segunda-feira, 25 de junho de 2007

Lauryn Hill e o repórter

Sionei Ricardo Leão *

A polêmica entre a cantora Lauryn Hill e a TV Globo, por conta da passagem da pop star no Brasil, neste mês de junho, merece uma análise ou, no mínimo, uma atenção da imprensa brasileira, particularmente, para a futura Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Distrito Federal (Cojira DF).
Para quem não está a par, Lauryn Hill se apresentou entre os dias 12 e 16 deste mês em palcos de Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. Em razão dessa agenda, a Rede Globo de Televisão solicitou à norte-americana uma entrevista, cujo contato surpreendeu a redação, uma vez que a cantora concordou com a pauta desde que fosse abordada por um jornalista negro.
A Globo taxou Lauryn Hill de racista e, portanto, não concordou com os termos exigidos por ela. Divulgou que a empresa conta com os melhores profissionais do mercado e, dessa forma, não se via forçada a buscar um repórter identificado racialmente para a matéria. A cantora, por sua vez, não cedeu.
Ainda que o Brasil tenha uma trajetória riquíssima de imprensa negra, sobretudo, com o marco dos jornais paulistanos do início do século passado, essa prática não é vista com naturalidade, entre nós, sobretudo nas redações – dito de outra maneira, do ponto de vista empresarial, institucional.
O episódio de Lauryn Hill serve de reflexão. Tenho reservas às analises de certos expoentes do movimento social negro que costumam denunciar uma conspiração expressa da imprensa contra as causas afro-descendentes. Em igual proporção, entendo que foi nefasto e antiprofissional o comportamento da Globo, nesse episódio.
Podemos interpretar, suponho, a postura de Lauryn Hill como a de alguém dizendo: "Quero falar da minha trajetória com um profissional que tenha sensibilidade com a história do meu povo e com a musicalidade em que estou imersa". A da Globo, na vertente de uma voz que diz: "Não reconheço a especificidade da cultura e do povo negro, sobretudo de uma estrangeira. " Todos sabemos que a especialização é um fato na imprensa da atualidade. Jornalistas se especializam em Oriente Médio, cobertura de guerra, ciência, política, para ficar em poucos temas. Qual a heresia de reconhecermos que a cultura afro-descendente é uma pauta que requer, da mesma maneira, bagagem, sensibilidade, preparo?
Ocorre que o Brasil não são os EUA, cuja história passa pelo conceito de segregação, responsável pelo conceito "separados mas iguais". A nossa, a pretexto de uma tese universal, trilhou o caminho da exclusão, da discriminação, do absenteísmo, do racismo institucional, de um massacre social, à margem da lei. Infelizmente, faz pouco tempo que trouxemos para o centro da agenda política assuntos como cotas, quilombos e anemia falsiforme, mas com muita dificuldade e resistências de variados segmentos.
Entre nós é, ou foi, um desafio conscientizar os negros de que podem lutar por suas causas, cultura, espaço no mercado de trabalho, cidadania, sem medo. É esse imbróglio que enfrentamos como nunca em todo nosso épico racial à brasileira. O episódio Lauryn Hill é mais uma página nessa robusta e inacabada publicação.
Killing me softly
Para atualização, quem sabe, de algumas pessoas pouco versadas em R&B, Lauryn Hill começou com o trio Fugees em 1996, na companhia dos rappers Wyclef Jean e Prakazrel "Pras" Michel.
O seu estilo é uma fusion de jazz, rap, R&B e reggae, caldo que lhe rendeu sucesso de crítica e em vendas de discos. O marco foi The score, basta lembrar da versão de Killing me softly (veja o clip no youtube), cantada originalmente por Roberta Flack – a mesma de The closer I get you.
*Sionei Ricardo Leão é jornalista e professor do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). Dirigiu seis documentários, entre eles, o Kamba'Race, que recebeu o Prêmio Palmares de Comunicação (2005) do Ministério da Cultura. Integra a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Distrito Federal (Cojira-DF).

9 comentários:

Júlia disse...

ridicula essa sua analise.achei que tudo o que os negros queriam era igualdade e indiferenciaçao de cor de pele.Imagina a repercussao caso um cantor branco,alemao ou judeu,se deixasse somente ser entrevistado por alguem com a mesma cor de pele.E pra quem tem um pouquinho mais de sabedoria,sabe que os negros nos EUA tem uma historia de vida e cultura de gueto completamente diferente da populacao miscigenada brasileira.

Roberto disse...

Gostei muito da análise! Os "melhores do mercado" da rede globo são os melhores para continuar reproduzindo a ideologia da exploração e opressão. Admiro muito esta artista e por isso creio que como seus interesses são diferentes dos da grande mídia não queria os "melhores do mercado". Isso tudo é ótimo para que a teoria perversa de que existe democracia racial no brasil devido a miscigenação (à que se refere a comentante Julia)seja questionada. Um branco ou um alemão, julia, não são dariamente vítimas da opressão recial, como são os negros. Aqui no brasil uma opressão velada. por isso a situação é completamente diferente. Uma comparação dessas, como a feita pela comentante, usa uma lógica formal, linear, que é intrinseca à logica opressora.

Frederico disse...

Que merda é essa???
cara... qualquer tipo de racismo é preconceitoo... é crime...

Não é se excluindo que os negros conseguiram a igualdade...

A propria comunidade negra se exclui do resto, fecha seu círculo social...

Irônico, não????

João disse...

Povo negro não existe, só racistas acreditam nesse separatismo racial... racista. Pior que isso, só quem é tão babaca que considera nefasto quem não cede ao racismo. A Globo foi tão nefasta quanto seria se não colocasse um repórter ariano para entrevistar Hitler. Babacas racistas como lauryn hill e quem a apoia têm mais é que tomar no cu.

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