terça-feira, 25 de outubro de 2005

Marcha Zumbi +10 - A inexorável caminhada rumo a uma nova forma de ser Movimento Negro

O discurso da esquerda nunca assimilou completamente as problemáticas postas pelas desigualdades étnico-raciais no país. Quando muito, se compreendia que a partir do processo revolucionário e da tomada do poder pelas classes populares, paulatinamente as mazelas provocadas pelo racismo, a discriminação racial e o preconceito seriam eliminadas. Esta visão perdurou por muito tempo e fez com que por muitos anos a relação com as estruturas partidárias se estabelecessem a partir daí.

Quando no início dos anos de 1980 ocorre a abertura democrática o Partido Democrático Trabalhista (PDT) será o primeiro grupamento político-partidário a sinalizar em seu Programa de Ação que o racismo deve ser combatido e ações no campo político devem ser efetuadas para se lograr êxito. Concomitantemente o PT, que não traz em seu programa a problemática racial, na prática vai trazê-la embutida na militância de homens e mulheres pobres que formarão por anos e anos e base do Partido dos Trabalhadores.

Sem dúvida era importante, no momento histórico que o país vivia, que fossem ocupados espaços nos partidos políticos para a discussão das mais variadas pautas. Isso ocorreu com a temática étnico-racial mas ocorreu também com a questão de gênero, agrária, trabalhista e tantas e tantas outras.

Claro está, no entanto, que nos dias atuais as estruturas político-partidárias não têm mais condições de dar respostas a uma série de questões que estão postas pela sociedade brasileira. Exemplo disso é o fato de o atual presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rabelo, para eleger-se negociar com grupos de parlamentares evangélicos o congelamento da pauta que diz respeito ao aborto. Ou seja, uma questão que diz respeito à toda a sociedade, mas que tem a primazia das mulheres pelo fato de se tratar objetivamente de direitos reprodutivos (portanto, e antes de tudo, do direito das MULHERES), é decidida por meia dúzia de machos religiosos e/ou comunistas, ou tudo junto (seja lá o que queira dizer nos dias atuais religiosos e comunistas). Com que autoridade? Com a autoridade que lhes permite a representação partidária e esta se mostra falida exatamente por comportamentos deste tipo.

É neste contexto que a Marcha Zumbi +10 surge como um momento crucial de repúdio à situação de vida da população negra e, ao mesmo tempo, de imensa exigência de tomada de posições que garantam à população negra sua existência e existência com dignidade.

No dia 16 de novembro, um conjunto imenso de organizações, um número estimado em no mínimo 10 mil pessoas, marchará sobre Brasilia, dialogará com a Presidência da República e dirá que basta de morte de jovens e crianças negras, que não se aguenta mais a mortalidade das mulheres negras parturientes, que não é possível mais que o desemprego desestruture as famílias negras e que a educação seja um luxo pelo qual se tenha que brigar até mesmo na justiça.

A Marcha do dia 16 é autônoma. Está sendo construída com muitos poucos recursos e extrema dificuldade. Infelizmente há no campo do Movimento Negro visões distintas sobre ações táticas e estratégicas. Se a Marcha do dia 16 se configura com a participação de organizações e movimentos sociais negros, a Marcha do dia 22 se conforma com sindicatos e grupos historicamente ligados aos partidos de esquerda. Muito mais do que pensar quem está certo ou não, o que a Marcha do dia 16 afirma é que é necessário romper as amarras que nos prendem ao partido X ou Y ou ao parlamentar D ou Z. É em cima da agenda de Movimento Negro que muitos parlamentares são eleitos e que muitos partidos constróem seus discursos. Mas, fato concreto é que, uma vez eleitos estes parlamentares e partidos recuam nos compromissos assumidos com relação às questões étnico-raciais.

Logicamente não se afirma aqui que devamos romper e virar as costas aos partidos políticos. O que afirmamos é a necessidade de nos reconstruirmos como Movimento Negro buscando autonomia, autoridade e legitimidade para encarar de frente os dirigentes partidários e dizermos que queremos representações governamentais comprometidas, que queremos recursos e não esmolas, que queremos ações e não simbolismos.

A pauta do Movimento Negro é urgente. Não nos cabe mais esperar por décadas e décadas nem queremos mais ficar combatendo o medo com esperança. Até porque o que temos visto é cada vez mais a morte da esperança e a ressurreição do medo. Não é nosso interesse confrontar ou repudiar as ações empreendidas pelo governo até aqui. Mas cremos ser fundamental que o governo compreenda que as ações empreendidas ainda são muito poucas quando miramos o fosso das desigualdades entre negros e brancos. E as vítimas desse fosso não são números, mas pessoas com nome e identidade que a cada dia são jogadas na vala comum a que o racismo estrutural e estruturante da sociedade brasileira nos relegou.

Não cremos que será um partido ou outro, um mandato de governo ou outro que fará avançar as ações que combatam as desigualdades criadas pelo racismo. Mas cremos ser fundamental que marchemos no dia 16 antes de tudo para afirmar que nossas demandas não são para o governo, nossas demandas são para o Estado e para a sociedade brasileira. Afinal, os negros não são o problema do Brasil, o problema é como o Estado e a sociedade brasileira lidam com seus negros. E é este o principal recado que a marcha autônoma do dia 16 estará dando em Brasilia.

3 comentários:

Anônimo disse...
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Fátima Oliveira disse...

Caro Márcio,

Eis um artigo que vale à pena ler... e ler de novo...

Axé feminista,
Fátima Oliveira

JornalistaGauchaOnLine disse...

Olá, Márcio. É claro que podes linkar meu blog ao teu, posso fazer o mesmo? Que bom que visitaste e gostaste. Posso dizer o mesmo do teu. Só estou curiosa para saber como descobriste meu blog. Beijão!