Páginas

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Respondendo à Márcia

Márcia, a Marcha do dia 16 é chamada por um conjunto de organizações negras que estão no campo das Ongs e dos movimentos sociais. São organizações tais como Geledés, Casa da Cultura da Mulher Negra, Rede Feminista de Saúde, Irohin, Criola, Maria Mulher, Afirma, entre outras.

No caso da Marcha do dia 22, está está sendo convocada pelo MNU, Conen, sindicatos, Unegro e por aí vai. Ambas são legítimas e ambas têm seu papel. O lamentável é que não se tenha chegado a um denominador comum. Mas faça a sua escolha. Esteja em uma, ou nas duas. Só não deixe de participar. Eu fecho com o 16 por questões ideológicas e por crer que as temáticas étnico-raciais se sobrepõem às questões partidárias.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Marcha Zumbi +10 - A inexorável caminhada rumo a uma nova forma de ser Movimento Negro

O discurso da esquerda nunca assimilou completamente as problemáticas postas pelas desigualdades étnico-raciais no país. Quando muito, se compreendia que a partir do processo revolucionário e da tomada do poder pelas classes populares, paulatinamente as mazelas provocadas pelo racismo, a discriminação racial e o preconceito seriam eliminadas. Esta visão perdurou por muito tempo e fez com que por muitos anos a relação com as estruturas partidárias se estabelecessem a partir daí.

Quando no início dos anos de 1980 ocorre a abertura democrática o Partido Democrático Trabalhista (PDT) será o primeiro grupamento político-partidário a sinalizar em seu Programa de Ação que o racismo deve ser combatido e ações no campo político devem ser efetuadas para se lograr êxito. Concomitantemente o PT, que não traz em seu programa a problemática racial, na prática vai trazê-la embutida na militância de homens e mulheres pobres que formarão por anos e anos e base do Partido dos Trabalhadores.

Sem dúvida era importante, no momento histórico que o país vivia, que fossem ocupados espaços nos partidos políticos para a discussão das mais variadas pautas. Isso ocorreu com a temática étnico-racial mas ocorreu também com a questão de gênero, agrária, trabalhista e tantas e tantas outras.

Claro está, no entanto, que nos dias atuais as estruturas político-partidárias não têm mais condições de dar respostas a uma série de questões que estão postas pela sociedade brasileira. Exemplo disso é o fato de o atual presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rabelo, para eleger-se negociar com grupos de parlamentares evangélicos o congelamento da pauta que diz respeito ao aborto. Ou seja, uma questão que diz respeito à toda a sociedade, mas que tem a primazia das mulheres pelo fato de se tratar objetivamente de direitos reprodutivos (portanto, e antes de tudo, do direito das MULHERES), é decidida por meia dúzia de machos religiosos e/ou comunistas, ou tudo junto (seja lá o que queira dizer nos dias atuais religiosos e comunistas). Com que autoridade? Com a autoridade que lhes permite a representação partidária e esta se mostra falida exatamente por comportamentos deste tipo.

É neste contexto que a Marcha Zumbi +10 surge como um momento crucial de repúdio à situação de vida da população negra e, ao mesmo tempo, de imensa exigência de tomada de posições que garantam à população negra sua existência e existência com dignidade.

No dia 16 de novembro, um conjunto imenso de organizações, um número estimado em no mínimo 10 mil pessoas, marchará sobre Brasilia, dialogará com a Presidência da República e dirá que basta de morte de jovens e crianças negras, que não se aguenta mais a mortalidade das mulheres negras parturientes, que não é possível mais que o desemprego desestruture as famílias negras e que a educação seja um luxo pelo qual se tenha que brigar até mesmo na justiça.

A Marcha do dia 16 é autônoma. Está sendo construída com muitos poucos recursos e extrema dificuldade. Infelizmente há no campo do Movimento Negro visões distintas sobre ações táticas e estratégicas. Se a Marcha do dia 16 se configura com a participação de organizações e movimentos sociais negros, a Marcha do dia 22 se conforma com sindicatos e grupos historicamente ligados aos partidos de esquerda. Muito mais do que pensar quem está certo ou não, o que a Marcha do dia 16 afirma é que é necessário romper as amarras que nos prendem ao partido X ou Y ou ao parlamentar D ou Z. É em cima da agenda de Movimento Negro que muitos parlamentares são eleitos e que muitos partidos constróem seus discursos. Mas, fato concreto é que, uma vez eleitos estes parlamentares e partidos recuam nos compromissos assumidos com relação às questões étnico-raciais.

Logicamente não se afirma aqui que devamos romper e virar as costas aos partidos políticos. O que afirmamos é a necessidade de nos reconstruirmos como Movimento Negro buscando autonomia, autoridade e legitimidade para encarar de frente os dirigentes partidários e dizermos que queremos representações governamentais comprometidas, que queremos recursos e não esmolas, que queremos ações e não simbolismos.

A pauta do Movimento Negro é urgente. Não nos cabe mais esperar por décadas e décadas nem queremos mais ficar combatendo o medo com esperança. Até porque o que temos visto é cada vez mais a morte da esperança e a ressurreição do medo. Não é nosso interesse confrontar ou repudiar as ações empreendidas pelo governo até aqui. Mas cremos ser fundamental que o governo compreenda que as ações empreendidas ainda são muito poucas quando miramos o fosso das desigualdades entre negros e brancos. E as vítimas desse fosso não são números, mas pessoas com nome e identidade que a cada dia são jogadas na vala comum a que o racismo estrutural e estruturante da sociedade brasileira nos relegou.

Não cremos que será um partido ou outro, um mandato de governo ou outro que fará avançar as ações que combatam as desigualdades criadas pelo racismo. Mas cremos ser fundamental que marchemos no dia 16 antes de tudo para afirmar que nossas demandas não são para o governo, nossas demandas são para o Estado e para a sociedade brasileira. Afinal, os negros não são o problema do Brasil, o problema é como o Estado e a sociedade brasileira lidam com seus negros. E é este o principal recado que a marcha autônoma do dia 16 estará dando em Brasilia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Um modelo a ser seguido



Os meios de comunicação divulgaram nesta semana, com maior ou menor destaque, o lançamento da TV da Gente. Empreendimento bancado por Netinho de Paula (ex-integrante do grupo Negritude Júnior) e investidores angolanos. Netinho, nas entrevistas deixa claro que a idéia é a de uma TV dirigida por negros, feita por profissionais negros para toda a sociedade brasileira.

Logicamente já começam a surgir gritas tais como racismo às avessas e que é um absurdo uma TV de negro, afinal isso só reforça o preconceito. O que me lembra um dizer de Abdias do Nascimento quando lançaram a revista Raça. Ele dizia estranhar o comportamento das pessoas visto que ninguém se incomodava em chegar a uma banca de jornal e ver centenas de revistas sem negros na capa. Mas uma só que fosse voltada para este público já provocava reações raivosas. O mesmo veremos acontecer agora com relação à TV da Gente.

Particularmente eu não conheço o Netinho de Paula. O respeito como artista e como empreendedor e o vejo como um sujeito bem intencionado. Sua atitude me remete a uma figura negra americana a quem muito admiro que é o Quincy Jones.

Showman, compositor de trilhas sonoras, arranjador, regente, instrumentista, ator, produtor de discos, editor de revistas, produtor de televisão, executivo de gravadora e ativista social, Quincy Jones é o exemplo mais bem acabado de onde podem chegar o talento somado a uma dose de visão empresarial e um bocado de sentimento empreendedor. Podendo ficar apenas restrito ao campo da música - onde já reinava como um de seus ícones - Quincy Jones, ou "Q", para seus amigos, enveredou em outros campos e neles fez o mesmo estrondoso sucesso. Sem dúvida deve-se a ele o fato de se ver hoje em dia tantos seriados, filmes e clipes com negros e negras como realmente são: pessoas normais, ricas e pobres, inteligentes ou não. Não importa, mas foge do estereótipo. Estereótipo este que Netinho diz que quer fazer com que sua TV da Gente também não reproduza.

Espero estar vendo surgir um Quincy Jones brasileiro que não entre no jogo mesquinho das políticas rasteiras nem deixe-se usar por interesses outros que não sejam o de buscar colocar a cultura negra brasileira num patamar mais elevado. Espero que o investimento seja um sucesso e, sabedor que tenho amigas, amigos e conhecidos já envolvidos com o projeto, tenho certeza que será, sim, exitoso. Portanto, nos resta agora esperar o dia 20 de novembro para ver o lançamento da TV, de preferência com uma senhora cobertura da Marcha Zumbi +10 que será realizada no dia 16 de novembro em Brasília.

domingo, 2 de outubro de 2005

Campanha do Desarmamento - O Sim começou mal

Antes de tudo quero deixar bem de que lugar eu falo. Dois anos e meio atrás atrás meu pai foi morto na cidade de Guayaramirin, na Bolívia. Esta cidade é fronteiriça ao Brasil e divide-se com este nome no lado boliviano e Guajaramirin, no lado brasileiro. Temos parentes na região e meu pai criava gado e cabras juntamente com um sobrinho dele naquela localidade. Meu pai foi assassinado para que pudessem roubá-lo. Foi isso que aconteceu.

Quando eu era guri e morava em Linhares quase fui morto por um tiro acidental de um tio meu na hora em que ele estava limpando suas garruchas. Eu estava sentado no quintal e o tiro acertou uma lasca de madeira há menos de meio metro de onde estava minha cabeça. Depois daquilo meu tio se desfez de todas as suas armas. Sem contar os dois assaltos que sofri com arma apontada pra minha cabeça.

Falo, portanto, de um espaço onde a dor e o risco fazem parte da minha história. Não estou dando canelada, falo de uma perspectiva real e sofrida que, tal como uma chaga, fica guardada pra sempre na lembrança e dá raiva, ódio e dor, muita dor...

Ontem começou a campanha do desarmamento. A fórmula é honesta e democrática. Nove minutos de programa, tempo dividido igualmente entre os defensores do Sim e do Não. Em termos de conteúdo, confesso que o Não me disse mais que o Sim. Os defensores do Não partiram de argumentos concretos que tocam em qualquer um que seja pai, mãe ou que se ponha como protetor e guardião de sua casa e de sua família. Afinal, temos a obrigação de pensar na nossa segurança e na proteção dos nossos em primeiro lugar. Nada dacroniano, nada dizendo que bandido bom é bandido morto mas, racionalmente dizendo: você entrega sua arma, o bandido entregará a dele? E esse é um argumento forte.

Mas isso não importa, até porque minha opinião está formada e voto Sim desde o início e por ele faço campanha inclusive neste blog.

Vamos então à campanha do Sim. Fraquinha, fraquinha!! Primeiro com aquela cara de esquerda festiva que tanto marcou o PT nos ultimos anos. Apelos emocionais e emocionados. Atores que não se desfazem do papel e atuam artificialmente. Perdoem-me os publicitários do Sim mas, francamente, a Regina Casé parecia que estava no Pé de Quê e eu estava vendo a hora em que o Lázaro Ramos falaria da audição ou do tato. Esse modelo esquerda festiva que o Viva Rio com muita eficácia vem copiando em suas campanhas institucionais pode até servir para quem mora da Glória à Barra, mas do Túnel Rebouças pra cá, e provavelmente no restante do país, essa linguagem não diz muita coisa. É muito jeitinho Zonal Sul. É muito marcha pela paz na Orla de Copacabana. Ou seja é bonitinho mas tem pouco efeito prático.

Eu que não sou publicitário mas lido com comunicação penso que algumas coisas precisam melhorar sob o risco de o Não ganhar força e tomarmos de lavada no plesbiscito que se aproxima.

Por exemplo, o apelo de que a Lei do Desarmamento coloca-se como uma das leis mais avançadas do mundo não cola. O Estatuto da Criança e o Adolescente também o é e o que temos é total mazela com nossas crianças e o aumento da criminalidade infanto-juvenil exatamente por conta da proteção apregoada pelo estatuto. O problema não está no estatuto, mas está no fato de que o estado não cumpre seu papel. E aí é que está o nó da campanha.

Do jeito que a campanha está sendo conduzida parece que só existe um ator nesse processo que é o cidadão comum. Erro crasso que pode levar toda a discussão à berlinda. Eu, no momento em que me desarmo preciso saber o que o Estado fará para me proteger. E isso não está sendo dito por ninguém. Mas o pessoal do Não está. Portanto, é fundamental mudar o foco da campanha, parar com o sentimentalismo e com a pomba branca da paz e discutir mais mudanças na lei que impeçam a impunidade e ações efetivas do estado no combate à violência. Sem isso, não há confiança, sem confiança não se desarma e sem desarmamento mais e mais tragédias ocorrerão no nosso cotidiano.

Por fim, uma notinha de rodapé: todo mundo conhece a Regina Casé, o Lázaro Ramos e tal. Mas ontem, o melhor personagem da campanha do Sim foi um sujeito negro, que encerrou o programa, falando muitíssimo bem, mas que não foi identificado. Achei uma pena, porque de todos os personagens reais ou fictícios da campanha do Sim, ele foi o melhor.