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segunda-feira, 30 de março de 2009

Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski


Acima de qualquer suspeita


Nem todo mundo sabe o significado do nome da rua em que nasce, mora, trabalha ou trafegapor toda uma vida. E os moradores do bairro do Jaguaré na ZO de São Paulo não são exceção a regra: o logradouro Henning Boilesen recebeu esse nome em homenagem a um dos principais empresários brasileiros, presidente do grupo Ultragaz. O documentário de Chaim Litewski mostra, com uma infinidade de imagens de arquivo misturadas a depoimentos de pessoas que sobreviveram a ditadura militar, quem foi e o que fez este dinamarquês naturalizado brasileiro, que tanto podia ser visto em festas badaladas e colunas sociais da alta sociedade paulistana como também em reuniões da FIESP, arrecadando fundos para financiar a tortura dos militantes políticos de esquerda através da criação da OBAN (Operação Bandeirantes). Partindo do zero, Chaim nos revela um Boilsen esbanjando charme e simpatia,  criador do CIEE (Centro de Integração Empresa Escola), instituição que até hoje dá oportunidade de estágio a jovens estudantes de segundo e terceiro graus. E que também inventor de uma ferramenta de tortura que acabou com o seu nome: a "pianola de Boilesen", uma espécie de teclado que emitia choques elétricos nas vítimas.  

Ao analisar este período da História brasileira, o diretor colhe depoimentos dos mais variados (do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao coronel Erasmo Dias, de torturados a militares envolvidos nos "anos de Chumbo"), mescalndo cenas fortes de filmes como "Pra Frente Brasil", de Roberto Farias a "Lamarca", de Sérgio Rezende. O curioso é que a entrega de gás, presente hoje como um dos "serviços" prestados pelas milícias e pelo tráfico nas comunidades e favelas do país,  já naquela época estava envolvida em atividades criminosas: o documentário mostra que Boilsen usava os caminhões de entrega de gás de sua empresa para dar cobertura as açõesde sequestradores e torturadores envolvidos na repressão.  

domingo, 29 de março de 2009

Sábado, Domingos e Garapas radicais



Domingos, de Maria Ribeiro

Um barítono de belo timbre, mas com uma péssima dicção. Um documentário brasileiro onde seu protagonista e homenageado, para ser compreendido pela platéia, necessita de legendas em português. Não é cinema (segundo a diretora) porque foi tudo filmado em DVCam. Não é  teatro filmado, apesar de boa parte das cenas mostrar Domingos de  Oliveira - cineasta e teatrólogo - ora dirigindo atores, ora ensaiando cenas, ora apresentando-se em diversos palcos e até mesmo cantando.  Não é uma ode, pois este mesmo Domingos, uma torrente de contradições  expostas, fala de si mesmo em tons de ironia e autoesculhambação. Carismático e sedutor, Domingos foi um homem bonito em sua juventude,  o que deve ter encantado "todas as mulheres do mundo" que ele comeu ("não mais que umas cinquenta", segundo o próprio). Domingos,  carismático e sedutor, é um homem engraçado e mordaz em sua  maturidade. Maria Ribeiro acerta em seu primeiro trabalho de direção ao mostrar um "não filme" sobre um "não talentoso" artista (segundo ele mesmo).  

Garapa, de José Padilha


Ao final da tensa sessão, o público não tinha força para aplaudir. Ou não queria fazê-lo. A verdade é que o filme Garapa, de José Padilha, não deixa ninguém indiferente. Mostrando algumas famílias do interior do Ceará que passam fome (no sentido mais amplo da palavra: ou pela  falta de comida ou pelo excesso de alimentos errados), o diretor coloca o público como observador particular do cotidiano desses  brasileiros, rodeados por moscas e miséria. Mas seu olhar - que deveria comover por mostrar imagens em preto e branco de dureza sem igual à la Sebastião Salgado - termina por enquadrar suas personagens como cobaias de um laboratório audiovisual, que se comportam como qualquer ser humano diante de uma câmera ligada. Muitas vezes panfletário e agressivo, José Padilha faz uma "anti propaganda" dos projetos do governo Federal como o Fome Zero, dando a sensação de que, de uma hora para outra, políticos de oposição vão adentrar as casas de pau a pique com megafones, cartazes e palavras de ordem, gritando que tudo aquilo mostrado era culpa "da  vergonhosa subserviência ao sistema financeiro!". 
No debate que sucedeu a exibição do documentário, ao ser perguntado se o filme seria um pedido de desculpas a esquerda brasileira e as ONGs,  que o patrulharam fortemente pelo discurso do seu trabalho anterior, Tropa de Elite, e pela adesão da classe média reacionária ao filme (elegendo a personagem Capitão Nascimento como símbolo de "reação a violência"), Padilha respondeu - com certa indignação -  que não existia patrulhamento ideológico e que portanto ele não teria que pedir descuplas a ninguém ("isso é coisa de Cacá Diegues!") porque Garapa havia sido iniciado antes de Tropa. Em outro momento, ao ser elogiado por uma jornalista que reconheceu em seu cinema um caráter muito mais jornalístico e de denúncia do que as próprias matérias jornalísticas que se propunham a isso, o diretor respondeu em tom nada amistoso de que se tratava de diferentes formas de abordagem O curioso é que o mesmo “radical” José Padilha de Garapa, foi produtor  de “Tanga - Deu no New York Times” (1987), único filme do cartunista Henfil, que satirizava os movimentos radicais e revolucionários da época.  (Rolo)

terça-feira, 24 de março de 2009