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sábado, 26 de novembro de 2005

Quem tem medo da cor das cotas?*

De uns dois anos para cá, o debate sobre cotas tomou conta de várias publicações e, como não poderia deixar de ser, cidadãos e cidadãs comuns vêm se manifestando através de cartas ou e-mails contra ou a favor das mesmas. Quase sempre as enxurradas de manifestações dos leitores são provocadas por publicações ou entrevistas de pessoas famosas, acadêmicos e, até mesmo, alguns militantes do Movimento Negro.

O debate sobre políticas de ação afirmativa começou errado nestas nossas bandas. As ações afirmativas fazem parte de um conjunto de iniciativas que buscam inserir determinado grupo social em espaços e setores da sociedade aos quais, por vários motivos, nunca puderam ter acesso. Entre as iniciativas possíveis, a política de cotas é uma delas. Infelizmente a herança bacharelística brasileira fez com que as primeiras iniciativas no gênero fossem logo relacionadas à políticas de cotas nas universidades. Contudo, setores da iniciativa privada e governos já vêm estabelecendo cotas para contratação de pessoal e prestadores de serviços.

Há setores que vêem esta iniciativa como positiva no sentido de que a formação universitária é a porta de entrada para os melhores postos do mercado de trabalho, portanto... Outros ponderam que o fundamental é que haja investimentos maciços nos cursos anteriores à universidade de modo que o mérito se sobreponha e todos possam disputar em igualdade de condições suas vagas nas universidades. Ora, quando percebemos que apenas 3% dos universitários do país são negros, torna-se difícil ser convencido que as cotas não são uma boa política de inclusão.

Não querendo entrar no mérito desta questão o que mais chama a atenção no argumento daqueles que se opõem às políticas de cotas é o nível de "preocupação" que demonstram com os jovens futuros universitários negros que se formariam graças a esta política. Chama a atenção também a "preocupação" em saber, de fato, quem é negro a fim de evitar que alguns se aproveitem, declarem-se negros e tirem a vaga de quem é, de fato, negro. Ou então - e este é o melhor de todos -, apontam que o fundamental não é dar cotas aos negros mas, sim, aos pobres, pois estes é que estão totalmente excluídos. Ou seja, a volta do argumento de que o problema é social, e não racial. São preocupações, de fato, comoventes, mas que beiram as raias da cretinice.

O Brasil se constituiu como país graças ao suor de negros e negras que, trazidos em navios negreiros, trabalharam e morreram durante gerações nos engenhos de açúcar, nos centros urbanos e nas grandes fazendas. Quando a escravidão chegou aos seus estertores, estes negros foram "libertos" e deixados ao deus-dará, sobrando-lhes a opção de viver em cortiços, trabalhar por conta própria, morar nas ruas, etc.. Nunca, em momento algum de nossa história, o Estado brasileiro voltou-se para a população negra buscando resgatar esta dívida. Pelo contrário, quando o Estado agiu pensando na população negra foi no sentido de reduzí-la até que desaparecesse, como demonstram documentos da Era Vargas. Para o presidente Getúlio Vargas era fundamental que europeus viessem para o Brasil de forma a embranquecê-lo. A estes eram dados lotes de terra e financiamento para o início do plantio: viraram novelas, minisséries e povoam o imaginário como os verdadeiros construtores do país. Os negros, mais uma vez, ficaram ao "Deus-dará”.

Portanto, quando se fala em políticas de ação afirmativa, ou como é mais recorrente no atual momento, políticas de cotas, fala-se, antes de tudo, no pagamento desta dívida histórica. As preocupações cretinas que são colocadas por boas almas caridosas brancas não têm relevância. As cotas, iniciem-se por onde for, são fundamentais e não devem ser vistas como uma benesse mas, sim, como uma conquista. Países como Estados Unidos, China, União Soviética, Índia, entre outros, aplicaram ou ainda aplicam políticas de cotas por entenderem que esta é a melhor forma de inclusão de setores vulneráveis da população.

O argumento de que o investimento em outros setores da educação evitaria a adoção de cotas nas universidades é extremamente cínico, para não dizer burro. A grande verdade é que há 30, 40 anos atrás, quando o ensino público gratuito era de primeiríssima qualidade, poucos eram os negros que tinham acesso a ele. E mesmo hoje, as melhores escolas públicas tais como Cefet, Pedro II, entre outras, contam com uma freqüência de brancos absoluta. Portanto, é o contrário; temos, sim, que pleitear cotas também nos colégios de aplicação, Pedro II, Cefet etc..

Determinar quem é branco e quem não é talvez seja a principal vocação do aparelho policial. Este quase nunca erra. A mídia também tem sua vocação para isso. Quando o bandido é negro, a mídia o apresenta como marginal, criminoso etc. Quando branco: "jovem de classe média"... Ironias à parte, esta é uma discussão secundária. "Passou de branco, preto é", como se diz no interior. O fato de as pessoas começarem a buscar suas origens e, mesmo fenotipcamente estarem distantes do padrão negróide mas assumí-lo, será um ganho positivo. Se isto for feito por oportunismo, será uma pena, mas não poderá ser impedido. Se for feito no sentido de resgatar sua herança ancestral, será uma grande vitória e teremos dado passos largos rumo à recuperação da auto-estima daqueles que se declaram brancos, mulatos, cafusos, sararás, cor-de-burro-quando-foge, marrom-bombom, moreninho escuro, etc..

Por fim, o combate à pobreza seria a melhor forma de acabar com a exclusão dos negros. Aqui vivemos o paradoxo Tostines: a maioria da população é pobre por ser negra ou é por ser negra que a maioria da população é pobre? Não vale a pena aqui ficar apontando os já famosos indicadores que demonstram o quanto existe de desigualdade entre negros e brancos no país. Mas, sem sombra de dúvida, entendemos que os pobres no Brasil o são, principalmente porque são negros. Existem brancos pobres? Claro que sim, existem e devem também ter oportunidades de acesso aos melhores postos da sociedade. Mas a grande maioria, 70% segundo alguns estudiosos, dos pobres do país são negros. São estes que vivem nas favelas, são estes que estão sem terra no campo, são estes que estão fora das escolas, e por aí vai. Portanto, é fundamental sim, que o combate à pobreza seja uma grande bandeira, porém mais importante ainda, é que os negros sejam percebidos como a prioridade das prioridades no combate à miséria.

Já há alguns anos vários setores da administração pública federal vêm destinando cotas para mulheres e deficientes físicos. Hoje, os cadernos de classificados de empregos oferecem vagas especificando as quantidades de mulheres e deficientes a ocupá-las. Quando a discussão sobre políticas de cotas inicia-se logo pela universidade, a grita é, antes de tudo, porque alguém sabe que vai perder. E perder logo no espaço que perpetua o poder das elites brasileiras é algo que mexe até com o mais esquerdista intelectual branco de classe média. Por isso é bom que ocorra o debate, por isso é bom que se discutam as cotas. Mais importante ainda, que se discutam a cor das cotas. Porque é aí que o medo atávico ancestral se manifesta: já pensou essa massa negra organizada tomando todas as esferas de poder do país?

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*Texto publicado dois anos atrás que mantem-se atualizado, infelizmente.

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

No país, 68% nunca experimentaram a internet



Aguinaldo Novo

SÃO PAULO. Da população total do país, 55% nunca usaram um computador na vida, equipamento que existe nas casas de apenas 16,6% dos brasileiros. Para 68%, a utilidade da internet, principal ferramenta da nova era digital, ainda é um completo mistério. Estes são os principais resultados de uma pesquisa divulgada ontem pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), entidade formada por representantes do governo e da sociedade civil.

Nem mesmo o projeto de PC popular pode acabar com essa exclusão digital. Uma das conclusões da pesquisa é que nada menos do que 35% da população não têm condições financeiras para comprar um computador, mesmo com preço subsidiado. Segundo o secretário de Logística e Tecnologia de Informação do Ministério do Planejamento, Rogério Santanna dos Santos, que também é um dos conselheiros titulares do Comitê Gestor, esse segmento da sociedade reagirá menos a políticas de preços do que a projetos alternativos de acesso — como centros de uso livre.

Santos acredita que a pesquisa pode ser uma ferramenta valiosa para a definição de políticas públicas e também para o planejamento de empresas privadas. O estudo foi feito em parceria com o Instituto Ipsos-Opinion, que entre agosto e setembro entrevistou moradores com idade superior a dez anos em 8.540 domicílios do país.

— Para essas pessoas, principalmente os jovens, a inclusão virá se o governo atuar em outra frente, intensificando o acesso à web nas escolas e em telecentros — completou o diretor da Ipsos-Opinion, Clifford Young.

Exclusão acompanha a má distribuição de renda

A exclusão digital apontada pela sondagem reproduz os efeitos da distribuição irregular de renda no país: o internauta brasileiro é predominantemente das classes A e B e mora nos grandes centros urbanos. Pela pesquisa, 88,7% da população classificada como classe A (renda familiar acima de R$ 1.800 mensais) possuem computador em casa, contra 55,5% da B (renda entre R$ 1.001 e R$ 1.800). Nas classes D e E (com renda até R$ 300), o índice não vai além dos 2%.

Enquanto 31% dos domicílios de Brasília têm um computador de mesa, em Belém essa fatia é de 11%. Em Fortaleza, desaba para 8%. Na Região Metropolitana de Recife, 70% nunca navegaram pela internet, contra 55% em Curitiba e 53% em São Paulo. Os dados mostram ainda que apenas 24% da população usaram a internet nos últimos três meses e 9,6% acessam o serviço diariamente.

— O resultado é, infelizmente, compatível com a distribuição de renda do país — afirmou Santos.

O Comitê Gestor também fechou parceria com o IBGE para incluir 23 perguntas na próxima Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad). Estima-se que os dados estejam disponíveis em outubro de 2006.

Com despesas mais urgentes para quitar, o brasileiro diz que não tem computador ou deixa de usar a internet por causa dos altos custos dos equipamentos e de conexão. Essa foi a resposta escolhida por 26% e 16% dos entrevistados, respectivamente. Outros 9% responderam que não sabem usar o computador. Em um dado revelador da falta de políticas oficiais, só 2% dos que disseram ter habilidades para usar o equipamento freqüentaram curso mantido por órgãos públicos.

Brasil usou mais tempo a internet do que os EUA

A concentração na posse e uso de computadores provoca grandes distorções. Embora tenha só a décima população de internautas do mundo, o Brasil navegou mais na internet em outubro do que países desenvolvidos como França, Japão, Estados Unidos, Espanha e Alemanha. Segundo relatório do Ibope NetRatings, que passou a trabalhar em parceria com o Comitê Gestor, os brasileiros ficaram 18 horas e 42 minutos plugados na rede naquele mês. Foi um novo recorde para o país.

— Nossas classes A e B, que são o público da internet, não devem nada para outros países — afirmou o diretor-executivo do Ibope Inteligência, Marcelo Coutinho.

Ainda pelo relatório do Ibope NetRatings, que considera internautas com mais de 16 anos, a maioria (73%) usou a internet para ver correspondências. Para 75%, o microcomputador foi o único meio de acesso à web, enquanto 25% usaram também equipamentos como celulares e computadores de mão ( handhelds ).

Fonte: Jornal O Globo

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

O Pote de Vidro

Um professor, diante de sua classe de filosofia, sem dizer uma só palavra, pegou um pote de vidro, grande e vazio, e começou a enchê-lo com bolas de golfe. Em seguida, perguntou aos seus alunos se o frasco estava cheio e, imediatamente, estes disseram que SIM. O professor, então, pegou uma caixa cheia de bolas de gude e a esvaziou dentro do pote. As bolas de gude encheram todos os vazios entre as bolas de golfe.

O professor voltou a perguntar se o frasco estava cheio e voltou a ouvir de seus alunos que SIM.

Em seguida, pegou uma caixa com areia e a esvaziou dentro do pote, a areia preencheu os espaços vazios que ainda restavam e ele perguntou novamente aos alunos, que unanimemente responderam que o pote agora estava cheio.

O professor pegou um copo de café (líquido) e o derramou sobre o pote, umedecendo a areia. Os estudantes riam da situação, quando o professor lhes falou:

- Quero que entendam que o pote de vidro representa nossas vidas. As bolas de golfe, são as coisas mais importantes, como Deus, a família, os filhos, os amigos. São aquelas com as quais nossas vidas estariam cheias e repletas de felicidade. As bolas de gude são as outras coisas que importam; o trabalho, a casa bonita, o carro novo, etc.

A areia representa todas as pequenas coisas. Mas, se tivéssemos colocado a areia em primeiro lugar no frasco, não haveria espaço para as bolas de golfe . O mesmo ocorre em nossas vidas. Se gastamos todo nosso tempo e energia com as pequenas coisas, nunca teremos lugar para as coisas realmente importantes.

Prestem atenção nas coisas que são cruciais para a sua felicidade. Brinquem com seus filhos, saiam para se divertir em família, dediquem um pouco de tempo a vocês mesmos, tenham fé em algo ou em alguém, pratiquem seu esporte favorito,.... Sempre haverá tempo para as outras coisas, mas ocupem-se das bolas de golf em primeiro lugar.

O resto é apenas areia........

Um aluno se levantou e perguntou o que representava o café. O mestre lhe respondeu :

- "Que bom que me fizestes esta pergunta, pois o café serve apenas para demonstrar que não importa quão ocupada esteja nossa vida, sempre haverá lugar para tomar um café com um amigo".

Lembre-se do "POTE DE VIDRO" e do "COPO DE CAFÉ"... [Ou, como prefiro eu, umas cervejinhas]

(Autor Desconhecido)

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Lúcio Flávio Pinto: premiado e ameaçado



Foto: CPJ - Committee to Protect Journalists

O jornalista paraense LÚCIO FLÁVIO PINTO, editor do Jornal Pessoal, necessita do apoio incondicional da opinião pública brasileira por ser vítima permanente de perseguições e injustiças em represália à sua determinação de buscar a verdade no cumprimento dos preceitos universais do jornalismo. Entre os que querem calar Lúcio Flávio encontram-se os dirigentes do grupo de comunicação Organizações Rômulo Maiorana (ORM) e representantes da Justiça do Pará.

A indignação se estende a entidades como a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Organizações Globo e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção do Pará, pela omissão acerca das agressões, inclusive físicas, praticadas por integrantes do Grupo de Comunicação Organizações Rômulo Maiorana (ORM), que tem tentado de diversas formas calar a voz do jornalista LÚCIO FLÁVIO PINTO em defesa da terra e do povo da Amazônia. O Grupo ORM detém os direitos de retransmissão da Rede Globo no Pará.

LÚCIO FLÁVIO PINTO é um ícone da profissão no Brasil e no Pará, tendo recebido diversos prêmios, entre eles o Esso, o mais prestigiado da imprensa nacional. Este ano, ele foi um dos escolhidos para receber, em Nova York, o Prêmio Internacional da Liberdade de Imprensa, concedido pela organização Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ - Committee to Protect Journalists). O CPJ é uma organização dedicada à defesa liberdade de imprensa.

Por causa dos processos, LÚCIO FLÁVIO PINTO tem sido impedido de se ausentar do Pará. Na entrega do prêmio da CPJ, está sendo representado por sua filha, Juliana da Cunha Pinto. O jornalista responde a 19 processos na Justiça do Pará, decorrentes de informações publicadas no Jornal Pessoal, uma publicação quinzenal editada por ele há mais de dez anos. Se ele deixar a cidade de Belém, pode perder o prazo para algum recurso ou sofrer uma condenação, que, eventualmente, pode levá-lo a pagar uma multa ou, pior, à prisão.

A maioria desses processos é movida por integrantes da família Maiorana, da Rede ORM, que edita o jornal O Liberal (o maior do Pará) e dona da TV Liberal, afiliada da Rede Globo. Em janeiro, em um restaurante de Belém, LÚCIO FLÁVIO PINTO foi brutalmente espancado por Ronaldo Maiorana, com o auxílio de dois guarda-costas. Mesmo com queixa na delegacia e exame de corpo delito, Maiorana abriu mais um processo contra Lúcio, dizendo ter sido o jornalista o agressor. Em outro processo, Maiorana quer impedir o jornalista de publicar qualquer informação acerca da família Maiorana, num ato de censura prévia.

LÚCIO FLÁVIO PINTO é o único jornalista brasileiro vítima da perseguição implacável de uma empresa jornalística, o grupo ORM, que é um dos financiadores do portal Liberdade de Imprensa, criado em parceria da Unesco e Associação Nacional de Jornais(ANJ). O diretor do grupo, Ronaldo Maiorana, que espancou o jornalista, preside a Comissão em Defesa da Liberdade de Imprensa da Ordem dos Advogados do Brasil - Pará.

Você pode enviar uma mensagem exigindo o fim das perseguições ao jornalista LÚCIO FLÁVIO PINTO. Abaixo segue a carta que será enviada para o grupo ORM, Organizações Globo, OAB-Nacional, OAB-Pará, ANJ e Tribunal de Justiça do Pará.




A

Rômulo Maiorana Júnior, diretor-presidente do grupo ORM,
Roberto Antonio Busato, presidente da OAB-Nacional,
Ophir Filgueiras Cavalcante Júnior, presidente da OAB-Pará,
Nelson Sirotski, presidente da ANJ,
Milton Nobre, presidente doTJ-Pará,
Roberto Irineu Marinho, presidente das Organizações Globo.

Prezados senhores,

Venho por meio desta exigir o fim da perseguição implacável por parte do grupo ORM (Organizações Rômulo Maiorana) ao jornalista LÚCIO FLÁVIO PINTO.

Meu protesto se estende também à ANJ, Associação Nacional de Jornais, que mantém o Portal Liberdade de Imprensa, financiado pelo Grupo ORM; à OAB-Pará, que tem o diretor do grupo ORM, Ronaldo Maiorana, como presidente de sua Comissão em Defesa da Liberdade de Imprensa; e à Justiça do Pará que tem condenado injustamente LÚCIO FLÁVIO PINTO por acusações que restringem a liberdade de imprensa.

LÚCIO FLÁVIO PINTO é um ícone da profissão no Brasil e no Pará, tendo recebido diversos prêmios, entre eles o Esso, o mais prestigiado da imprensa nacional. Este ano, ele foi um dos escolhidos para receber, em Nova York, o Prêmio Internacional da Liberdade de Imprensa, concedido pela organização Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ - Committee to Protect Journalists). O CPJ é uma organização dedicada a defender a liberdade de imprensa.

O jornalista responde a 19 processos na Justiça do Pará, decorrentes de informações publicadas no Jornal Pessoal. Se ele deixar a cidade de Belém, pode perder o prazo para algum recurso ou sofrer alguma condenação, que eventualmente pode levá-lo a pagar uma multa ou, pior, à prisão. Por esse motivo, LÚCIO FLÁVIO PINTO tem sido impedido de se ausentar do Pará.

A maioria desses processos é movida por integrantes da família Maiorana, proprietária da Rede ORM, que edita o jornal O Liberal (o maior do Pará) e é concessionária da TV Liberal, afiliada da Rede Globo no Estado. Em janeiro, em um restaurante de Belém, LÚCIO FLÁVIO PINTO foi brutalmente espancado por Ronaldo Maiorana, com o auxílio de dois guarda-costas.

Mesmo tendo sido registrada queixa na delegacia e exame de corpo delito, Maiorana abriu mais um processo contra LÚCIO FLÁVIO PINTO sob a alegação de ter sido o jornalista o agressor. Em outro processo, Maiorana quer impedir o jornalista de publicar qualquer informação acerca da família Maiorana, o que configuraria censura prévia.

Por todos estes motivos, em defesa da liberdade de imprensa no Brasil, exijo a interrupção imediata da perseguição por meio de processos judiciais que têm impedido LÚCIO FLÁVIO PINTO de viajar, de trabalhar e, eventualmente, de viver.

Clique aqui para assinar esta petição em apoio ao Lúcio Flávio Pinto

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

“Reaja ou será morto, reaja ou será morta” - Ou os recados que nos vêem da França

A Marcha Zumbi +10 – Contra o Racismo e Pelo Direito à Vida

Não há dúvida que a problemática relativa às questões étnico-raciais no Brasil tornou-se um dos grandes pontos do debate nacional. Excetuando-se aqueles que, cinicamente, ainda ousam afirmar que os problemas do Brasil passam ao largo deste tema, fato é que deixar de reconhecer a importância das relações étnico-raciais é um erro imperdoável para quem quer discutir a sério as mazelas do país.

Se alguns anos atrás o Movimento Negro ia às ruas afirmar a auto-estima da população negra e denunciar o mito da democracia racial, hoje vai às ruas para exigir, peremptoriamente, que ações efetivas sejam levadas a cabo de forma a combater as desigualdades sócio-econômicas geradas pelo racismo no Brasil.

O mês de novembro de 2005 entra para a história como o mês em que foi realizada em Brasília uma marcha mobilizando mais de 10 mil militantes de todo o país. Isso já havia ocorrido 10 anos atrás com um número muito maior de pessoas, mas pela primeira vez a militância negra se viu por sua “própria conta”. Sem apoios e sem bandeiras partidárias, sindicais ou de qualquer outro tipo que não apenas os da militância negra.

A Marcha Zumbi +10 – Contra o Racismo e Pelo Direito à Vida, cumpriu o papel de denunciar, no documento intitulado Manifesto à Nação, que foi entregue diretamente ao presidente Luis Inácio Lula da Silva:

· A insuficiência das iniciativas de combate ao racismo e à discriminação por parte do Estado Brasileiro;

§ O não reconhecimento por parte dos segmentos hegemônicos da sociedade brasileira, do racismo como questão estrutural que organiza as relações sociais no país;

§ A incapacidade das instituições de reconhecer – por omissão ou resistência à mudança de mentalidade e atitudes – que praticam preconceito, discriminação e racismo contra homens e mulheres afro-descendentes;

§ A recusa dos segmentos formadores de opinião de reconhecer os movimentos negros enquanto interlocutores e atores na construção dos mecanismos de superação do racismo e das desigualdades raciais.

Além disso apontou como questões estruturais desse racismo à brasileira o assassínio em massa da juventude negra, as mortes evitáveis de homens, crianças e mulheres negras, o trabalho precário e desemprego, a exclusão educacional, a intolerância religiosa e a violação de direitos culturais, a não titulação das comunidades quilombolas, a situação das mulheres negras.

Para não cair apenas na denúncia pela denúncia a Marcha Zumbi +10 – Contra o Racismo e Pelo Direito à Vida, cumpriu o papel responsável de apresentar soluções para estes problemas.

O trecho do documento intitulado O Custo do Racismo, aponta que investimentos de: R$ 22,2 bilhões em educação, R$ 37,4 bilhões em habitação e R$ 7,6 bilhões em saneamento, se não resolvem todos os problemas, como de fato, não resolvem, pelo menos serviriam para diminuir o nível de desigualdade entre negros e brancos nesses três aspectos.

Uma nova agenda emergencial


Uma das questões que aparece com força tanto no documento quanto na Marcha em si é a pauta da juventude negra urbana. Não há dúvida que o nível de morte de jovens negros (principalmente homens) têm sido uma das mais visíveis tragédias que se abatem sobre a população negra brasileira.

No Manifesto à Nação é dito que:

“O Brasil possui um dos mais altos índices de homicídios entre a população jovem do mundo e, em todos os estados da federação, os jovens negros são as principais vítimas (Unesco, 2004). A crueza dos números não permite evasivas nem subterfúgios: o Brasil é um país que mata negros. A cada 100 mil habitantes, 30,3 brancos morrem por homicídio, enquanto o número de negros é de 68,5 - uma diferença de 74% entre as raças. (Mapa da violência IV: os jovens do Brasil, Unesco, 2004). Principais vítimas da violência urbana, alvo predileto dos homicidas e da ação policial do Estado brasileiro, os jovens negros são objeto de uma política de extermínio.”

Os jovens presentes à Marcha – por sinal em número extremamente significativo – afirmaram em vários momentos a emergência desta nova pauta e, num rap feito pela campanha “Reaja”, de Salvador, afirmavam: “Reaja ou será morto. Reaja ou será morta”.

A Marcha Zumbi +10 – Contra o Racismo e Pelo Direito à Vida, cumpriu seu papel de, mais uma vez, pelas vias institucionais e democráticas, apresentar ao Estado brasileiro os problemas e as possíveis formas de resolução dos mesmos. No entanto, ao clamor dos jovens negros e à agenda do Movimento Negro como um todo o que se vê é um silêncio retumbante, tanto por parte do Estado, como por parte da sociedade.

O que os jovens estão dizendo é que não dá mais. Não dá mais para morrer. Não dá mais para ficar fora das escolas e das universidades. Não dá mais para permanecer no sub-emprego. Enfim, não dá mais, é necessário reagir para que não mais se morra. E o que a Marcha concordou com essa juventude é que é cada vez mais urgente que o Estado e a sociedade brasileira busquem, junto com o Movimento Negro, resoluções efetivas para os problemas concretos. Chega de simbolismos, chega de cartas de boas intenções. Enquanto se faz discurso, nossos meninos e meninas estão sendo mortos e isso não aceitaremos mais.

“Reaja ou será morto. Reaja ou será morta”, eis a nova palavra de ordem!
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Texto publicado em versão resumida no www.ibase.br

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Um encontro com o menino que fui um dia

Se por acaso eu encontrasse com o menino que fui um dia creio que seria um encontro interessante, mas ao mesmo tempo constrangedor para os dois.

Eu só tenho fotos minhas a partir dos 15 anos. Eu não sou da geração das máquinas digitais. Pelo contrário, na minha época uma máquina fotográfica era um luxo e não era qualquer mortal que sabia operá-la. Portanto não tenho fotos da minha infância, da minha meninez. Não lembro de mim quando menino. Não guardo na memória o tipo físico que eu tinha quando garoto. Sei o que aquele menino sentia, mas não sei como aquele menino era.

Portanto, nosso encontro seria um misto de estranhamento para os dois. Eu buscando reconhecer naquele menino o guri que fui um dia. Ele, provavelmente olharia para mim e não me reconheceria.

A primeira coisa que acho que aquele marcio-mirim diria seria o seguinte:

- Nossa, como você está gordo!!

Eu sei que fui um menino e um adolescente muito magro. Até servir ao Exército eu pesava menos de 60 quilos (era quase um raquítico). Depois ganhei forma. Forma de barril!!

O meu eu estranharia me ver tão gordo. E eu provavelmente estranharia vê-lo tão magro, como minha mãe diz que eu era. Nos olharíamos avaliando o por quê de estarmos assim. Se me lembro bem da minha curiosidade infantil aquele menino me cravaria de perguntas. Eu, nervoso, puxaria um cigarro para relaxar e provocaria o segundo estranhamento.

Me lembro que quando minha mãe parou de fumar foi um motivo de orgulho para mim e meu pai. Um belo dia, do nada, ela resolveu não mais fumar. Assim permaneceu por 20 anos. Infelizmente depois de todo esse tempo voltou a fumar e até agora não conseguiu mais parar. E eu dizia que nunca fumaria nem beberia. Não era minha praia nem tinha curiosidade quanto a isso.

As pessoas mudam. Provavelmente eu responderia isso ao meu eu menor quando ele me perguntasse do por quê eu estar fumando. "As pessoas mudam", eu frisaria meio irritado, afinal, aquele guri que eu fui precisava crescer para entender o que se passa no mundo dos adultos. E nem comentaria da minha predileção por cerveja e uisque.

E eu começaria a contar minha vida. Falaria das minhas vitórias, das minhas derrotas, das minhas alegrias e das minhas tristezas, de tudo que fiz de bom e de tudo que fiz de ruim. Falaria do que deixei de fazer e do que, se pudesse, faria diferente. Falaria do amor que tive pelas minhas mulheres e dos meus fracassos como namorado e marido. Diria para aquele pequeno marcio que sou o melhor amigo que alguém pode ter, mas que mesmo assim não tenho muita paciência para as pessoas. Por fim, falaria sorridente para ele do Caio (nosso sobrinho), da Mila (nossa filha) e dos filhos e filhas de amigos nossos e do quanto me emociona ver a vida se perpetuando.

E tenho certeza que meus olhos se encheriam de lágrimas. Porque vendo aquele menino à minha frente eu estaria vendo o melhor do que fui um dia e sei que nunca mais poderei voltar a sê-lo. No entanto, para minha supresa, eu olharia e veria também o menino às lágrimas, olhando para minha figura com supresa, com alegria, às vezes com orgulho e às vezes com tristeza. E olhando um para o outro nós nos abraçaríamos. E o menino que fui um dia me diria que me tornei o homem que deveria ter me tornado, nem melhor, nem pior, mas apenas eu mesmo.

E ao receber o abraço de mim mesmo eu talvez voltasse a dormir um sono bom, sabendo que aquele menino que tinha e ainda tem medo de aranha e de doido, que sonhava e ainda sonha com um mundo melhor, que cria e ainda crê que no homem como senhor de seu destino, vive até hoje dentro desse marcio que me tornei.

E espero que um dia, quando eu tiver meus 70 ou 80 anos, se eu encontrar com este marcio que sou hoje eu possa olhar para ele e pro menino que fui um dia e dizer que posso não ter feito meu melhor, mas tentei sempre dar o melhor em tudo que fiz. E assim, finalmente, não mais dormirei o sono bom, mas dormirei o sono dos justos e terei cumprido minha tarefa neste mundo de meu Deus.

E quando eu me for desse mundo, quero ir conduzido por aquele guri magrelo, cabeludo, sonhador e feliz que fui um dia...