quinta-feira, 21 de abril de 2005

O teu cabelo não nega, mulata!

"Porque és mulata na cor, mas como a cor não pega, mulata, mulata, quero o teu amor". Bonitinha essa marchinha, não? Quantas vezes já cantamos em época de carnaval, né? Mulata, negona gostosa, carnões bons de apertar, quem não gosta? Mas vejam que beleza: "o teu cabelo não nega". Uma afirmação da negritude. "Mas como a cor não pega, eu quero o teu amor". Putz, vê-se que é música de branco para branco: o cara quer comer a mulata mas não quer ser da cor dela. Tal como essa temos uma série de "sutilezas" do racismo brasileiro nas músicas, na literatura, nas artes, nos meios de comunicação. Eu ponho sutileza entre haspas porque, para nós negros, nada disso é sutil. Pelo contrário, está às escâncaras. Nós percebemos facilmente. Mas quando tocamos no assunto os brancos vêm dizer que estamos querendo pôr chifres em cabeça de cavalo.



Vejam o caso recente da propaganda nova da Assolan. Assolan é uma bucha que entrou no mercado para disputar diretamente com a Bombril. Começou com uma campanha de marketing super simpática que contava com um bonequinho que dançava e satirizava umas músicas da moda. Um barato! Aí um belo dia os caras resolvem pôr no ar um bando de criancinhas saindo de uma embalagem, todas elas com uma peruca feita de Assolan.

Curalhos!!! Nós que militamos nas questões raciais no Brasil estamos há séculos reforçando a auto-estima de nossas crianças que sempre foram chamadas de cabelo pixaim, cabelo duro, cabelo de bombril etc. Aí de uma tacada só, me vem a Assolan e joga tudo isso por terra.

Eu tenho três irmãs mais novas que eu. Em momentos diferentes da vida, essas minhas três irmãs tiveram crise por conta do cabelo. Queriam cortar, alisar, fazer qualquer coisa, porque o cabelo era um problema. Minha sobrinha de 13 anos passa por isso. Minha filha de seis, com certeza passará. Vejam que falei de meninas, porque aí há uma questão de gênero que é foda. Pros homens é mais simples: basta cortar. O racismo, a discriminação com os meninos não se dá pela estética (mas esse é outro papo). Mas com as meninas é terrível. Elas desde pequenas disputam entre si quem é mais bonita, mais jeitosa. Elas nascem para ser bonitas (graças a Deus) e são. Mas a ditadura da estética se apresenta desde cedo. Não basta ser bonita, tem que estar no padrão. Tem que usar determinadas roupas, falar de determinado jeito, e o cabelo tem que ser "bom". Mas aí vem o branco dizer que tudo isso é paranóia nossa.

Agora o mais legal da propaganda da Assolan é o seguinte: a empresa de publicidade responsável pela propaganda chama-se África e é de propriedade do Nizan Guanaes que é baiano, portanto, mestiço, mas talvez ele não saiba. O mais interessante da África é que não tem em seus quadros um publicitário negro, sequer. Caso o Nizan queira, eu posso indicar pelos menos uns 10 publicitários negros pra ele. As únicas negras que trabalham na agências são duas gêmeas, que são recepcionistas. Mas tudo bem, o lance é que a Assolan quer "valorizar" nossa diversidade e toma de botar um monte de molequinho com cabelinho de assolan. É dose!!

Mas, tá tranquilo, no fundo é paranóia nossa. No fundo, no fundo, estamos importando os choques de raças dos americanos pra cá.

O racismo brasileiro é sutil, e exatamente por isso é perverso. É o negro fedido, o paraíba filho da puta, o baiano burro, o judeu sovina, o português estúpido, enfim, tá tudo na brincadeira, tá tudo no nosso modo de tratar carinhosamente os estereótipos que só ofendem a quem são dirigidos. Portanto, porque as pessoas vão se incomodar se alguém me chamar de negro filho da puta ou fedido? É brincadeira, dirão!! Mas eu sei que não é. Eu sinto! Só quem sente sabe.

12 comentários:

Roseane disse...

Olá Márcio recebi seu convite e vim aqui conhecer seu blog, muito legal. Essa música é bem racista mesmo...E esse negócio de cabelo é uma vaidade que nós mulheres cultivamos que nunca estamos satisfeitas, seja ele liso, crespo, loiro, ruivo, negro...bom feriado para você!!!

Carlos Eduardo disse...

Oi Marcio aqui e Carlos Machado de Diadema-SP.
Concordo no seu texto em boa parte, mas eu sou homem negro e deixo o meu cabelo estilo Poder Preto (ja usei dreadlock)porque gosto dele e acho o cabelo crespo lindo e como todos os tipos de cabelo e necessario cuidados, (sou um dos poucos que deixam o cabelo crescer mais de 1 centimetro)pois acima de tudo o negocio e se amar, conhecer e aprender a respeitar as culturas negras de toda a diaspora. E ainda por cima saber que a diversidade e maravilhosa!
Um abraco seu blog esta lindo!
Carlos

Anônimo disse...

Oi Marcos! Vim visistá-lo, participamos da lista da abraji. Quero ler seus textos com mais calma, para depois comentar. Mas parabéns pela iniciativa. Abs, Paula

Wladimir D'Andrade disse...

Olá Márcio. Sou estudante de Jornalismo da UFSC e recebi o convite para conhecer o seu blog. Achei bem lúcido o que você disse da tal marchinha, mas sobre a propagando da Assolan achei que você exagerou um pouco. Particularmente não vejo discriminação naquela propaganda. Acho que do mesmo jeito que o negro deve sim se orgulhar da cor da sua pele (que é muito bonita) pode muito bem se orgulhar do tipo de cabelo.
Bom, é isso abraços e boa sorte

Wladimir D'Andrade

Marcio Alexandre M. Gualberto disse...

Antes de tudo obrigado pelos comentários no blog. A idéia é essa mesmo, interagirmos, trocarmos idéias.

Roseane e Paula, vamos, à medida em que voces visitem mais vezes, trocar mais informações. Conhecer melhor a forma de pensar de cada um e dialogar sobre temas afins.

Carlos Eduardo e Wladimir,

Quero dizer que há poucos meses, e única e exclusivamente por causa de um calor insano no Rio de Janeiro, eu tirei minhas tranças que cultivava há uns cinco anos. Desde guri sempre usei o cabelo grande e acho legal que os homens negros entrem numa de curtir, sim, sua cabeleira. A menção que fiz no texto sobre o fato de os meninos serem bem resolvidos com seus cabelos é que, efetivamente, esta não é uma questão que passa na logica da molecada, mas passa na logica das meninas. E, por outro lado, já se cultiva há muitos anos, a idéia de que o bom do cabelo dos meninos é o carequinha, que os jogadores de futebol acabaram por difundir.

Quanto à Assolan, não acho que tenha exagerado. A grita não é só minha. Agora mesmo a empresa de publicidade está sendo acionada por organizações do Movimento Negro (MN) para explicar o por quê da escolha daquele tipo de associação de imagem.

Wladimir, o racismo e suas sutilezas são terríveis, camarada. Só sabe quem sente. O que muitas das vezes parece até mesmo singelo, pode trazer embutido um problema de graves consequências mais à frente. E isso vale para todos, não só com relação às questões étnico-raciais, mas também a qualquer outro tipo de diferença.

Tu te lembras de um caso algum tempo atrás que o garoto entrou na escola, atirou num monte de gente e depois se matou? Ele justificou seu ato num bilhete dizendo que as pessoas tiravam chacota dele porque ele era gordo. Bobagem, né? Pode ser bobagem pra todo mundo, mas pro menino não era. Esse é que é o problema, entendeu?

Mais uma vez, gente, abração e voltem sempre.

Ivan Moraes Filho disse...

Márcio, meu querido. Belo blog, belos textos. O poema também me impactou. As reflexões acerca das "sutilezas" é coisa que a gente já tinha conversado. Precisa dizer mesmo. Perdi a conta das mesas de bar em que ouvi dizer frases tipo "Vc realmente conhece alguém que se machuca com essas coisas". Sim, eu conheço várias. E, se machuca e pode mudar, porque não pudar? Amém pra vc.

Anônimo disse...

Vc acha que a expressão "samba do crioulo doido é racista"?

Ana Cristina

Mara Lane disse...

é uma tremenda satisfação ler teus textos.
Um abraço

lucas disse...

Eu amo o meu cabelo ele é crespão, e o da minha filha de três anos também ensino para ela desde bebe que o nosso cabelo e lindoooooo!

Anônimo disse...

Por que nao:)

Paulo Silveira disse...

excelente post Marcio, parabens. Hoje em dia enxergo esse preconceito velado, sutil. Esse texto e bem interessante
http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=7378

Mas também queria saber uma coisa: existe algum tipo de classificação de preconceito? Eu, que sempre tinha orgulho de dizer que o brasil tinha pouco preconceito, me decepcionei. Porem hoje em dia questiono qual pais tem "menos" preconceito que o Brasil. Entendo que é algo que nao da pra comparar em diversos aspectos, mas gostaria de saber que paises sao considerados "modelo", se é que existem.

Anônimo disse...

Por que raspar o cabelo para se adaptar??? Tenho uma aparência europeia, digo aparência porque raça só existe uma, a raça humana( sou filho de portugueses), mas se tivesse uma aparência africana adoraria utilizar um corte afro! Já disse para minha noiva que tem a pele mais negra do que a maioria dos Brasileiros de origem africana, que desde cedo quero ensinar nossos filhos a ter muito orgulho de sua aparência e de sua origem ( tanto paterna, como materna) e a não se curvarem a modismos que quiserem fazê-las parecer o que elas não são!! Acho as mulheres negras lindas do jeito que a natureza as fez! Black is beautiful!!!!!