terça-feira, 21 de março de 2006

Que não seja apenas mais uma data

Marcio Alexandre M. Gualberto – Editor de Afirma e do blog Palavra Sinistra, colunista de Afropress e do IbaseNet.



O que é a democracia? Do povo, pelo povo e para o povo. Mas que povo? Diz o cidadão comum que todos são iguais, mas há uns que são mais iguais que outros. No momento em que vivemos a era da informação e da comunicação, em que o mundo se torna cada vez menor e a aldeia global torna-se uma realidade, há ainda um imenso fosso entre uns e outros, entre incluídos e não incluídos, entre pobres e ricos, entre brancos e negros.

Se na década de 1970 a redemocratização era o objetivo a ser perseguido e alcançado, hoje devemos buscar formas justas e reais de reparar os erros históricos cometidos no passado e buscar formas de diminuir as desigualdades entre as pessoas.

Hoje já não é um problema dizer que o Brasil é um país que enfrenta problemas com sua população negra. A Abolição foi realizada de forma irresponsável e levas de homens e mulheres negros de uma hora para a outra passaram da condição de escravos para libertos. Mas, por outro lado, não tinham emprego, terra nem condições mínimas de subsistência. O inchaço dos grandes centros urbanos se deu exatamente por causa disso. Uma vez saídos das fazendas só restava a estes homens e mulheres buscar nos grandes centros formas de sobreviver com venda de produtos ou prestação de serviços.

O ideal freyriano de Democracia Racial não só nunca existiu como se tornou anátema para o Movimento Negro brasileiro que lutou, nos últimos anos e obteve vitória significativa ao derrubar o mito desta dita democracia. Não custa lembrar que há indicadores que demonstram o nível de desigualdade entre negros e brancos no Brasil e, cada dia mais, ações significativas são propostas para recuperar o tempo perdido.

Hoje, lidar com a temática racial deixou de ser um exercício apenas de militantes e acadêmicos e passou a fazer parte de discussões em empresas, órgãos públicos e partidos políticos. A questão étnico-racial brasileira precisa ser tratada como questão de Estado daí a importância de os partidos políticos envolverem-se nessa discussão e proporem ações concretas para diluir as conseqüências provocadas pela discriminação racial.

Não basta, no entanto, apenas a boa vontade dos políticos para discutir a questão étnico-racial. Entendendo-se a questão étnico-racial como uma questão de estado é fundamental que como tal seja tratada. Há hoje a necessidade urgente de se pensar ações estratégicas que visem resultados concretos de reparação à população negra. No entanto, é mister pensar que quem ganhará com isso não será a população negra mas, sim, o país.

A título de ilustração: nos Estados Unidos, quando houve a abolição da escravatura os escravos ganhavam um lote de terra e um animal de tração, geralmente uma mula. Foi o que bastou para que, mesmo com toda a segregação que todos conhecemos, a população negra americana de desenvolvesse no mesmo nível econômico que a população branca.

No Brasil, quando os italianos, alemães, japoneses e outros povos vieram, também receberam incentivos deste tipo. Ao não ocorrer o mesmo com a população negra o problema gerado aí não é apenas desta população, mas de todo o país. A miséria, a violência, a falta de educação formal são elementos que prejudicam o desenvolvimento econômico do país e com isso toda a sociedade perde, não apenas a população negra.

Fundamental é, portanto, que nos debrucemos sobre esta questão com um olhar estratégico. Não basta criar secretarias especiais ou extraordinárias sem recursos nem força política, tanto no âmbito dos municípios, dos estados ou mesmo na esfera Federal. É necessário gerar a lógica de transversalidade e fazer com que todos os setores lidem com o tema e tentem encontrar formas de encara-lo. É fundamental discutir com a intelectualidade e a militância negra que tipos de ações podem ser encaradas, que tipo de iniciativa pode ser proposta. As políticas de ação afirmativa são importantes mas não bastam. Não é somente no mercado de trabalho ou na universidade que se combate as conseqüências geradas pela discriminação racial.

Iniciamos mais um ano eleitoral em que em tese os temas relevantes do país serão discutidos. No entanto, mais uma vez, percebemos claramente que as candidaturas se consolidam como elementos de tomada de poder e não como construção de um projeto de país. Não dá para a militância negra esperar que este projeto de país seja construído pelas lideranças políticas brancas que aí estão porque não será. Temos, portanto, que arregaçar as mangas das camisas, jogar para o lado as vaidades pessoais e partir para a ação concreta, pois se nós não demandarmos eles nunca nos darão o que nos é de direito.

É hora de agir mais e falar menos. É urgente reagirmos a tudo isso que está aí e que só faz vítimas de um lado: o nosso lado.


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