terça-feira, 25 de abril de 2006

Pretinhologia Periferal - A nova onda da moda

Domingo, dia de São Jorge, o Santo Guerreiro. Desde a madrugada os fogos estouram e os devotos animados preparam-se para a alvorada nas igrejas ou os churrascos e cervejadas de domingo em homenagem ao santo. Eu que não sou devoto mas não perco um churrasco nem uma cerveja estou lá também, vestido com a camisa de Jorge e tudo. No domingo à tarde resolvo ir para o Cacique de Ramos, bloco carnavalesco que existe desde 1961 e é referência de samba no Rio de Janeiro e local de nascimento do grupo Fundo de Quintal, do surgimento do Zeca e do Dudu Nobre, do Jorge Aragão e do Partido Alto. Enfim, o Cacique é o samba.

O samba comendo solto a roda numa boa e eis que chega Regina Casé e sua trupe. De um tempo pra cá virou moda falar dos pretinhos da periferia. E isso dá até dinheiro (menos pros pretinhos da periferia). Então estamos combinados assim, pretinho e periferia é uma conjunção maneira que dá uma graninha esperta pra uma classe média descolada e feliz que acha tudo lindo. Então a miséria é linda, o Acerola e o Laranjinha são lindos, até o tráfico tem o seu elã. Vamos vivendo, fazer o quê? Pois é, eis que chegam. E já chegam acendendo os sangans (equipamentos de iluminação que parecem um mini sol). Ligam os sangans e começam a tomar conta do pedaço. Já estava quente por demais, com os equipamentos piorou. Eu que estava de triciclo e colete de motoclube imaginei que poderia, pelo exótico (e porque também sou pretinho e da periferia) tornar-me alvo da curiosidade jornalística do povo, mais que rapidamente subi no meu trike e piquei a mula.

Ontem, por exercício profissional (tomar uns copos na segunda e divulgar a idéia do jornal que estou desenvolvendo sobre samba) eis que chega um colega que permaneceu no Cacique, viu toda a história e me deu seu testemunho apenas para corroborar que não sou implicante, nem chato, mas apenas tenho o bom senso de perceber o que algumas pessoas querem da vida.

A Regina chegou com o Acerola ou o Laranjinha (não sei qual dos dois, mas era uma dessas frutas, sem maldade, por favor). Aí, diz o meu colega, depois de um tempo ela pediu a atenção de todos, pediu perdão por estar atrapalhando mas que tinha que gravar para o programa cujo nome sugestivo é "Periferia" (não é lindo?) e tal e tal. Ok, começou a gravação. Ela, com o Acerola ou o Laranjinha, começou dizendo que estava ali levada por aquele negro lindo (não disse?) e maravilhoso e tal e queria fazer uma homenagem a ele cantando a música da Alcione: "é, tu é um negão de tirar o chapéu, não pode dar mole senão você créu..." e por aí vai. Diz o Bruno César, meu brother corajoso que assistiu tal espetáculo, que a gravação teve que ser feita umas quatro vezes.

Aí, o meu caro leitor que não é ligado nas entranhas do samba perguntará por quê. Simples, caríssimo, o fato é que numa roda de samba tradicional não se cantam bobagens tipo as músicas de Alcione, apenas isso. Ou seja, se houvesse um pouco de pesquisa ou minimamente respeito pelo objeto que se quer transformar em matéria jornalística isso não aconteceria.

O fato é que coisa de pretinho da periferia todo mundo acha que conhece. É Regina Casé, é Fernando Meirelles é Bill e Celso Athayde (esses então viraram porta-vozes até na Daslu) e pronto, tá lá todo mundo achando que é versado em "pretinhologia periferal". Eu tô de saco cheio desse povo.

Um comentário:

Francci Lunguinho disse...

Caro Marçola (?),

Mengão até agora (1º tempo) dá de 1x0 no Galo. Isso é bom, porque hj]oje, para mim, o dia não está dos melhores. Como vc mesmo diz: ser flamenguista, jornalista, estradeiro e canhoto, é mesmo de lascar! rsrss.
Mas, enfim...

PS - O site está em via de nascer...