sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Nos bastidores do carnaval da Bahia nada é festa

É carnaval em Salvador! Hoje as chaves da cidade serão entregues ao Rei Momo que, por quase uma semana, comandará os festejos carnavalescos que reforçarão a imagem da cidade como a capital nacional da alegria e das festas de rua. Os bastidores, no entanto, mostram que a coisa não é bem assim.
Chegar a Salvador nestes dias é, antes de tudo, realizar uma grande imersão na tão louvada, cantada e propalada negritude da primeira capital do país. De fato, é em Salvador que se concentra a maior população negra do Brasil. Do aeroporto até o subúrbio, em prédios, placas de anúncio, postes e outros espaços o que se vê são as belíssimas fotos de Sérgio Guerra homenageando negras e negros do candomblé, do campo popular, as baianas, os trabalhadores. De fato uma bela homenagem. Para realizá-la Sérgio Guerra contou com o apoio de quase três milhões de reais da empresa pública Petrobrás. Os negros, sem dúvida, agradecem a bela homenagem.
Um olhar um pouco mais atento, entretanto, perceberá que tirante o fato de os negros estarem retratados nestes e noutros espaços eles não se encontram nas chamadas esferas de poder da capital baiana. Visitar secretarias, participar de programas de televisão, realizar reuniões com representantes do poder público me fizeram perceber que os negros na Bahia não decidem por si. Os brancos fazem isso.
A Bahia é um estado interessante. Contando com a maior população negra do país este que é o quarto maior estado da Federação em importância política e econômica elegeu apenas um parlamentar negro para a Câmara dos Deputados. Este, no entanto, movido por razões tão sofisticadas que fogem completamente à minha compreensão preferiu, no entanto, deixar a possibilidade de, no parlamento tornar-se uma voz nacional dos negros brasileiros, para assumir uma secretaria de pouca visibilidade política, nenhum recurso e com pouquíssimo poder de ação.
É a negra Bahia que elege aquele que talvez seja o único governador de olhos verdes no país. É a sincrética Salvador que elege um prefeito evangélico enquanto a Igreja Universal comanda ataques a terreiros de candomblé. É neste lugar que é mais visível o apartheid sócio-racial brasileiro e se percebe o quanto o racismo é institucionalizado e as relações verticalizadas.
Mas é carnaval e é dele que estamos falando! Eu não estou em Salvador à toa e nem mesmo a passeio. Pela primeira vez em minha vida uma organização do Movimento Negro me convidou para trabalhar com ela e é pela sua proposta e concepção política que não só aceitei o trabalho como, pela primeira vez, estou tendo a possibilidade de assistir e participar do nascimento de uma nova forma de se fazer militância política no campo das relações étnico-raciais brasileiras.
O Coletivo de Entidades Negras (CEN) surgiu dois anos atrás com a perspectiva de agregar em torno de si a juventude, as mulheres, as religiões de matriz africana e grupos culturais distintos tais como os blocos, afoxés entre outros. O CEN é entidade de base. Realiza semanalmente uma bagunçada assembléia onde, freqüentemente, gritos e manifestações de apoio ou censura podem soar ao incauto como a iminência de uma batalha física entre seus membros. Mas não é! Na verdade o que ocorre é que ao dar voz àqueles que não tem voz, o Coletivo de Entidades Negras é o espaço para o surgimento das mais distintas demandas. É onde aqueles que nunca puderam nem mesmo olhar para cima são tratados com extrema dignidade e respeito. Isso faz a diferença na postura, na forma de ver o mundo e na atuação política. Dois anos atrás algumas das entidades membros do CEN não tinham perspectiva alguma. Hoje, a noção de pertencimento fortalece umas as outras e isto causa grande temor nos brancos e verdadeiro terror em negros que se acostumaram a ser os porta-vozes da negritude baiana nos últimos 30 anos.
As camadas formadoras do carnaval da Bahia
É carnaval em Salvador! O carnaval em Salvador é formado por muitas camadas. As mais visíveis são aquelas que fazem a alegria dos paulistas e cariocas endinheirados; são transmitidas ao vivo e em cores pelas emissoras de TV mundo afora; reforçam a noção de país dividido racialmente quando de um lado das cordas estão os brancos festivos que compram seus abadás por até dois mil reais, e do lado de fora os pobres pretos, pardos, mulatos, cafuzos e confusos foliões que enfrentam a truculência dos cordeiros (homens e mulheres que trabalham para ganhar em média 15 reais por dia, para garantir a tranqüilidade momesca dos brancos endinheirados) e a violência gratuita da Polícia Militar – uma das mais violentas do país – dirigida sempre aos negros.
A outra camada é formada por gente comum e não celebridades artificiais ou não. São pessoas que há 20, 30, 40 anos e até mais que isso, realizam os carnavais de rua, mobilizam suas comunidades, embutem nesta ação uma série de trabalhos sociais e atingem o ápice de sua atuação no período das festas carnavalescas. Para estas pessoas e grupos o carnaval não é festa pura e simplesmente. É um pouco da projeção dos desejos e sonhos. É a coroação de um ano inteiro de trabalho que é todo canalizado para este momento. Este povo, no entanto, que atua cotidianamente com os negros e as negras pobres de Salvador que os homenageiam diuturnamente não recebem um tostão furado da Petrobrás. Na verdade, muitos deles nem sabem que a Petrobrás costuma financiar algumas atividades, principalmente aquelas que são realizadas por amigos que têm amigos nos lugares certos.
Estas pessoas e grupos – e quando falo pessoas e grupos é que porque muitas das vezes as histórias se confundem, em alguns casos estabelece-se uma relação dinástica em que os filhos herdam dos pais os trabalhos sociais que eram desenvolvidos e sua manutenção passa a ser uma atividade da família -, realizam grande parte de suas atividades sem nenhum tipo de apoio durante todo o ano. No entanto, ao aproximar-se o carnaval todos sabem que a prefeitura e o governo do estado irão aportar algum tipo de recurso para que o carnaval de Salvador se realize. É neste momento que começam uma série de movimentos.
O carnaval de Salvador é diferente do restante do país! Não só por suas características musicais e estruturais, mas também da forma com que ele se relaciona com a cidade e com suas bases sociais. O carnaval não é apenas um evento. Ele é ao mesmo tempo ponto de partida e de chegada. Ele é início e fim de vários processos. Para os movimentos sociais é o momento de cumprir compromissos assumidos e começar a pensar nos próximos. Ao sinalizar com alguns recursos a prefeitura e o governo do estado autorizam estas entidades a contratarem fornecedores, projetarem custos, planejar atividades. Há décadas isto é feito. E há décadas as organizações de base sofrem cotidianas humilhações para realizar seu carnaval.
A liberação dos recursos não é coisa fácil. Á medida em que o carnaval se aproxima os acordos vão sendo sistematicamente alterados. Os interlocutores do poder publico alternam-se em explicações – sempre uma diferente da outra – e ao término de tudo, os recursos quase sempre são menores do que o previsto e as entidades já partirão da quarta-feira de cinzas endividadas e com isso fortalecerão o círculo vicioso que faz desta prática uma das maiores indecências nas relações políticas constituídas no país, mas que é pensada para ser exatamente assim. Afinal enquanto os miseráveis se mantiverem miseráveis, disputarão entre si as migalhas que lhes forem atiradas.
O pesado jogo de disputa e poder
O carnaval de Salvador não é brincadeira para crianças pequenas. É um jogo poderoso, pesado e até mesmo violento. Ao fim de um dia de negociações com o poder público onde o cinismo, o mau-caratismo e a sensação de que eles tudo podem porque são os brancos lidando com os negros semi-analfabetos, empobrecidos e desesperados, você acaba moído física e emocionalmente. Parece que três brutamontes lhe deram uma sova e um comando torturador de Guantánamo lhe interrogou durante todo o dia. Você fica acabado. Se além disso você é uma pessoa que reflete, que lê as entrelinhas, que envergonha-se de negros que vendem outros negros, a violência então lhe atinge como um soco no estômago, um chute na costela e um monte de tapa na cara.
De fato, o carnaval em Salvador é antes de tudo violento. Mas à noite os artistas brancos e negros estarão pulando como pipoca, animando a maior festa popular da terra, sem saber ou se sabem, ignorando, o verdadeiro massacre pelo qual passam determinados grupos, grupos estes, inclusive, que fazem parte da história pessoal de muitos desses artistas.
Hoje é carnaval em Salvador. Quando o Rei Momo assumir o poder na cidade todas as negociações que foram feitas até aqui para que se liberassem recursos para as entidades de base estarão praticamente suspensas. Quando os recursos forem liberados após o carnaval (se forem) as organizações terão problemas não só para honrar seus compromissos mas também para justificá-los em prestações de contas já que legalmente terão recebido recursos depois que o evento já aconteceu. E à fria luz da lei as mumunhas políticas, as maldades de determinados indivíduos e o racismo subjacente não contam. Mas é disso que estamos falando.
O Coletivo de Entidades Negras até a terça-feira, véspera de carnaval, não tinha um tostão em sua conta, nem mesmo os mais de cem mil que a prefeitura devia do carnaval de 2006, prometeu depositar, mas não havia depositado. O CEN neste processo representa 46 grandes entidades carnavalescas. Outros grupos menores encontram-se na mesma situação e até o momento em que este texto é escrito não haviam visto nem mesmo um documento assinalando a possibilidade de liberação de algum tipo de recurso.
Outros grupos, no entanto, encontram-se em situação privilegiadíssima. Segundo o jornal A Tarde, o Fórum de Entidades Negras (que agrega os grandes e tradicionais blocos afro da cidade), recebeu um milhão da prefeitura mais um milhão e duzentos mil reais da Petrobrás (sempre ela!!). Ou seja, recursos públicos municipais, estaduais e federais que somam 2,2 milhões de reais, vieram para um conjunto de sete blocos. O outro grupo, que congrega 46 grupos nada recebeu. Como diria Caetano Veloso, alguma coisa está fora da ordem.
O jogo é pesado no carnaval da Bahia! O Coletivo de Entidades Negras foi acusado de estar ameaçando determinadas pessoas para obter recursos. Isto foi dito por uma procuradora do Ministério Público quando os representes do CEN foram assinar o Termo de Ajustamento de Conduta. Que por sinal foi exigido ao CEN e não a outros grupos. O que era, na verdade, uma negociação política com a Fundação Palmares, o Ministério da Cultura e o Fórum de Entidades Negras virou, para o denunciante à promotora pública, um caso de extorsão e só não teve conseqüências mais sérias porque ela mesma achou risível que tal tipo de leviandade de um representante deste Fórum fosse levantada de tal maneira. Táticas de espionagem dignas do Agente 86 também são usadas. Tentativas artesanais de gravação de conversas telefônicas, fofocas, disse-me-disse, maledicências de todo o tipo e depois propostas as mais espúrias e feitas na surdina, fazem parte deste enredo.
E para finalizar...
É triste o carnaval em Salvador. É triste e humilhante. Mas não é isto que está posto. O que está posto é que há claramente uma disputa hegemônica. Aqueles que há quase trinta anos colocaram a negritude baiana em outro patamar ao valorizá-la em sua cultura não conseguem perceber a urgência de dar um segundo salto. Se lessem um pouco Charles Darwin saberiam que o processo evolutivo é gradual, mas que em vários momentos ocorrem determinados saltos. É o que está se dando agora na negríssima Salvador. Um segundo salto é necessário e está sendo preparado. Ao invés de apoiarem, estes setores se vêem ameaçados. Ao invés de tornarem-se parceiros tornam-se inimigos. Ao invés de se somarem juntam-se ao real inimigo para evitar que tal salto se dê. Ora, o inimigo do meu inimigo é meu amigo, logo se o meu potencial amigo se junta com meu inimigo, só posso pensar que não tenho amigo nenhum. E é isto que está posto.
O carnaval de Salvador é a ponta do iceberg. É muito mais que festa, trio elétrico, beijo na boca e violência policial. O que ocorre hoje nos bastidores do carnaval da Bahia é uma clara sinalização do que se está construindo no país no momento em que os negros e as negras articulam-se para daqui um ano dizer que projeto político e que projeto de nação querem para o Brasil. Algo de muito sério está ocorrendo em Salvador. Negar este fato é não conhecer a realidade. Torcer o nariz é preconceito e bobagem! Salvador, tal como um farol está apontando caminhos, tanto para o retrocesso quanto para o avanço.
O micro espaço do carnaval da Bahia reflete em síntese como as relações sociais se estabelecem e como é difícil sair da mesmice, apontar caminhos e construir novos paradigmas. Não é fácil. No entanto, o dado da realidade é que o que está acontecendo não é a vontade de meia dúzia de pessoas. Mas uma manifestação de base, com características populares que está tomando forma e que, oxalá, avance no sentido de se constituir como força política transformadora. E, quem sabe, daqui a trinta anos quando outros vierem para sucedê-la, sejam recebidos de braços abertos e não sob a perspectiva cruel e massacrante de outros, como temos visto neste momento.
É carnaval em Salvador. Que 2007 seja o último carnaval da humilhação dos negros. Nelson Mandela diz que o princípio da liderança é ter claro que nada que favoreça o indivíduo pode beneficiar a nação. Este tipo de pensamento é o que deve permear as ações políticas. Não a lógica do favorecimento, dos círculos de amizade, dos acordos subterrâneos. É necessário ter em mente que o carnaval de 2008 será diferente, afinal, inspirados que somos no Fórum Social Mundial, podemos dizer que um outro carnaval é possível. E ouso ir além afirmando que outra Salvador será possível quando os negros saírem da subserviência, da miserabilidade e assumirem o papel que lhes cabe de fato nesta cidade: a condução do seu próprio destino.


8 comentários:

josé ricardo disse...

Qrd brou,
O mn 80' morreu! Algo novo virá! Há pouco, vi passar na rabeira do "Brejeiro" um desconhecido bloco carnavelesco de jovens universitários no Flamengo, nosso outora famoso Lemy Ayó (RJ)tocando para gatos pingados. Tendo dessistido de seguir atrás do outro bloco com suas alegres marchinhas, recolherem de repente, os intrumentos. Alguém do grupo disse: "eles não ...", um outro arrematou: " a revolução ..."
Todas, não!
Elas, sim!
axé,
jr

josé ricardo disse...

Qrd brou,
O mn 80' morreu! Algo novo virá! Há pouco, vi passar na rabeira do "Brejeiro" um desconhecido bloco carnavelesco de jovens universitários no Flamengo, nosso outora famoso Lemy Ayó (RJ)tocando para gatos pingados. Tendo dessistido de seguir atrás do outro bloco com suas alegres marchinhas, recolherem de repente, os intrumentos. Alguém do grupo disse: "eles não ...", um outro arrematou: " a revolução ..."
Todas, não!
Elas, sim!
axé,
jr

Anônimo disse...

Para você que escreve em "Palavra Sinistra"


Eu sou brasileira, branca, neta de italianos, cabelos claros, 54 anos completados em 27/03/07 e estou acordada desde ontem até agora 06:10hs., somente para poder assistir e testemunhar a mais linda corrida de Formula I. Quando vi o Louis pela primeira vez, com aquela carinha de moleque, com um raciocínio maior que a velocidade de seu carro, pensei: "meu único ídolo na Terra foi o Senna. Nunca mais me interessei por qualquer piloto, mas após ter visto o garoto Ham ilton, fiquei empolgada e decidi; esse será meu novo ídolo da fórmula I.

Em conversa com um amigo na sala de musculação do clube Palmeiras, este me disse que torceria pelo alemão e eu lhe disse que torceria pelo Hamilton e frisei "não esqueça esse nome". Não é que eu tinha razão?!

Pouco me importa se o chamam de Robinho, marron, bombom, mulato, moreninho. Para mim, o que interessa é que ele é "o piloto, o homem, com apenas 18 aninhos". Para mim, o que basta é saber que, apesar de ser negro, conseguiu ultrapassar todas as barreiras desta vida, conseguiu um lugar ao sol (Mc Laren), por merecimento, o que não é fácil e PROVOU O SEGUINTE: NÃO IMPORTA A COR DA PELE, O QUE INTERESSA É A ATITUDE E O DESEMPENHO DESSA PESSOA. TODOS NÓS, INDEPENDENTE DA COR, DEVEMOS TER OS MESMOS DIREITOS E O RESPEITO NECESSÁRIO DAQUELES QUE NOS CERCAM, PORQUE SOMOS TODOS IGUAIS.O BRANCO, AMARELO,VERMELHO,NEGRO, MARRON, BOMBOM, ROBINHO, PELEZINHO, ISSO É QUASE UMA FUTILIDADE. PRECONCEITO SIM, É COISA GRAVE. E, AO MEU VER,O PRECONCEITO NÃO OCORRE SOMENTE COM OLS NEGROS. EU MESMA FUI VÍTIMA DE PRECONCEITO POR SER MÃE SOLTEIRA. QUANDO JOVEM, NÃO ME CASEI PELO FATO DE NÃO TER UMA FAMILIA PARA APRESENTAR AO NAMORADO E POR RESIDIR EM PENSIONATO. MAS SOU TAMBÉM UMA VENCEDORA!!!

O HAMILTON É MARAVILHOSO E TEM UM PAI ESPETACULAR E CREIO QUE UMA FAMILIA FORA DE SÉRIE E AMIGOS MARAVILHOSOS, COLÉGIOS NOTA 10, ETC...COISA QUE MUITOS BRANCOS NÃO TÊEM. POR ISSO, É QUE DEVEMOS NOS CONSCIENTIZAR DE QUE TODOS SOMOS IGUAIS, DOTADOS DE INTELIGÊNCIA. A ÚNICA DIFERENÇA É QUE UNS SE DEDICAM MAIS À CULTURA E PROJETO DE VIDA DO QUE OUTROS. GARANTO QUE HAMILTON, EMBORA COM 18 ANOS, VEM PERSEGUINDO SEU OBJETIVO DESDE MUITO CEDO. ELE É MESMO GENIAL, ALÉM DE SER CARISMÁTICO!

CHEGA DE AMARGURAS E RESSENTIMENTOS SR. DA PALAVRA SINISTRA. VAMOS NOS ORGULHAR DESSE MENINO, VAMOS FESTEJAR E VAMOS TORCER. TALVEZ ELE SEJA O PREDESTINADO A MOSTRAR AO MUNDO O VALOR DA RAÇA NEGRA!!!


Elisabeth Morrone

Marcio Alexandre M. Gualberto disse...

Deixe seu contato, Elizabeth. Queria muito conversar com voce. Bjs.

Roquentin disse...

Olha, seu texto é incrivelmente completo. Acho que você conseguiu cobrir uma série de aspectos extremamente relevantes de toda uma dinâmica social de Salvador - e por quê não do Brasil? Acabei de chegar da Lavagem do Bonfim. São 23:14 hs. Cansado, muito cansado. Mas não pude deixar de ler seu texto quando vi do que se tratava. De fato, há uma absurda sub-representação étnica nos estratos de poder dessa cidade. A despeito de discordar radicalmente do texto que sua leitora Elizabeth Morrone escreveu - e acho ótimo que ela o tenha feito, mesmo sob um viés extremamente individualista e conservador, mas isso fica para discutir numa outra oportunidade -, a questão que se coloca é na verdade quanto ao caráter da nossa formação enquanto nação, não quanto ao racismo. Explico. Não acho sinceramente que o negro esteja fora do poder por um racismo deliberado. Há nuances nesse processo de alijamento, qual seja o de que nossas relações sociais se dá, ao meu ver, pela intromissão do privado no público. Acredito que a dinâmica de acesso ao poder no Brasil se dá por meio de relações privadas, o tal do "favorzinho", ou o brasileiro cordial de Sergio Buarque, que você deve conhecer. Assim, quem não tem relações nas esferas de poder, não participa da festa. Preto não entra no círculo de poder porque certamente não tem conhecidos lá e, o pior, o ciclo vai de pai pra filho: pai pobre e analfabeto, filho idem. Se tivesse conhecidos brancos, o negro ascenderia certamente. Mas não pense que com isso eu esteja querendo atenuar o absurdo da situação do negro, mas apenas quero entendê-la lançando uma luz sob um aspecto mais profundo, que não o de atribuir pura e simplesmente ao racismo todas as nossas mazelas. Atribuir ao racismo essa anomalia social é um atalho que não nos leva ao ponto nevrálgico da questão. Não se esqueça que o país civilizado com mais tensão racial está prestes a ter um candidato negro com chances reais de chegar à presidência. Tudo bem, são os EUA, não é Brasil, mas como explicar essa ascenção com base em teorias fundadas na idéia de racismo inerente às relações de poder? Essa é uma dúvida sincera minha.

Por favor, avise Elizabeth Morrone sobre essa discussão, se for o caso.

É isso. Grande abraço.

Glauber, mestiço, 39.

Roquentin disse...

Olha, seu texto é incrivelmente completo. Acho que você conseguiu cobrir uma série de aspectos extremamente relevantes de toda uma dinâmica social de Salvador - e por quê não do Brasil? Acabei de chegar da Lavagem do Bonfim. São 23:14 hs. Cansado, muito cansado. Mas não pude deixar de ler seu texto quando vi do que se tratava. De fato, há uma absurda sub-representação étnica nos estratos de poder dessa cidade. A despeito de discordar radicalmente do texto que sua leitora Elizabeth Morrone escreveu - e acho ótimo que ela o tenha feito, mesmo sob um viés extremamente individualista e conservador, mas isso fica para discutir numa outra oportunidade -, a questão que se coloca é na verdade quanto ao caráter da nossa formação enquanto nação, não quanto ao racismo. Explico. Não acho sinceramente que o negro esteja fora do poder por um racismo deliberado. Há nuances nesse processo de alijamento, qual seja o de que nossas relações sociais se dá, ao meu ver, pela intromissão do privado no público. Acredito que a dinâmica de acesso ao poder no Brasil se dá por meio de relações privadas, o tal do "favorzinho", ou o brasileiro cordial de Sergio Buarque, que você deve conhecer. Assim, quem não tem relações nas esferas de poder, não participa da festa. Preto não entra no círculo de poder porque certamente não tem conhecidos lá e, pior, o ciclo vai de pai pra filho: pai pobre e analfabeto, filho idem. Se tivesse conhecidos brancos, o negro ascenderia certamente. Mas não pense que com isso eu esteja querendo atenuar o absurdo da situação do negro, mas apenas quero entendê-la lançando uma luz sob um aspecto mais profundo, que não o de atribuir pura e simplesmente ao racismo todas as nossas mazelas. Atribuir ao racismo essa anomalia social é um atalho que não nos leva ao ponto nevrálgico da questão. Não se esqueça que o país civilizado com mais tensão racial está prestes a ter um candidato negro com chances reais de chegar à presidência. Tudo bem, são os EUA, não é Brasil, mas como explicar essa ascenção com base em teorias fundadas na idéia de racismo inerente às relações de poder? Essa é uma dúvida sincera minha.

Por favor, adicione Elizabeth Morrone a essa discussão mandando um e-mail pra ela, se for o caso.

É isso. Grande abraço.

Glauber, mestiço, 39.

Marcio Alexandre M. Gualberto disse...

Elisabeth Morrone nunca deixou seu contato. Apesar dela achar que eu sou um ressentido, e infelizmente isso só me leva a crer que ela nao entendeu nada do que escrevi, eu tentei queria muito que ela continuasse no debate. Mas não rolou, uma pena.

Mas o debate segue, até porque, um ano depois, o carnaval em Salvador já começa a ferver e os problemas do ano passado começam a se agravar. Uma pena, mas estamos há cada dia andando pra trás, infelizmente.

Anônimo disse...

Textos chocantes. Surfava na Internet em busca de uma pista sobre comentários que por acaso li sobre a mudança cultural de Salvador, e encontrei esse teu texto. Vai direto na veia. Elizabeth Morrone não continou porque custaria muito, e ela naturalmente não quis pagar para ver. Sou de Salvador, mas estou em Sampa desde os 12 anos. Tenho sangue negro e turco e moro em Sampa. Salvador pra mim era uma terra mística, aqueles negros todos, aquela exuberancia, mas acima de tudo aquela classe media branca orgulhosa e distante. Nunca voltei, mas o Rio Vermelho que conheci nos anos 60 está em um canto especial guardado no meu cerebro, ninguem pode construir espigões nele. Elizabeth Morrone não continuou o debate porque não seria apropriado. Seus argumentos são enfeites, como um colar comprado no pelourinho, são bonitos, bem intencionados, mas restritos no uso. Concordo, o problema etnico no Brasil não é só racial, mas é uma questão de consciencia da cor. Infelizmente os negros e mestiços admiram os brancos e se esquecem de sua propria origem. Se ninguem se assumir não dá pra conquistar o poder social, nem político eu digo.Acho que não tem solução. Já passei dos cinquenta, acho que essa aculturação é normal, há em todo o mundo, mas é triste ver essa alma generosa de grande parte da raça negra (porque tem os mau-carater tambem..)ser substituida pela força ao pragmatismo europeu.