terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Tia Ciata recebe Tia Doca de braços abertos

A morte sempre nos impacta. O sentimento egoísta daqueles que ficam ao imaginar que nunca mais terão aquela companhia, aquele olhar, aquela proximidade, faz com que cada um de nós queira sempre a morte o mais distante possível. Mas inevitavelmente ela chega e leva alguém que amamos, alguém que queremos bem.

A semana começou com o falecimento da tia Doca da Portela. Eu poderia, aqui, escrever várias coisas sobre tia Doca, mas quero falar de alguns aspectos particulares e especiais não só dela, mas de mulheres como elas, que nos inspiram, que nos fazem refletir e que nos apaixonam.

Tia Doca nunca soube meu nome, mas sempre que me via me beijava, me abraçava e me chamava de meu filho. Aquele "meu filho" de tia Doca, como é de tia Surica, como é de tia Verinha e de tantas outras baluartes da Portela, é um "meu filho" verdadeiro, gostoso, bom de se ouvir.

No ano passado a encontrei no samba do Nem, filho dela e natural herdeiro de sua casa, no Pau-Ferro, em Irajá. Era a inauguração do samba do Nem e seria um show com Reinaldo, o Principe do Pagode, pessoa da qual sou fã incondicional. Cheguei no samba, fui falar com o Nem, com alguns colegas e conhecidos e, logicamente, com ela. Ato contínuo tia Doca virou-se pra mim e me disse "meu filho, você nunca mais foi lá em casa, vê se aparece, viu?". E eu disse que iria. Meses depois estava eu em Oswaldo Cruz no Samba da Tia Doca, cheio de gente, um suadouro da muléstia, gente pelo ladrão. Do nada, aparece na minha frente a tia Doca, me dá um beijo e diz que estava feliz por eu estar lá. Fiquei pensando: "caramba, como pode, com tanta gente, esta senhora me ver e ficar feliz por eu estar aqui?"

Pano rápido

A região que hoje é a Praça XI, Gamboa e outros bairros do centro do Rio, no início do século passado era chamada de Pequena África. Era ali que as várias tias, mulheres baianas, robustas, inciadas no candomblé reuniam seus amigos e parentes para comer e cantar em reuniões que eram chamadas de pagodes.

Foi ali, na Pequena África, mais exatamente na casa de Tia Ciata que pode-se dizer que nasceu o samba carioca e é a partir daquele espaço que o samba se eterniza com a primeira gravação radiofônica feita por Donga, com o "Pelo Telefone".

Naquela Pequena África os meninos, os jovens, também não tinham nome, eram todos chamados de "meu filho" e eram cuidados por aquelas mulheres como se filhos fossem. Era uma época em que uma bronca de uma tia daquelas era como sermão de pai e de mãe, ouvia-se calado, de cabeça baixa e com muito respeito. Eu me orgulho de ainda ter sido criado assim, de ter sido chamado de "meu filho" por velhas como tia Doca que era uma representante legítima de tia Ciata.

Não tenho dúvidas que neste momento onde elas estiverem, estarão em festa. Tenho certeza que Ciata está abrindo os braços e alegremente está recebendo Doca com um sorrisão no rosto e, sei que estarão olhando por nós, os "seus filhos", com imenso carinho.

Até breve, tia Doca, a bênção, Tia Ciata, em algum momento todos nos encontraremos e enquanto isso não acontece, só nos resta torcer para que outras mulheres lindas, robustas, religiosas e festivas continuem abrindo suas casas para boas comidas, boas músicas e maravilhosos pagodes.

Um comentário:

:: Soul Sista :: disse...

Foi-se uma dama de fato... Não é à toa que o quintal de Madureira quentíssimo, em todos os sentidos, vive (e continuará vivendo) cheio por tantas décadas. Compartilho com você a certeza de que ela já está encontrando não só Tia Ciata, como outras tantas Tias e Candeia, e Aniceto, e Luis Carlos (o da Vila), e tantos outros bambas... AXÉ, Tia Doca!