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quinta-feira, 22 de maio de 2008

Senado Federal: Mão Santa, boca dos infernos!




Toda vez que eu ouço ou leio alguma declaração de alguém tentando se desculpar pelo preconceito velado, com frases do tipo "sempre repudiei o preconceito", "é só perguntar a quem me conhece", "no samba e no futebol tenho amigos afro-descendentes", "tenho orgulho da minha mãe de criação que é negra", "desde os anos 60, adoro cabelo black power, se lembra da Angela Davis? E dos Black Panters?", "o melhor professor que tive foi um negro", "meu melhor amigo senador é um negro" fico com a certeza de que eu,
negro, sou o SEGUNDO melhor amigo do homem (Rolo).

terça-feira, 13 de maio de 2008

No 13 de maio eu não vou em feijoada

"Sonhei, que Zumbi dos Palmares voltou/que a tristeza do negro acabou/foi uma nova redenção/Senhor, ah Senhor, eis a luta do bem contra o mal/que tanto sangue derramou/contra o preconceito racial." (Mangueira, 1988)

São 120 anos de Abolição da escravatura e cá estamos nós, Movimento Negro organizado, dando uma mostra de fragilidade. Não de fragilidade política, mas de fragilidade organizativa. Como somos ruins em trabalhar com elementos simbólicos! Temos tudo à nossa mão mas deixamos passar e quando percebemos somos atropelados pelo tempo.

Quando Isabel assinou a Lei Áurea já não existiam tantos escravos assim, mas muita gente nos interiores do país só foi saber da Abolição muitos meses depois. Era o tanto que demorava a informação para chegar, dias, semanas, meses.

Efetivamente, a Abolição foi mais pelo simbólico do que pelo real, pois, efetivamente, nada mudou na vida de escravos, ex-escravos. Pelo contrário, foram retirados de uma tragédia e jogados em atalho em outra. As cidades incharam, os negros e negras não tinham perspectiva nem de onde ir, nem do que fazer com a tal liberdade nas mãos. E foram para os cortiços, para as periferias e depois o resto todo mundo sabe, pobreza, miséria, morro, favela, até chegarmos ao cenário que temos hoje.

Para mim o 20 de novembro é um dia festivo. É dia de celebrar Zumbi. Nosso grande herói, um dos maiores filhos das Américas. É positivo, é alegre, é dia de beber todas e comer muito, é dia de cantar, dançar, namorar... Mas o 13 de maio... Ah, não! O 13 de maio é um dia triste. É um dia de reflexão. É dia de pensar nos que morreram nos navios negreiros, nas mulheres corajosas que preferiam jogar os filhos ao mar do que vê-los escravos. É dia de resgatar na memória aqueles e aquelas que lutaram por nossa liberdade, que escreveram com o seu sangue a nossa história.

Eu não consigo ficar feliz no 13 de maio. Não consigo imaginar festejos nessa data. Pelo contrário, o 13 de maio para mim deveria ser dia de procissão, passeata, marcha, como queiram, até a Serra da Barriga para, de cabeça ao chão saudarmos nossos ancestrais. Deveria ser dia de protesto, de luta, de grito contra o racismo e a discriminação que estão aí o tempo todo e nos geram toda forma de desigualdades. Deveria ser dia de mobilização. Não dia de festa. Não dia de churrasco, feijoada, rabada ou seja lá o que for que nós negros gostamos tanto.

Eu gostaria que tratássemos o 13 de maio não como um dia de celebração da liberdade, pois, afinal, ele nada significou em termos de libertação para o nosso povo. Quem nos liberta é Palmares, é Zumbi... O 13 de maio é o dia da nossa tragédia, da nossa tristeza. É o dia de pensar que liberdade ainda não chegou, mas não tardará a chegar. Bastará apenas sermos menos festivos e mais afirmativos no que queremos.

Axé!!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O tal do cabelo ruim... por Rolo

“Acho que fez bem em ir à televisão, embora devesse ter raspado a cabeça. Aquele cabelo bombril parecendo tingido me fez entender o que ele disse uma vez causando polêmica – que tinha 'cabelo ruim'.”

O segundo parágrafo do artigo publicado em O Globo de ontem (quarta-feira 07/05/2008) sob o título “A falha de Ronaldo” mostra bem o que o jornalista Zuenir Ventura pensa a respeito dos cabelos dos negros. Incomodou o fato de Ronaldo estar com seu blackpower à mostra. Imagine: o ídolo que é pego em um deslize, aparece na televisão para dar entrevista pedindo desculpas. Mas mesmo assim não se humilha por completo, não raspa a cabeça, se livrando daquilo que, ao inverso de Sansão no embate contra os filisteus, só lhe trouxe fraqueza, feiúra, o tal “cabelo ruim”. Para Zuenir, faltou a contrição absoluta: Ronaldo coberto de cinzas, tal e qual os hebreus antes de Cristo.

Mas afinal, quem tem cabelo ruim? O jogador de futebol ou o jornalista? “Cabelo ruim” é aquele que cai da cabeça! O mais estranho é que um sujeito como Zuenir Ventura, que viveu os anos 60 tão intensamente, ainda faça a “patrulha capilar”. Só os brancos podem ter o cabelo que quiserem, do jeito que quiserem, os negros tem que usar o cabelo bem curtinho, rente ao couro cabeludo ou então raspado, para mostrarem que são limpos, asseados, que não possuem aquele "negócio na cabeça que parece sujo", enfim, que estão arrependidos de seus atos.

Então, o negro, o neguinho, o negão, o pardo, o mulato, o moreninho, o jambo, o café-com-leite, o sarará, o nego-aço, o saroba, o baio, o buiú, o pelezinho, o obina, o crioulo, o preto, o “ah, mas você não é negro, é moreninho...”, esses se não tiverem o famoso cabelo liso, ou devem fazer alisamento japonês, a escova progressiva, a chapinha, o relaxante ou então devem passar a “maquina zero”, pra não incomodar a visão da “classe-média-branco-intelectualizada-que-lutou-contra-a-ditadura”?

Depois da Cidade Partida vem aí o "Cabelo Repartido". Do mesmo autor...