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quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Crematório geral

Reproduzo abaixo o texto "Crematório Geral", retirado do blog Jornal Recomeço, editado pela colega Glória Reis e definido por ela como "um jornal voltado para a discussão sobre o sistema penal no Brasil. Um meio de comunicação e expressão para os encarcerados. Uma frente contra a banalização da injustiça no país".

Eu nunca consegui encarar o sistema penitenciário brasileiro. A única vez que estive em uma cela de prisão foi quando fui levar um colega do quartel para cumprir prisão por ter dado uns vacilos. Para mim é inaceitável uma sociedade que constrói mais cadeias que escolas. Que prefere se vingar do delinquente a recuperá-lo. Que reserva esses espaços para apenas alguns tipos de pessoas. Pessoas como Severino Custódio. De quem Glória fala no artigo abaixo.


CREMATÓRIO GERAL de PONTE NOVA-MG
O terceiro maior massacre nas prisões brasileiras

Severino Custódio não tivera nem mesmo uma audiência com o juiz . O juiz responsável foi procurado pela reportagem, mas "estava de férias".
Severino era um dos milhares de presos brasileiros que são jogados numa cela pela polícia e ali ficam, como lixo, na chamada prisão preventiva, esta excrescência que só vale para "severinos". “Ele trabalhava comigo na granja. Se meteu numa briga boba e foi preso”, diz o irmão de Severino, sempre olhando para baixo e com a carteira de trabalho do irmão no bolso da camisa.

Dos 25 mortos, 20 estavam em prisão preventiva.

(Lembram-se do assassino confesso Pimenta Neves? Não "pôde" ser preso porque o juiz considerou ilegal a sua prisão, uma vez que o STJ lhe havia dado o direito de recorrer em liberdade. Como a justiça é generosa com as classes "superiores". Superiores em crimes, falcatruas e privilégios, isso sim!) A GESTAPO brasileira, o DOI-Codi da ditadura continuam perseguindo, prendendo e matando, mas, agora, são apenas "severinos", para estes não haverá anistia.

Fonte das informações: jornal Estado de Minas - 25/8/07

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Carta ao Brasil pede Justiça

Por: Redação - Fonte: Afropress - 27/8/2007

Rio – Na carta lançada pela família do jornaleiro assassinado dentro da agência do Itaú (veja matéria principal), o tom é de dor e revolta pela impunidade. A família ainda não se conforma do porque os sete jurados do Conselho de Sentença – cinco homens e duas mulheres – todos brancos – declararam a inocência do segurança, alegando legítima defesa. “Esta foi a segunda morte do meu irmão”, contou Magna.
Veja, na íntegra, a Carta ao Brasil

CARTA ABERTA AO BRASIL
De: jonaseduardo@ brasil.com. br
Para: povobrasileiro@ brasil.com. br
Cc:bancoitau@ brasil.com. br
protegeempresadeseg urança@brasil. com.br

Durante a minha vida não tive bens, nem posses. Tive apenas um valioso e inestimável patrimônio: a educação recebida dos meus pais – Antonio Salvador e Manoela Paula dos Santos - o amor deles e dos meus irmãos, minha família, e a amizade e o respeito dos amigos que me conheceram mais de perto.

Era, o que já virou definição para os que não nasceram em berço de ouro: um sem-bens, além dos arrolados acima, coisa que banco nem dinheiro nenhum podem comprar.

Neste dia 27 de agosto estaria completando 33 anos. Não terei meu jantar surpresa feito pela minha querida mãe, que tem por hábito fazer para todos os filhos. Não poderei mais comer do meu bolo de chocolate com recheio de coco e todos aqueles morangos que ela colocava em cima, junto com as minhas trinta e três velas.

De mim sempre disseram ter índole pacífica, como de fato nunca me envolvi em qualquer conflito, nem mesmo em briga de rua nos tempos de moleque. Passagem pela Polícia, nem pensar. Meus pais sempre me ensinaram a respeitar o alheio e a fazer o bem. Era, portanto, como milhões de outros brasileiros, que vivem para o trabalho e para a família.

Até que, no dia 22 de dezembro de 2.006, quase às vésperas do Natal, ao entrar numa agência do Banco Itaú, da qual era cliente havia 10 anos, perdi minha vida.

Fui brutal e friamente assassinado, em pleno centro do Rio de Janeiro, depois de sofrer as humilhações a que são submetidos, costumeiramente, as pessoas que como eu, que carregam desde o dia em que nasceram o estigma de suspeitas por serem negras.

Primeiro, fui barrado na porta giratória, essa espécie de blitz adotada pelos bancos, acionadas, - agora sei -, por controle manual; ao contrário do que divulgam, são os seguranças contratados – um dos quais disparou em mim – os responsáveis pelo seu controle.

Naquele dia, o segurança Natalício Marins, que há algum tempo demonstrava aberta antipatia a mim, exagerou: quase me obrigou a me despir; humilhou-me o quanto pôde e só consegui entrar porque a gerência do banco intercedeu.

Numa situação como essa, quem não fica nervoso, quem não perde a calma? Fui cobrar explicações, mas nem para isso tive tempo. Um tiro certeiro disparado à queima roupa me atingiu em cheio no peito. Só tive tempo de ver que o mundo girava em volta e que pessoas gritavam e corriam apressadas. Caí para nunca mais me levantar e fiquei lá mesmo dentro da agência, enquanto o assassino fugia.

Acompanhei de onde estou a dor dos meus pais, dos meus irmãos, dos meus amigos. Minha mãe e o meu pai – já bastante debilitados pela idade e pelos sofrimentos de uma vida difícil -, os meus irmãos Josias, Júlio, Josué, Magna, Marizia e Genaina foram os que mais sofreram.

Nunca mais serão os mesmos. Sou testemunha da dor que carregarão para sempre, e que será sempre lembrada pela minha ausência. Ver um ente querido, um irmão que agente viu crescer assassinado por nada, por um motivo fútil, na porta de um banco no qual deveria estar seguro, é muito forte para qualquer pessoa.

O pior, porém, estava por vir. Passados cerca de 8 meses, no dia 18 de julho deste ano, aconteceu o julgamento do crime e, para surpresa de todos, o Conselho de Sentença absolveu o assassino. Sim, é isso mesmo! O homem que tirou a minha vida foi, simplesmente, declarado inocente. Disseram que agiu em legítima defesa. Mas, legítima defesa de quem, se eu estava desarmado e nem cheguei a tocá-lo?

Esse julgamento, na verdade, me julgou e me decretou essa segunda morte, que, creiam, é o que mais me dói porque não matam com isso só a mim, que já estou do lado de cá. Matam a esperança de todas as pessoas que ainda acreditam na Justiça. Se essa morte vier a ser confirmada será a descrença total na Justiça desse país, já bastante abalada, como se sabe.
Os membros do Tribunal do Júri – influenciados pelo poder do Itaú (segundo soube pelos jornais teve um lucro médio superior a R$ 4 bilhões só nos primeiros seis meses deste ano),
deram um salvo conduto, um passe livre, para que qualquer segurança de banco passe a executar pessoas – com as quais não simpatize – depois de submetê-las aos constrangimentos das portas-giratórias, como foi o meu caso.

Este julgamento, que é a consagração da impunidade e da injustiça no país precisa ser anulado e novo julgamento terá de acontecer, para que – meus pais, irmãos, minha família, meus amigos – possam, ao menos ter o consolo de seguirem com suas vidas, com toda a dor que carregam, mas em paz, por terem visto Justiça.

O Brasil não pode ser o país da impunidade e da injustiça. Não pode ser um país em que um homem honrado pode ser assassinado friamente e o seu assassino volte pra casa e ainda seja declarado inocente, como se tivesse abatido um animal feroz.

De onde estou só peço aos meus pais, irmãos, a minha família e aos amigos: pelo amor de Deus, não esmoreçam. Não descansem um minuto sequer. Levantem a voz, em todos os momentos, em todos os lugares, em todas as circunstâncias – para qualquer um que ainda não tenha perdido a capacidade de se indignar com a injustiça.

Já que não puderam impedir a primeira, não deixem que essa segunda morte, se confirme!
Sempre acreditei na Justiça. Um dos meus sonhos era fazer Direito. Atingiram o meu corpo, mas o meu espírito, a minha dignidade, esses continuam intocáveis. E de onde estou, quero poder acreditar que a Justiça será feita!

Do lado de cá, contem sempre com o meu carinho, o meu amor e a minha força!

ASSINADO: JONAS EDUARDO SANTOS DE SOUZA

QUEREMOS JUSTIÇA POR JONAS!
1 – Que seja realizado novo julgamento onde prevaleça a Justiça e não a impunidade!
2 – Que o assassino seja condenado!
3 – Que cessem as humilhações das portas giratórias contra aquelas que são sempre, injustamente, olhadas como suspeitos preferenciais – as pessoas negras!
COMITÊ JUSTIÇA POR JONAS!
(Pai, Mãe, Irmãos, Irmãs, Parentes e Amigos de Jonas)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Ovada nas vagabundas

É da forma que está no título acima que o senhor Boninho, diretor da Rede Globo de Televisão, que tem em sua ficha de bons serviços prestados ao país a direção do fabuloso programa Big Brother Brasil, se refere ao seu esporte favorito em um vídeo que está circulando no Youtube.

Boninho ensina como fazer um ovo ficar podre: em três dias, depois de adicionar éter ao ovo ele fica bonzinho. E arremata dizendo que já jogou ovo em muita vagabunda na rua.

É a mesma mentalidade dos "meninos" da Barra que acham que podem dar umas porradas em mulher na rua se ela for puta. É a mesma mentalidade dos que tocam fogo em índio porque acharam que fosse mendigo. Enfim, essa classe média que aparece no vídeo (Chateaubriand, Brizola, Boninho, Tamborindegui e quetais) é que está aí revoltada dizendo que tá cansada, bradando contra a violência. Enfim, pura hipocrisia.

domingo, 5 de agosto de 2007

Qual o preço de um homem?

É difícil responder essa pergunta, mas não é impossível imaginar que cada um tenha o seu. Alguns valem mais, outros menos. Nos recentes escândalos da política nacional vemos sujeitos se corromperem por 3 mil reais e outros que se corrompem por milhões. Cada um põe seu valor e o populacho que se dane, seja nos aspectos relacionados à corrupção seja em outros que a gente vê por aí.

Assistir o senhor Mikhail Gorbachev fazer campanha para a Louis Vuitton junto aos escombros do que sobrou do Muro de Berlin me traz a sensação de que Gorbachev está fazendo valer seu preço. No final dos anos de 1980 Gorbachev, João Paulo II e Ronald Reagan foram os grandes artífices do fim de uma guerra que terminou sem um tiro. Juntos, fizeram ruir por dentro o império Soviético que, se por um lado provocava terrores anti-comunistas em alguns, por outro gerava junto aos EUA o equilíbrio necessário para que o mundo fosse um pouco melhor.

O fim da União Soviética e a assunção dos EUA como única potência hegemônica tornou o mundo mais perigoso, como comprovam as intervenções no Iraque e Afeganistão, e a ofensiva israelense contra os palestinos - além, é claro, de ter transformado a ONU em um simples bibelô decorativo no cenário político internacional.

Gorbachev com sua Glasnost e sua Perestroika virou cidadão do mundo. Tornou-se Homem do Ano da Revista Times, foi premiado mundo afora e odiado em seu próprio país. Agora, no outono de sua vida se presta ao mais ridículo dos papéis, e o pior, posando de ícone de um mundo moderno, quando na verdade ele é um dos grandes pais do atraso.

A Louis Vuitton pagou o preço de Gorbachev. Talvez a bolsa ao lado tenha ficado de gorjeta.