segunda-feira, 19 de março de 2007

É o terror, senhores, é o terror!!!

É o terror, senhores, é o terror!!!

"Os negros vão dominar o mundo" (Da seção "Entreouvido por ai", da Revista O Globo, 18/03/07, a frase de é uma costureira de Niterói refletindo sobre o sistema de cotas nas universidades)


Quando alguns anos atrás o meninos do funk começaram a cantar "Tá dominado, tá tudo dominado" era gracinha, refrão de música boba e sem sentido e aí estava tudo bem. Quando os meninos começam a entrar nas universidades pelo sistema de cotas ou não o grande terror é que "os negros vão dominar o mundo".

Nesta semana Louis Hamilton tornou-se o primeiro piloto negro a largar, correr, pontuar e subir ao pódium na Fórmula 1, a mais nobre e mais cara categoria do automobilismo mundial. Para uma primeira corrida um piloto já pontuar é excelente sinal, chegar ao pódium o credencia a disputar o título, o coloca, imediatamente, como um dos top de linha, um dos pilotos a ser batido.

Em momento algum, como bem apontou o advogado Humberto Adami, na Lista de Discriminação Racial, a imprensa questionou se Hamilton era preto, pardo, cor de burro quando foge, moreninho ou marrom bombom. Era negro. É negro. Ponto final. Não houve por parte de nenhum jornalista brasileiro algum tipo de constrangimento em apontar Hamilton como negro porque de fato ele é. Isso está posto na Inglaterra, seu país de nascimento, está posto na MacLaren, a equipe por onde corre, e está posto até na cabeça de minhoca de Galvão Bueno que teve o displante de, em vários momento da corrida, referir-se carinhosamente ao piloto como Robinho. É o mesmo tipo de babaquice que fazia com que qualquer garoto negro que jogasse um futebol razoável nos campinhos de várzea alguns anos trás fosse logo chamado de Pelezinho.

A percepção da costureira com relação às cotas e da imprensa com relação ao Hamilton convergem quando devem reconhecer uma determinada situação. No caso de Hamilton, vê-se positivamente que, em tempos politicamente corretos, haja um piloto negro e que além de ser negro este piloto se credencia a disputar o título. No caso da costureira está lá o temor atávico de que os negros tomem o poder, que os negros dominem, que os negros mudem o status quo.

Um dos argumentos dos que são contrários às cotas é sempre por a dificuldade que existe em reconhecer quem é negro ou não no país. Só o Brasil tem essa dificuldade. E a dificuldade só aparece quando é para se transformar em alguma vantagem. Na hora de ser desvantagem não há problemas. Quem anda de trem? Quem está no subemprego? Quem mora nos subúrbios? Quem está nas cadeias? Há dúvidas? Parece-me que não. Mas há dúvidas sobre quem é negro pra entrar nas universidades pelas cotas. Estranho não? Sugiro que se chamem os jornalistas que estão cobrindo a F1 e a costureira de Niterói para, juntamente com policiais, bombeiros e proprietários de imóveis que os alugam direto, sem imobiliária, ah, sim, e taxistas, principalmente os que circulam à noite, para formarem a Comissão Suprema de Classificação Étnico-Racial Brasileira.

É o terror, senhores, é o terror!! No fundo, no fundo, sabemos o que está por trás, o que é construído midiática e historicamente na cabeça do povo brasileiro e principalmente dos negros brasileiros. Não é vantagem ser negro no país. Tudo que é ruim, é negativado tem a ver com o ser negro, o estar negro. É ruim ser negro. O bom é ser branco, loiro. O chavão de que se vê mais loiros na TV brasileira do que na Suécia parece que a cada dia se confirma.

É como diz Joel Zito, a super-representação branca nos meios de comunicação é de tal forma que até os que não são negros como os nordestinos (entendendo-se aí as diferenciações fenotípicas ao olhar do cidadão comum e não sob o rigor acadêmico), os asiáticos, os "morenos", estão fora. O Alemão do Big Brother com um apelido desses e com um cabelo daqueles com certeza em algum momento se transformará em galã da Globo. A Juliana, que era atriz formada, mas é morena, só conseguiu um papel secundário numa novela da Record. Se fosse loira como a Grazi...

É isto que está posto, na verdade. Nas ultimas eleições a família Bolsonaro candidatou-se, como sempre: o pai a deputado federal e o filho a deputado estadual. A proposta politica deles é simples e objetiva: esterilização e redução da maioridade penal. Eu resumiria um pouco mais, como assessor de comunicação se deles fosse: exterminemos a negrada, companheiros!!!

Sabemos a quem a esterilização se destina, como sabemos também a quem se destina a redução da maioridade penal. "Insistimos, a quem será que destina?". Ora, destina-se às mulheres negras, aos homens negros, aos jovens e crianças negras. Não nasçam mais e os que já nasceram, por favor, morram. Eis a forma que o Brasil está encontrando para propôr resolver os problemas da população negra brasileira.

Chegamos a um estágio onde não nos é mais possível ignorar este debate e agirmos como se ele não tivesse nada a ver conosco. Tem muito. Somos, em verdade, o principal objeto deste debate. Isso não será dito, não será afirmado, mas está posto. É como o poema do Brecht que dizia que nao defendeu os judeus porque não era judeu, não defendeu os gays porque não era gay, quando vieram buscá-lo não havia ninguem para defendê-lo. Nós não temos. Temos apenas a nós mesmos.

Nós negros servimos como objeto de desejo sexual, objeto de consumo de nossa cultura, objeto de apropriação de nossa estética, objeto de construção até mesmo de discursos que venham combater a culpa da classe média, mas não servimos para sermos protagonistas de nossas próprias lutas. Há sempre brancos boa gente querendo assumir o discurso por nós e nós achamos isso bonitinho, solidário, simpático. Não é. Não é simpático, não é solidário e muito menos bonitinho. É vergonhoso. Nós temos que falar por nós mesmos. Nós temos que lutar nossas lutas. Precisamos carregar de um lado a lança que fere, e do outro o machado que propaga a justiça. Não precisamos que outros façam por nós o que podemos fazer.

Por outro lado precisamos construir alianças. E aí percebemos o quanto é dificil encontrar parceiros. Um exemplo disso é que num momento vital como este a maior dificuldade para as organizações negras brasileiras é encontrar fontes de recursos para a manutenção de suas atividades. No entanto, grandes organizações, ou "king ongs", como chamam algumas, conseguem milhões de reais para manter projetos no campo étnico-racial, sendo que os dirigentes destes projetos são brancos e, quando precisam legitimá-los, inclusive a estes brancos, sempre aparecem uns negros e negras dispostos a cumprir o papel. Talvez em troca de uns trocados, um carinho, um sorriso simpático.

Os negros vão dominar o mundo, já afirmou profeticamente a costureira de Niterói. Iremos mesmo. E ao fazermos isto temos a obrigação de construir um mundo melhor. Não podemos repetir os erros, se for pra errar, busquemos erros novos. Mas até chegarmos a dominar o mundo precisaremos construir muito e precisaremos dar alguns passos. O Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil é um passo. A construção de redes de combate à violência contra a juventude negra é outro passo. O fortalecimento do protagonismo negro é mais um passo e daí seguimos.

É hora de analisar o cenário. Avaliar o teatro de operações onde a guerra está se travando, pois estamos em guerra, senhoras e senhores! Numa guerra onde só quem perde somos nós. Só quem morre somos nós. Mas o terror, senhoras e senhores, o terror está do lado de lá. Organizemos a massa. Mobilizemos os negras e as negras que estão no país profundo e veremos os tanques saírem dos quartéis, a classe média fugir desesperada. Não seremos mais os neguinhos bonitinhos que enfeitam festas e vernissages, seremos os filhos de Zumbi dizendo que queremos o que é nosso por direito. E isto, caríssimos, será o terror em sua mais profunda essencia!!