domingo, 19 de novembro de 2006

Homem, jovem e negro - pronto para morrer!


Marcio Alexandre M. Gualberto*

O "Mapa da Violência 2006 – Os jovens do Brasil", apresentado em Brasília pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), comprovou o que há muitos anos outras pesquisas de menor porte e as organizações do Movimento Negro vêm afirmando: os jovens negros do país estão sendo dizimados.

Segundo o relatório, 93% dos jovens mortos no país são homens e, entre estes, a maioria absoluta é negra. As causas principais, segundo a pesquisa, são: suicídio, acidentes de trânsito e homicídios. O responsável pela pesquisa, Julio Jacobo Waiselfisz, frisa que nos fins de semana as taxas aumentam, não havendo dúvidas de que o consumo de álcool e drogas incide fortemente sobre os índices.

Pelo relatório publicado, entre 84 países, o Brasil encontra-se na terceira posição no que se refere à violência contra jovens. Segundo Júlio Jacobo, "mais de 20% da população jovem não estuda nem trabalha. Isso significa rua, bares, álcool, droga, transgressão de normas. Existe um jeito jovem de viver, mas também um jeito jovem de morrer", disse na apresentação da pesquisa.

Em linhas gerais, podemos resumir os resultados da pesquisa como uma enorme tragédia social para um país como o Brasil. Ao perder seus jovens o país perde cérebros, idéias, força de trabalho; as famílias não só perdem filhos, mas as mulheres perdem maridos e as crianças pais. A desestruturação social começa com a desestruturação familiar na qual a ausência paterna se faz sentir entre adolescentes e jovens que no futuro acabarão por repetir o triste ciclo histórico do pai que já se foi.

No caso das comunidades pobres e negras (o que é quase uma redundância em se falando de Brasil, apesar dos Kamels e Maggies da vida teimarem pelo contrário) vemos que esse impacto é muito maior. O que a pesquisa da OEI afirma agora já era dito pela Unesco em 2004. Segundo a pesquisa Mapa da Violência IV, com dados de 1993 a 2002, os homicídios entre jovens de 15 a 24 anos cresceram 88,6%, contra uma média geral de 62,3%.

O estudo também apontava que negros eram as maiores vítimas. Na população entre 15 e 24 anos, a taxa de assassinatos de afrodescendentes era de 68,4 mortos por 100 mil habitantes, 74% maior do que a média de brancos da mesma idade, de 39,3. O Rio de Janeiro ostentava o maior índice: 208,2 óbitos por 100 mil, seguido por Pernambuco (141,5/100 mil) e São Paulo (127,9/100 mil). Ou seja, é muita gente morrendo, são índices que mesmo países conflagrados por guerras civis ou de outros tipos não encontram. Algo, portanto, está muito errado.

Qual o motivo de tanta violência?

Relacionar, no entanto, a problemática juvenil apenas à questão da violência é um erro de análise, pois os jovens que morrem em atos violentos são apenas a ponta do iceberg de uma questão muito mais complexa, visto que a violência é efeito e não causa. Tocar no motivo de toda essa violência é a questão vital que se coloca.

É sabido que ações que envolvem escola, esportes, cultura e trabalhos, quando desenvolvidas de forma integrada, acabam por reduzir drasticamente os índices de violência. Um exemplo é o caso da Vila Olímpica da Mangueira, no Rio de Janeiro. Quando foi instalada na comunidade, os índices de crimes cometidos por jovens e adolescentes foram reduzidos quase a zero. Ou seja, ações como estas oferecem alternativas e isso é tudo o que precisam.

No entanto, e que isso fique bem claro, por mais eficazes que sejam estas ações, elas não provocam um risco sequer na couraça protetora do que é uma das grandes tragédias dos centros urbanos brasileiros: o tráfico de drogas. Pelo contrário, o que mais se vê é a livre convivência entre projetos sociais e traficantes, isso quando não se constituem acordos espúrios entre eles, nos quais os(as) jovens são tratados(as) como boiada e loteados(as) – uma parte para o tráfico e outra para os projetos sociais.

Atacar frontalmente o tráfico de drogas não é missão das ONGs, associações, igrejas e outros grupos que tentam desenvolver trabalhos em comunidades faveladas ou periféricas. Sabemos que o tráfico engloba redes que se iniciam nas altas coberturas da classe A e se tornam visíveis na ponta mais frágil que é a venda a varejo nos morros.

Pensar alternativas estatais de combate à criminalidade envolve fortes ações de combate a toda a rede que sustenta a estrutura do tráfico. Para isso, há que se ter vontade política e coragem para encarar os grandes figurões (políticos, empresariais, governamentais, entre outros) que lucram enormemente com o tráfico e suas ramificações.

Infelizmente, sabemos que entre os vários motivos pelos quais ações como estas não acontecem está o fato de que a ponta visível do tráfico de drogas é formada por jovens negros e estes estão prontos para morrer. Estão prontos porque a sociedade brasileira diz a eles, desde o seu nascimento, que eles devem estar prontos para morrer, e as pesquisas têm demonstrado isso.

Estamos numa guerra não para ver quem mata mais, mas para ver quem morre menos. Cada menino de uma comunidade que chega à idade adulta, que constitui família, que trabalha e/ou estuda é uma grande vitória. É sinal de que temos um sobrevivente desta guerra. Temos a continuidade. Temos nossa história seguindo adiante.

Sempre dizemos que não existe um problema do negro no Brasil, mas, sim, um problema do Brasil com seus(suas) negros(as). É hora da sociedade brasileira refletir sobre o que quer fazer com a população negra, com seus jovens negros. Matá-los é uma solução covarde, mas tem se mostrado eficiente até agora e não vemos interesse real em mudar esse quadro por parte daqueles(as) que têm autoridade e poder para alterá-lo.

No entanto, tal como jovens da Bahia têm afirmado, para não morrer é preciso reagir: “reaja ou será morto/reaja ou será morta”. E é por isso que a luta por ações afirmativas, cotas e espaço político têm sido, e deve continuar sendo, a principal ação do movimento negro brasileiro.

A moda entre alguns acadêmicos(as), jornalistas e quejandos que são contra as políticas de ação afirmativas é dizer que seus(suas) defensores(as) querem dividir o país e incorporar uma cisão entre raças na sociedade brasileira.

Pesquisas como o "Mapa da Violência 2006 – Os jovens do Brasil" demonstram o quanto eles estão errados. A divisão já existe! O único problema é que ela é invisível. São pesquisas como estas que dão a devida visibilidade àquilo que o movimento negro, mães e moradores(as) das comunidades já conhecem há muito tempo: é duro ser jovem, pior ainda se for jovem e negro.

E, para ilustrar com um caso real, para que não fiquemos apenas na frieza dos números, vamos contar a história do Bruno Ribeiro de Macedo. Alguns dias atrás, o pai de Bruno, com 77 anos de idade, teve um derrame e começou a passar mal na casa em que viviam no Jacarezinho.

Desesperado para levar o pai a um hospital, Bruno correu para a avenida para tentar parar um táxi. Depois de algumas tentativas, sem êxito (quem vive no Rio sabe o quanto motorista de táxi escolhe passageiro nessa cidade), finalmente um carro parou e Bruno nervoso e gesticulando muito foi explicando ao motorista o que estava acontecendo. Neste momento, tomou um tiro de um policial que achou que Bruno estava roubando o táxi.

Bruno era entregador de pizza, tinha 19 anos e era negro. No dia seguinte, Bruno e o pai foram enterrados juntos: um foi vítima, em sua velhice, das tristes condições de saúde pública do país; o outro, jovem, foi vítima do que de fato mais mata jovens negros no país, a discriminação e a indiferença.

*Jornalista, editor do Portal DuBIG e dos blogs Atentos à Mídia e Palavra Sinistra, colunista de Afropress e Crônicas Cariocas.

Um comentário:

maria fro disse...

Este texto está impecável na argumentação. Abri um post para ele também no meu blog e havia te pedido pra enviar para o OI.
beijos imensos