a morte de 30 trabalhadores, crianças e mulheres, mortos por policiais bandidos já não causam o mesmo impacto. Infelizmente, com o passar do tempo as pessoas estão ficando anestesiadas com a sistematica situação de abandono que o Rio de Janeiro está vivendo.

O fato concreto é que de uns anos pra cá ocorreu um fenômeno que foi o de se fazer determinadas concessões a questões que ultrapassam qualquer limite moral ou ético. É inaceitável que um policial militar, seja de qual patente for, atue numa empresa de segurança privada porque isso gera conflitos de interesses, por óbvio. É como se fosse dado a um juíz o direito de advogar nos dias de folga, e essa possibilidade nem é discutida no meio do Judiciário.

O Brasil que ao longo de décadas orgulhou-se do seu famoso "jeitinho" percebe agora que esta prática está cada vez mais corroendo os alicerces éticos e morais da nação brasileira. À medida em que aceitamos a pagar a cervejinha do guarda porque estamos com o Ipva vencido, ou aceitamos que crianças vivam nas ruas, ou, ainda, entendemos que não há problemas em parlamentares contratarem parentes, estamos fazendo mover a grande engrenagem que faz com que a corrupção (e sua filha, a violência) em todos os seus níveis sejam inconscientemente aceitas pelos mais estapafúrdios motivos.

Alguns gostam de falar que a corrupção (e sua filha...) só existem porque as pessoas ganham mal. Mentira deslavada! Até porque se fosse por aí, todos os pobres deste país, 70% ou mais da população brasileira, que vivem com menos de 500 reais por mês, seriam ladrões contumazes. Vê-se frequentemente atos de corrupção velados ou explícitos entre aqueles que têm maior poder aquisitivo ou até mesmo melhores condições de trabalho e estudo que a maioria de miseráveis do país. Os pobres pagam suas dívidas, aos trancos e barrancos, mas pagam. Se não pagarem não poderão fazer prestações, não poderão ter crédito na praça e com isso ficarão impossibilitados de adquirir bens que à vista dificilmente terão condições de comprar.

Já as classes mais favorecidas inventam um monte de meneios para dizer que a coisa não é bem assim e com isso vamos alimentando a cadeia que está fazendo do Brasil uma vergonha para todos aqueles que ainda a têm.

Enquanto não mudarmos nossas atitudes individuais e coletivas de nada adiantarão políticas de combate à corrupção. Enquanto não tivermos um choque ético e uma franca mudança nas posturas éticas de cada cidadão, de cada grupamento profissional, de toda a sociedade, continuaremos achando que não há problemas entre o coronel comandar um batalhão num dia e no outro ser dono de uma empresa que vende serviços exatamente aonde aquele batalhão está falhando em sua função precípua.

Gabriel o Pensador, o mesmo autor dos versos que abrem esse texto, na mesma música chamada "Porrada" conclama:

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doeça sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro

Se não mudarmos nossas atitudes com relação ao aparelho policial, à nossa indiferença com a criminalidade (de todos os formatos e classes sociais) e com os políticos que há cada dia expõem às escâncaras sua absoluta falta de compromisso com o povo, o que nos restará será apenas tomar porrada e mais porrada.

2 comentários:

Helena Costa disse...

Marcinho, querido,
esta anta que vos escrve enviou um e-mail ao invés de comentar aqui, onde todo mundo lê. Lá vai o comentário então, publicamente: gostei bastante do texto, contundente, preciso, coerente. É preocupante esta "anestesia" que você muito bem denominou...
Beijo,
Helê

MARCO ANTONIO disse...

Marcio

gostei do texto
Principalmente do uso da musica do gabril no meio dele. A segunda parte também ficou innteressante

Marco/Bebedouro