terça-feira, 21 de junho de 2005

Será que é de propósito?

Eis que estréia uma nova novela. O Brasil é o país das novelas. Além das cotidianas veiculadas pelas TVs brasileiras, temos também novelas diárias na política, na economia, no informe policial e por aí vai. Mas o que interessa aqui é que mais uma novela está no ar. Chama-se "Alma Gêmea" e vem com a velha e batida história de que nós somos seres que só nos completamos quando encontramos nosso outro. Esse outro, ou alma gêmea, é aquele que fará com que a vida tenha sentido e o amor seja a única razão de nossas existências.

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Pouco vi da novela, mas a ouvi toda. Trabalhando que estava, fiquei mais interessado em ouvir do que assistir, mas sei o que todo mundo já sabe. Uma casal se apaixona perdidamente e, numa trama macabra provocada por aquela que foi desprezada em seu amor pelo mocinho, a linda esposa do protagonista é morta e sua alma (tal como um cometa Halley) vai cair direto sobre uma indiazinha que estava nascendo naquele momento. Singelo, né? Daí que a indiazinha vai crescer, virar mulherão, vai trabalhar na casa do agora enlutado galã e, logicamente, ao fim de tudo se casará com ele e serão felizes para sempre e tal, e tal. Lindo, lindo! Nenhum reparo à história.

Agora vamos à razão deste texto. Minha única pergunta ao autor, diretor e quem mais decide é por quê cargas d´água a atriz escolhida para interpretar a india foi a atriz Priscila Fantim? Particularmente nada tenho contra a moça. Pelo contrário, acho-a linda e muito boa atriz. Mas fico pensando que a falta de critério quando o que está envolvido (mesmo que de maneira subreptícia) sejam aspectos relacionados às questões étnicas. Senão vejamos: uma vez que a alma da fulana encarne numa índia e a force com um "chamado" a largar a aldeia onde vive para ir para São Paulo em busca de algo que ela não sabe o que é, logicamente seria correto pensar que, como índia, várias questões surgiriam com a moça. Ora, talvez uma das formas de não enfrentar nenhuma questão desse tipo seja exatamente fazer com que a india não seja india. Afinal a atriz em questão tem olhos claros, pele clara, cabelos claros (ou seja, índio padrão Brasil).

E é aí que reside meu incômodo. Ao mesmo tempo em que temos uma índia que não é índia, temos em outra novela uma índia, índia, que atende pelo nome de Índia, e que é um dos personagens mais lamentáveis da história recente da TV, juntamente com duas negras que querem ser brancas. (Apenas uma brincadeirinha do loiro Miguel Falabela e da branca Maria Adelaide Amaral).

É muito interessante porque isso não é recente. Afinal, Lucélia Santos, protagonista de Escrava Izaura era/é branca como leite. Residia aí a grande sensibilização que sua personagem causava. O problema não estava em ser uma escrava sofrendo nas mãos do Leôncio, mas sim, o fato de a escrava ser branca. Afinal, e a novela mostra isso, outros escravos sofriam nas mãos do Leôncio, mas era a escrava branca e boazinha quem mais chamava a atenção, com seu sofrimento inaceitável, afinal ela não tinha o padrão da escrava.

O oposto também é interessante. Quando a Globo e seus autores (a cada dois ou três anos) resolvem lançar uma novela sobre a "saga" italiana no Brasil (como se eles e apenas eles tivessem construído essa nação), faz questão de chamar quase todos aqueles que têm sobrenome italiano para compor os elencos. Aí fica a pergunta: por que não chamar uma atriz como Dira Paes (paraense, descendente de indígenas, fantástica atriz) para interpretar uma protagonista índia? Por que nunca se conta as fantásticas histórias de negros e negras que às custas de muita luta constituíram famílias, lograram obter sucesso em suas vidas, conseguiram romper as estatísticas da miséria? Parece que temos que dizer o tempo todo para a dona Globo que nem todos os italianos que chegaram aqui viraram Matarazzo e nem todos os negros que foram escravizados viraram miseráveis ou favelados.

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A propósito (e agora pensando um pouco em propaganda subliminar, apesar disso nem ser tanto subliminar assim), vocês já repararam que os cabelos da Marinete (do programa "A diarista") estão cada vez mais crespos? Será que daqui há pouco começarão a pintar a pele dela de negro? Sei lá, talvez para ficar mais "autêntico"!!

3 comentários:

Anônimo disse...

Velho, muito boa sua análise. O que eles querem é nos alijar, "purificar", a verdadeira história do Brasil.
Big Richard

Anônimo disse...

texto que deveria ser veiculado na propaganda dessas novelas, pra sacudir um pouco o pessoal que ainda assiste.......

Anônimo disse...

Gosto muito deste texto econcordo com os outros cometários!
Nas poucas vezes que vejo rede Globo, não consigo ver senão sob lentes críticas como a sua, o que torna mais curta minha exposição à esse tipo de conteúdo.Já presenciei horrores semlhantes na MTV brasileira e não suporto não ter como fazer algo a respeito.