segunda-feira, 29 de março de 2010

Eleições 2010 - Já começamos perdendo

Por: Márcio Alexandre Martins Gualberto - 29/3/2010 - www.afropress. com

A derrota acachapante de Benedita da Silva (31,1%) para Lindiberg Farias (68,9%) sinaliza, não só o início do fim da carreira política da ex-senadora, como sepulta as esperanças de elegermos pelo Rio mais uma vez uma mulher negra para a Câmara Alta Federal.
Outros mais competentes que eu avaliarão os porquês da derrota de Benedita. No entanto, penso que um elemento básico a contribuir para esta derrota seja aquele que tantas vezes criticamos em listas e em outros espaços, ou seja: o nível de subalternidade que Benedita adotou nos últimos anos em relação à direção nacional do PT e ao seu grupo político.

Não foram poucas as vezes que nós, amigos de Benedita, seus eleitores, pessoas que a conhecem há décadas, nos sentimos constrangidos em ver Benedita abrir mão do seu potencial de liderança em nome sempre do "bem maior" do partido e nunca do dela. Nunca vi o PT mudar seus rumos a favor de Bené, mas cansei de ver Benedita curvar-se a favor das vontades do partido e com isso ficar vendida.

Foi assim na intervenção que levou o PT do Rio a apoiar o nefando Garotinho e colocá-la como vice; foi assim que ela se viu a cumprir um mandato tampão; foi assim que ela foi para um ministério pífio e se perdeu numa viagem sem sentido à Argentina num perído pré-mensalão onde o PT ainda posava de paladino da ética; foi assim ao assumir a Secretaria de Direitos Humanos do Cabral, fortalecendo a noção de que o PT é o partido da boquinha como disse Garotinho em seu único momento de lucidez política na vida.

A derrota de Benedita nos dói profundamente pois sua derrota é nossa derrota também. Benedita foi derrotada porque acreditou mais uma vez que a militância petista e seus dirigentes reconheceriam em si o valor daquela que se coloca em segundo plano para o bem da coletividade.

Esqueceu-se a Benedita que determinados atos, mesmo que estejam revestidos de nobreza, podem se virar contra aqueles que os praticam. Esqueceu-se a Benedita das sutilezas do racismo à brasileira, aquele que faz com que setores importantes da militância pensem, mesmo que inconscientemente, que aquele mulher negra e ex-favelada já chegou onde tinha que chegar e se há algo que ela deve fazer hoje é apenas ser grata ao PT que deu a ela as condições de chegar onde chegou.

Para nós que atuamos no campo das relações étnico-raciais, que a cada dia forçamos a mão para que nossa agenda seja a agenda política desse país, sabemos que Bené não concorrer ao Senado (pior, com grandes chances de ser eleita, como mostravam pesquisas na semana passada) é uma derrota que nos faz retroceder um tanto. Afinal, precisamos de nomes fortes, nomes que tenham visibilidade e força política para levar nossos temas adiante.

Em Salvador, João Jorge é candidato ao Senado e todo apoio deverá ser dado a ele. Em São Paulo, Neto de Paula talvez concorra. Provavelmente teremos nomes importantes surgindo em outros estados da Federação e nós, como operadores políticos do Movimento Negro em nível nacional, precisamos nos articular para fortalecer estes nomes. Nós somos atores políticos que não temos um colégio eleitoral específico, todo o território nacional é nosso colégio eleitoral e é dessa forma que devemos operar em 2010.

Nós, operadores políticos, temos a obrigação de mobilizar artistas, comunicadores, designers, acadêmicos e todos e todas que possam contribuir para fortalecer as nossas candidaturas negras para transformar a derrota do Rio em uma vitória em nível nacional.

Para Benedita, pessoa esta que eu mesmo tantas críticas fiz no âmbito político, gostaria de deixar palavras de carinho não pelo que tem feito, mas pelo que fez e representou durante décadas para militantes que, como eu, se formaram nos anos de 1980, tornaram-se adultos nos anos de 1990 e operam no cenário nacional nos anos 2000.

Ao longo de centenas de anos resistimos às intempéries, e resistiremos a mais esta. Transformaremos o dia ruim em noite de bom sono e tiraremos desse episódio a lição necessária para dar o necessário upgrade à nossa visão estratégica.

Trinta anos atrás o PT nascia com o projeto de tomar o poder, fazer o Presidente da República e manter-se na presidência por um longo tempo. Este é o projeto político de todo grupo que se preze. Deve ser o nosso também. Muito além de discutir nomes, temos a necessidade real e imediata de começar a pensar em como construiremos um projeto político de tomada do poder real. E é para isso que devemos nos preparar a partir de agora.

Marcio Alexandre M. Gualberto
Quem é de Axé diz que é!
No Censo de 2010 declare seu amor ao seu Orixá
Diga que é do Santo, diga que é do Axé
Pois quem é de Umbanda, quem é de Candomblé
Não pode ter vergonha, tem que dizer que é!!!

Um comentário:

Roseane, disse...

Márcio tens um link da campanha quem é de axé diz que é para o cnso 2010? Eu quero divulgar no twitter.
Obrigada!