sábado, 6 de outubro de 2007

Juventude Negra e Mercado de Trabalho

Deise Queiroz
Coordenadora de Projetos do Diáspora
Estudante Cotista de Ciências Sociais da UFBA



O mercado de trabalho ainda hoje , reflete a organização racial imputada no país , onde os mecanismos discriminatórios se apresentam de forma muito eficiente. Ele é o espelho do racismo, reservando os lugares sócio-econômicos para cada grupo étnico-racial , orientado pela lógica racista.

As fontes de pesquisas nos fornecem números que confirma isto. As/os negras/os estão mais sujeitas/os ao desemprego, permanecem mais tempo desempregadas/os e quando estão empregadas/os ocupam funções de menor qualidade, status e remuneração.

Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (2005), organizado pelo PNUD, de 1992 a 2003, considerando a mesma faixa etária pra brancos e negros, a taxa de desemprego da população negra foi, em média 23% superior à da população branca. Fracionando por sexo: para as mulheres negras era 30% maior que entre as mulheres brancas e, entre os homens negros 24% maior que a existente entre os homens brancos.

Considerando o fator remuneração, as desigualdades se manifestam mais nitidamente. Em 2003, segundo este mesmo relatório, os homens brancos ganhavam em média 113% mais que os homens negros, e as mulheres brancas 84% mais que as mulheres negras.

Quero enfatizar que a pirâmide sócio-racial se estrutura da seguinte forma, do topo para a base : homens brancos, mulheres brancas, homens negros mulheres negras.

As negras/os tem maior participação que os brancos no mercado de trabalho justamente nas faixas etárias menos desejadas ; entre 10 e 24 anos (trabalho infanto-juvenil , período para dedicar-se aos estudos). Na idade considerada melhor produtiva para o mercado, a participação da população negra cai significativamente. Voltamos a ocupar maior percentual em participação nas idades de aposentadoria (velhice).

A conseqüência da inserção prematura da população negra no mercado de trabalho é o pouco tempo que resta para dedicar à educação , acarretando na manutenção de cargos subalternos, pouco valorizados e mal remunerados.

É importante frisar que mesmo entre os negros mais escolarizados, as dificuldades de acesso ao mercado de trabalho são marcantes. As discrepâncias de escolaridades entre as duas raças são acentuadas, porém não são suficientes para explicar a diferença de remuneração. Isso pode ser comprovado observando que entre grupos que tem o mesmo tempo de estudo, a desigualdade entre brancos e negros permanece. E quanto mais elevada é a escolaridade, as discrepâncias salariais se acentuam, sobretudo entre as mulheres negras. Na região Nordeste, os homens brancos ganham 77% mais que os homens negros e as mulheres brancas 74% mais que as mulheres negras.

Não podemos esquecer o papel que o Estado desempenhou para que o racismo entranhasse também na lógica do mercado de trabalho, quando, no pós escravidão, escolheu nos marginalizar , importando mão de obra branca européia , legitimando mais uma vez , o mito da inferioridade negra.

No início do século XXI, houve um “ boom” das Universidades particulares no Brasil, especialmente em Salvador, a conquista histórica do Movimento Negro garantido as cotas raciais nas Universidades públicas, possibilitando uma parcela maior de jovens negras/os adentrarem os espaços de produção de conhecimento. Mas é chegada a hora da saída dessa população qualificada e diplomada para o mercado de trabalho . Como será a recepção da sociedade estruturalmente racista para absorver esta mão de obra que além de desejar os postos mais elevados com melhor remuneração , deseja também gerenciar, dirigir e comandar?

Diante disso, chamo a atenção para a importância dos Grupos de estudantes negras/os organizados nas Universidades criarem estratégias para ampliar a discussão e efetividades no que tocam as ações afirmativas. Elas não se limitam à educação. Está para além disso. Vários países no mundo adotaram ações afirmativas no mercado de trabalho com excelentes resultados. A África do Sul, por exemplo, estipulou ações afirmativas nos postos de chefia das empresas no final do século XX.

Outro ponto que não pode deixar de ser levantado, é a situação da mulher negra, que dentro dessa pirâmide sócio-racial , encontra-se na base, com os maiores índices de desemprego, subempregos e os piores salários.

Sem dúvida, vivemos numa sociedade tão racista quanto machista!!!!
A Juventude negra dentro desse quadro

A juventude negra, o alvo preferido dos homicidas, da violência policial, dos grupos de extermínio, lidera o rancking dos recebedores dos menores salários. Também encabeçamos a lista dos desempregados, dos analfabetos, dos que têm os piores empregos.

O Brasil tem aproximadamente 11,5 milhões de jovens negras e negros de 18 a 24 anos ( 6,6% da população brasileira ) . Entre 10 nossos, 4 estão empregados, entre os brancos essa relação era de 10 para 6.

Quando conseguimos um posto no mercado, a ocupação normalmente é exercida de forma precária, sem garantia de direitos mínimos, carteira assinada, jornada de trabalho definida.

Ainda tem o quesito “ boa aparência “ , as fotos; que querem uma cara bonita, apresentável. Além de tudo isso, existe a famosa carta de referência, o capital social. Aquela/e que indica ao cargo, e não fazem parte de nossa roda de amizades e parentescos. Um dos pontos de defesa para a implementação nos Estados Unidos da América das ações afirmativas no mercado de trabalho foi esse; o entendimento que se tem sobre a ocupação dos melhores cargos, os de chefia e direção ( cargos de confiança). A indicação é feita por um funcionária/o mais antiga/o, que está numa função de direção e apresenta o currículo de um parente ou amigo da família, endossando a confiabilidade dessa/e futura/o funcionária/o.

E aí ficamos entre um ambiente escolar pouco hospitaleiro, sem pertencimento local , nos direcionando à evasão ; os nossos que conseguem ultrapassar esta etapa, concluindo a vida escolar, deparam-se com o ambiente inóspito do mercado de trabalho. Para não enquadrar-se no genocídio social, a juventude negra recorre a um mercado de trabalho originalmente negro, formatado no período pós escravização, quando o Estado escolheu marginalizar esta mesma população sob a égide do mito de um avanço tecnológico que nos caberia . Assim criamos mercado informal, o famoso ambulante. Inicialmente, dominado por mulheres pretas, ex-escravizadas, comercializando quitutes, feijão, cocadas nas ruas, homens engraxates, sapateiros, hoje sob a nomenclatura de camelôs, vendedores de picolés, água, cerveja.


Bibliografia:

- Relatório de Desenvolvimento Humano
Racismo, pobreza e violência – 2005
PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

- Juventude Negra e Exclusão Radical
Maria Aparecida Silva Bento
Nathalie Beghin

- Revista Urutágua
Racismo : o negro e as condições de sua inserção no mercado de trabalho brasileiro no final da década de 90.
Geruza de Fátima Tomé

2 comentários:

Anônimo disse...

Chegou no ponto.
Sem uma reestrutucao do pensamento elitário brasileiro, nem os primos de Lula terao espaco na sociedade brasileira. Até o próprio presidente nao será convidado para as festas que ele hoje é a estrela.
Cotas sim, mas e aí?
Marcos Romao
www.mamaterra.de

Anônimo disse...

Olha vc realmente disse a realidade nos dias de hoje,e todos os negros passam pelo,esse preconceito dentro e fora das sociedades....