quinta-feira, 8 de junho de 2006

Entrevista com Maurício Pestana

Este blog já teve a oportunidade de falar do Maurício Pestana. Segundo apresentação institucional de seu site " Maurício Pestana é publicitário, cartunista, escritor e roteirista com trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Sua extensa obra tem se destacado principalmente pela luta em favor dos direitos humanos e cidadania plena das ditas minorias brasileiras, feito que lhe concedeu reconhecimento internacional".

Mas é, antes de tudo, como um dos mais engajados e críticos militantes do Movimento Negro que Pestana se destaca. Com sua verve humorística e sua inteligência ímpar, Pestana destaca elementos das relações entre negros e brancos que muitas das vezes passam desapercebidos. Neste momento nosso valoroso cartunista está enfrentando problemas com a Polícia Militar de Minas Gerais. Esta o está acusando de "denegrir" sua imagem ao ser apresentada por ele como um dos órgãos repressores de negros no Brasil.

Segundo matéria publicada pelo jornal O Tempo, de Belo Horizonte: "O Comando Geral da Polícia Militar (PM) deve encaminhar um documento de alerta ao prefeito Fernando Pimentel. Aintenção é informar sobre o preconceito contra a corporação explicitado em um dos livros do kit de literatura afro- brasileira distribuído para as bibliotecas da rede por meio da Secretaria Municipal de Educação.

Com o título 'Violência Histórica', a publicação conta a vida de um jovem negro que morre em uma favela baleado pela polícia. A ilustração da capa é de um rapaz caído com tiros na testa e sangue. Uma pessoa fardada com um coturno pisa sobre o corpo.

'Respeitamos muito a autonomia da prefeitura na gestão do ensino de Belo Horizonte. Mas nos sentimos na obrigação de contribuir, mostrando essa distorção do trabalho policial, não condizente com a realidade', salientou o chefe do setor de comunicação organizacional da PM, tenente-coronel Alexandre Salles.

Segundo ele, a abordagem histórica é coerente quanto à escravidão. No entanto, quando chega à atualidade, o negro aparece subjulgado e oprimido pela polícia. Para a corporação, a leitura é preconceituosa, principalmente em um momento em que a PM implementa no Estado uma série de projetos educativos voltados para a criança e o adolescente.


Abaixo falamos desse assunto com o próprio Pestana.

Como é essa história da Polícia Militar de Minas Gerais ter entrado com uma representação contra seu trabalho alegando que a imagem da PM está sendo vilipendiada? Ou seria "denegrida"?

Isso me pegou de surpresa soube ontem quando voltei para o Estúdio o telefone não parava de tocar, era a imprensa querendo ouvir minha opinião a respeito do caso.

É a primeira vez que ocorre tal situação contigo ou você tem outras experiências a relatar?
Em mais de 25 anos de profissão, dos quais 17 em redações de jornais e revista, com 12 livros e mais de 40 cartilhas foi à primeira vez e olha que comecei desenhar no governo Figueiredo (durante o regime militar).

Como é estar do outro lado? Você está sempre denunciando, sempre apontando à dura e crua realidade em que o negro brasileiro vive. Como é agora, ver seu nome apontado com alguém que está maculando a imagem de uma instituição como a Polícia Militar?

Para ser sincero não entendi ainda a critica, pelo pouco que pude compreender uma hora falam que é a capa do livro, depois me parece que elogiam a parte histórica do livro e só não gostaram quando chego à atualidade que eu estaria associando opressão que o negro sofre em nossa sociedade ao aparelho policial enfim ainda não deu para compreender o que esta pegando!

Que tipo de apoio você tem recebido neste momento, seja da militância negra, seja de outros órgãos?

Total, tenho recebido email do Brasil inteiro, de pessoas anônimas e de militância em geral indignada com este episodio, meu pedido tem sido sempre para que remetam os emails para a secretaria de educação de Belo Horizonte para dar apoio aos companheiros de lá. Tenho também que ressaltar aqui o papel excelente da imprensa ( que costumeiramente temos criticado) porem neste caso tem se mostrado imparcial e em alguns momentos indignada com este tipo de censura!

Você encara esta ação como algum tipo de censura? Teme que daqui pra frente você fique marcado pelo aparelho policial como um homem que não gosta "dos homens"? E que ligação você faria deste episódio contigo com o que ocorreu com o Ferrez, que depois das criticas publicadas em seu blog teve que sair de São Paulo por conta da perseguição e ameaças de policiais?

Quando se tem 42 anos de idade e consciência do que é ser negro no Brasil, censura, privações, discriminação e todo tipo de violência física e psicológica fazem parte do nosso cotidiano o que temos que fazer é lutar sempre sem desistir ou se intimidar para mudar isso para que o futuro dos nossos filhos e deste país seja diferente.

3 comentários:

Helena Costa disse...

Oi, Marçola. Bacana a entrevista, mas senti falta de uma contextualização melhor: ele fala em capa do livro e da secretaria de educação, então qual é o livro, o que tem a secretaria a ver com isso? Ou seja, no que está calcada a denúncia da PM? E o qual foi exatamente a ação da PM, uma representação no Ministério Público? Que pode levar a quê? Desculpe se eu tô sendo chata, Márcio, mas eu tô lendo aqui em primeira mão, então senti falta dessas informações.
Beijo.

Anônimo disse...

As informações que a colega pretende fazem sentido. Mas, dá para entender que é a capa do livro o que incomoda à PM, mais do que o conteúdo. A Prefeitura Municipal deve ter publicado o livro com os fundos do Projeto Viva a Cultura, e ter distribuído os exemplares nas bibliotecas públicas e nas escolas municipais. Daí a indignação maior da PM. E o autor tenha cuidado, para não ser vítima dos esquadrões da morte que as PMs mantém em todo o País, sob o olhar complascente dos Governos Estaduais. Saludos. E parabéns pela entrevista. Maria José Limeira, escritora e jornalista de João Pessoa-PB.

Filipe disse...

oi marçola.
comprei o livro já tem uns meses e o livro é ótimo!! muito bem escrito, muito bem ilustrado! e acima de tudo realista!!! Acho que foi por causa disso que a policia se incomodou. o livro condiz com a realidade do negro no Brasil. Aliás o negro no mundo inteiro, que geralmente é taxado como marginal e exposto a policia como saco de pancada fácil!
Maurício é um dos muitos fenomenos do movimento negro e apoio ele totalmente. Já a policia deveria ver suas atitudes perante a população negra. Deveria aprender com os ensinamentos de Pestana ao invés de ficar fazendo barulho à toa...
Abraços.
Filipe