| Os eventos trágicos que se abateram sobre o Haiti nos ultimos dias fizeram aflorar visões racistas e catrastrofistas sobre aquele país. O pastor Pat Robertson, verdadeiro ícone da direita pentecostal americana, afirmou que o Haiti sofre uma maldição advinda por pactos feitos com o Diabo à época da sua luta pela independência. Já o Cônsul do pais no Brasil foi mais longe. Além de afirmar que "a desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido", ele ainda afirmou que "de, tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo... O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f...", completou o cônsul. Todas as religiões do mundo têm o mesmo objetivo, religar o ser humano ao divino. Todas partem sempre da mesma premissa, de que a humanidade precisa reatar seus laços com a divindade, dê-se a ela o nome que se der. Em nome das religiões crimes bárbaros foram cometidos ao longo da história humana. Ninguém matou mais gente na história do que o cristianismo e, mesmo assim, a premissa básica da doutrina cristã é o amor ao próximo. Ou seja, em nome do amor milhares foram condenados à fogueira da inquisição, milhares foram presos e condenados por simplesmente questionar um ou outro aspecto da fé cristã. Essencialmente as três maiores religiões monoteístas partem do mesmo princípio de que o homem pecou contra Deus e precisa se redimir diante Dele. Assim, por mais contraditório que possa ser, o Deus que tudo sabe e tudo vê cria o homem e a primeira coisa que o homem faz é voltar-se contra Deus. Então o resto da vida do homem é voltada para buscar essa redenção e esta redenção se dá pelo sacrifício, seja o sacrifício de animais, a oferta de alimentos, ou o sublime sacrifício humano feito pelo Cristo na cruz. Ou seja, de um primitivismo atroz. Mesmo assim, estabelece-se como regra que as religiões tribais africanas é que são primitivas. Ou seja, quando se acredita que o sacrifício de um homem pode redimir a humanidade, é civilizado, mas quando se acredita nas forças da natureza, nas energias existentes e a elas se dão nomes e formas, aí é primitivismo, ai é tribalismo. A maior tragédia que se abateu sobre o Haiti foi o racismo. Desde o momento em que aqueles escravos se rebelaram e conseguiram se rebelar contra o jugo da França um acordo tácito foi feito para isolar o país e não possibilitar nenhum tipo de ação que viesse a favorecê-lo. O Haiti que surgiu como uma nação agrícola e com relativa prosperidade foi se empobrecendo e ficando a cada dia refém de grupos que ao fim e ao cabo sempre serviram de massa de manobra para aqueles que nunca aceitaram uma nação negra no coração das Américas. A tragédia do Haiti neste momento poderá, paradoxalmente, ser o momento de reconstrução do país. Poderá ser o momento em que a humanidade perceba que a punição não escrita e não acordada objetivamente sobre o Haiti está na hora de ser suspensa. O Haiti precisa ser reconstruído e isso só será feito se a solidariedade internacional perceber que o racismo não pode balizar suas ações. Não existem grupos étnicos superiores uns sobre outros. O que existem são oportunidades históricas diferentes. O plano Marshall reconstruiu a Europa no pós II Guerra, até hoje os EUA estão reconstruindo Nova Orleans depois do furacão Catrina. É hora de se criar um plano internacional que reconstrua o Haiti, que vá além da Minustah, que vá muito além da questão da segurança. Mas que finque novas bases econômicas, educacionais, físicas e estruturais no país. Cada passo dado para recuperar o Haiti será uma martelada na cabeça do racismo, será a prova real e concreta de que a humanidade vem melhorando sua visão com relação ao outro e ao diferente. Somente assim veremos vozes como as de Pat Robertson e do triste cônsul se tornarem vozes dissonantes, ignorantes e atrasadas. |
Palavra Sinistra é um blog que trata de assuntos como direitos humanos, relações raciais, cultura, política, teologia, humor, motociclismo, viagens, etc. O nome vem de uma brincadeira com a palavra italiana usada para designar tanto quem é canhoto (como eu), quanto quem está à esquerda politicamente (como eu, também).
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Haiti - Mais forte que o terremoto é o racismo!
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Haiti - País pobre sofre sua pior tragédia
País mais pobre das Américas, um dos mais pobres do mundo, o Haiti praticamente acabou vitimado por um violento terremoto. Os números são desencontrados, alguns falam em 50 mil, outros em 100 mil e alguns em números muito maiores de vítimas desta tragédia que inaugura o ano de 2010.
O Haiti é um país formado por negros que, uma vez rebelados, constituíram o país e, há mais de 200 anos lutam para fazer desta ilha, localizada no Caribe, um país decente para sua população. Não tem sido fácil no entanto. A história do Haiti é marcada por golpes, brutal violência entre distintos grupos, ditaduras abomináveis e uma total indiferença da comunidade internacional explicada, muitas vezes, pelo racismo e pelo real incômodo de ver uma país formado por negros rebeldes florescer em pleno continente americano.
Nas últimas horas, no entanto, a comunidade internacional tem reagido de forma solidária ao Haiti. Países de todos os continentes têm enviado ajuda. Se é muito, só saberemos mais à frente, mas efetivamente 3 milhões de pessoas foram diretamente atingidas pelo terremoto e praticamente toda a infra-estrutura do pais, que já era precária, não existe mais.
A Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti ou MINUSTAH (sigla francesa para Mission des Nations Unies pour la stabilisation en Haïti), comandada pelo Brasil tem sido a linha de frente no resgate e na tentativa de manutenção da ordem do país neste momento. As mortes de estrangeiros são muitas, do Brasil, além dos soldados da Minustah, é marcante a morte de Zilda Arns, responsável pelo trabalho de combate à desnutrição infantil da Pastoral da Criança e irmã do Cardeal Arcebispo Emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.
Os meios de comunicação começam a informar que cientistas americanos alertaram os governos de Haiti e República Dominicana - os dois países da ilha Hispaniola - sobre o risco extremo de um terremoto devastar a região. O alerta foi feito durante uma Conferência de Geologia em Santo Domingo, na República Dominicana, em março de 2008. Ou seja, a tragédia com certeza não seria evitada mas poderia minimizada caso houvesse o mínimo de responsabilidade dos grandes líderes mundiais e do próprio governo haitiano com seu povo e seu país.
Um jornal internacional estampa a manchete chamando o Haiti de um país sem sorte. Mas a verdade é que a sorte, ou a falta dela, é o que menos importa no cenário das nações. O Japão é um país constantamente atingido por terremotos e conseguiu ao longo de décadas construir uma infra-estrutura e educar seu povo para resistir a este tipo de acidente. No Caribe este assunto não é tratado pelos governos locais e no caso haitiano os problemas são tantos e tão graves que este seria apenas mais um, não fosse a força da natureza a chamar a atenção para si.
O Haiti acabou. Deverá ser reconstruído aos poucos. O povo já sofrido, passará agora a viver com o trauma que um evento como este costuma provocar. A comunidade internacional será obrigada a olhar o país de outra forma e, nós, negros e negras da diáspora talvez tenhamos que pensar em ir além do sentimento de solidariedade. Reconstruir o Haiti deverá talvez, ser algo talvez que nos envolva a todos e todas. Que nos faça refletir como podemos colaborar, talvez constituindo um fundo internacional, talvez formando missões que visitem o país, talvez desenvolvendo ações diretas no território haitiano, enfim, algo precisaremos fazer e deveremos refletir sobre isso.
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terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Um presidente "sinistro"
O Obama ser negão é o de menos, maneiro mesmo é ele ser canhoto, ou sinistro, como dizem os italianos. :o)
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terça-feira, 11 de novembro de 2008
Obama e nós, que lições tirar?

Para mim, a melhor definição deste momento foi dada pelo rapper Jay Z: Rosa Parks sentou-se para que Luther King pudesse andar; Luther King andou para que Obama pudesse correr; Obama correu para que nós possamos voar...
Apesar de ser uma vitória aguardada por muita gente, em mim provocou enorme impacto a eleição de Obama. Uma semana antes um outro jovem negro havia feito história ao se tornar campeão do competitivo e mega elitizado mundo a Fórmula 1. Logo após, um outro jovem, de 47 anos, uma geração apenas, acima da minha, elegeu-se o mais poderoso mandatário do planeta. O homem sobre quem cairão agora as responsabilidades de vida e morte, do destino global, da construção de um futuro melhor e mais justo para todos nós.
A vitória de Obama foi comemorada em todo o mundo e, em alguns lugares, parecia que ali também ele tinha sido eleito. Nas listas do Movimento Negro brasileiro, pululam análises tentando entender o por quê de os EUA, 40 anos após os direitos civis terem se tornado uma realidade lá conseguirem eleger um presidente negro ao passo que aqui nós mal e porcamente não conseguimos eleger nem mesmo um número considerável de vereadores.
Ainda não me manifestei sobre isso e nem sei se quero me manifestar. Para mim as análises sobre estes fatos na verdade estão muito mais no campo das relações políticas que nós mesmos estabelecemos entre nós, do que na fragilidade ou não do nosso sistema político-eleitoral. Para mim, o fato concreto é que se Obama fosse brasileiro, ele teria se lançado candidato num dia e no outro haveria mais três negros, ou negras, se candidatando junto. Ou então, uma meia dúzia de três ou quatro estaria pronta para detoná-lo nos veículos de comunicação, contando seus podres e minando suas possibilidades.
Mas independente dos por quês, acho que está na hora de começarmos a pensar nas construções reais que nos levem nos próximos 10, 15, 20 anos a ter um homem ou uma mulher com reais chances de se eleger à presidência do nosso país...
Por outro lado, isso também é muito relativo. Cinco anos atrás, ninguém havia ouvido falar em Obama. Ele se tornou relevante no cenário político americano quando fez um discurso arrasa-quarteirão na convenção de seu partido e chamou a atenção pra si.
O que me chama a atenção em Obama é que ele não teve medo de encarar a missão que ele mesmo se deu. Colocou como ideal a busca da presidência e não se apequenou. Pelo contrário, a cada dia tornou-se maior e não abriu mão em momento algum de acreditar que poderia chegar lá. Não tenho dúvidas que o grupo de Hilary Clinton deve tê-lo assediado de tudo quanto era forma. Afinal, ele é novo, em idade e na política, Hilary é senadora duas vezes, ex-primeira dama, mulher tarimbada e mais velha... Na lógica política brasileira política é fila! Obama não quis nem saber e furou a fila com a cara-dura e levou de lambuja a presidência dos EUA e a liderança mundial.
Talvez o que fique como lição no histórico feito americano são algumas questões bem interessantes:
1) O discurso radical e de gueto não funciona mais. Afirmar a negritude não é excluir o outro, mas é buscar um discurso de conciliação e real integração entre os grupos distintos. Obama ousou em falar para a sociedade americana e não apenas para os negros. Ele não buscou se tornar uma liderança negra, buscou se tornar presidente dos EUA e sabia que só conseguiria se tivesse votação entre a população branca. Isso ele viu, foi lá e venceu!
2) A maturidade política dos grupos americanos, principalmente os negros, tornou possível a eleição de Obama e, ao mesmo tempo, nos coloca o desafio de pensar nossa própria realidade como negros da diáspora vivendo as similaridades do caso brasileiro;
3) É chegada a hora de lançarmos novos debates sobre conjuntura política e modus-operandi de maneira que possamos criar condições para superar nossas debilidades e dar alguns passos adiante.
O momento é de comemorar mas também de avaliar; de avaliar e não transformar em xororô, mas pensar que somos testemunhas da história e temos responsabilidades diante dela. Faremos a diferença quando soubermos transformar nossa realidade e a de milhões de negros brasileiros a partir dos aprendizados que possamos ter daqui pra frente.
Apesar de ser uma vitória aguardada por muita gente, em mim provocou enorme impacto a eleição de Obama. Uma semana antes um outro jovem negro havia feito história ao se tornar campeão do competitivo e mega elitizado mundo a Fórmula 1. Logo após, um outro jovem, de 47 anos, uma geração apenas, acima da minha, elegeu-se o mais poderoso mandatário do planeta. O homem sobre quem cairão agora as responsabilidades de vida e morte, do destino global, da construção de um futuro melhor e mais justo para todos nós.
A vitória de Obama foi comemorada em todo o mundo e, em alguns lugares, parecia que ali também ele tinha sido eleito. Nas listas do Movimento Negro brasileiro, pululam análises tentando entender o por quê de os EUA, 40 anos após os direitos civis terem se tornado uma realidade lá conseguirem eleger um presidente negro ao passo que aqui nós mal e porcamente não conseguimos eleger nem mesmo um número considerável de vereadores.
Ainda não me manifestei sobre isso e nem sei se quero me manifestar. Para mim as análises sobre estes fatos na verdade estão muito mais no campo das relações políticas que nós mesmos estabelecemos entre nós, do que na fragilidade ou não do nosso sistema político-eleitoral. Para mim, o fato concreto é que se Obama fosse brasileiro, ele teria se lançado candidato num dia e no outro haveria mais três negros, ou negras, se candidatando junto. Ou então, uma meia dúzia de três ou quatro estaria pronta para detoná-lo nos veículos de comunicação, contando seus podres e minando suas possibilidades.
Mas independente dos por quês, acho que está na hora de começarmos a pensar nas construções reais que nos levem nos próximos 10, 15, 20 anos a ter um homem ou uma mulher com reais chances de se eleger à presidência do nosso país...
Por outro lado, isso também é muito relativo. Cinco anos atrás, ninguém havia ouvido falar em Obama. Ele se tornou relevante no cenário político americano quando fez um discurso arrasa-quarteirão na convenção de seu partido e chamou a atenção pra si.
O que me chama a atenção em Obama é que ele não teve medo de encarar a missão que ele mesmo se deu. Colocou como ideal a busca da presidência e não se apequenou. Pelo contrário, a cada dia tornou-se maior e não abriu mão em momento algum de acreditar que poderia chegar lá. Não tenho dúvidas que o grupo de Hilary Clinton deve tê-lo assediado de tudo quanto era forma. Afinal, ele é novo, em idade e na política, Hilary é senadora duas vezes, ex-primeira dama, mulher tarimbada e mais velha... Na lógica política brasileira política é fila! Obama não quis nem saber e furou a fila com a cara-dura e levou de lambuja a presidência dos EUA e a liderança mundial.
Talvez o que fique como lição no histórico feito americano são algumas questões bem interessantes:
1) O discurso radical e de gueto não funciona mais. Afirmar a negritude não é excluir o outro, mas é buscar um discurso de conciliação e real integração entre os grupos distintos. Obama ousou em falar para a sociedade americana e não apenas para os negros. Ele não buscou se tornar uma liderança negra, buscou se tornar presidente dos EUA e sabia que só conseguiria se tivesse votação entre a população branca. Isso ele viu, foi lá e venceu!
2) A maturidade política dos grupos americanos, principalmente os negros, tornou possível a eleição de Obama e, ao mesmo tempo, nos coloca o desafio de pensar nossa própria realidade como negros da diáspora vivendo as similaridades do caso brasileiro;
3) É chegada a hora de lançarmos novos debates sobre conjuntura política e modus-operandi de maneira que possamos criar condições para superar nossas debilidades e dar alguns passos adiante.
O momento é de comemorar mas também de avaliar; de avaliar e não transformar em xororô, mas pensar que somos testemunhas da história e temos responsabilidades diante dela. Faremos a diferença quando soubermos transformar nossa realidade e a de milhões de negros brasileiros a partir dos aprendizados que possamos ter daqui pra frente.
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terça-feira, 12 de agosto de 2008
O que a América Latina e os negros devem esperar de Obama??
Antes de tudo preciso abrir um parêntese para dizer que a candidatura de Barack Houssein Obama me anima, como acho que anima os corações e mentes liberais e esquerdistas do mundo todo. Como também me anima o fato de ver um homem jovem, negro, prestes a ser eleito para governar o Império e, por extensão, boa parte do mundo.
No entanto, precisamos considerar com toda a frieza que o mundo mudou e mudou muito. As grandes coorporações que hoje são mais poderosas que a maioria dos países, Brasil inclusive, criaram uma estrutura de funcionamento onde até mesmo alguns governantes deixaram de ter papel relevante. George Bush agiu nos ultimos anos muito mais de acordo com os interesses das coorporações petrolíferas do que do seu povo. E Obama, apesar de aparentemente não ter este nível de comprometimento, também não pode ignorar que o poder das corporações é real e estará ali a lhe fazer sombra o tempo todo.
Terminadas as prévias Obama resolveu fazer um giro pelo Oriente Médio e pela Europa. Ignorou solenemente a America Latina e o continente africano. Tudo bem, dirão alguns, se ele vai à África só reforçaria o discurso racialista da campanha americana que ele está tentando evitar, concordo. Mas não vir à América Latina? É estranho, mas ao mesmo tempo é sintomático. É o sinal claro de que mais uma vez a América Latina estará relegada a um segundo plano na política americana.
O segundo movimento estranho de Obama foi com relação aos protestos dos jovens que lhe disseram não estar dando a devida atenção à questão racial em sua campanha. Obama lhes deu a resposta clássica do tipo, se não estiverem satisfeitos, procurem outros candidatos para votarem.
Algumas coisas no Obama me chamam a atenção pelo contraditório. A primeira é o fato de ele ter suprimido o Houssein de seu material de campanha, pois seria muito interessante além de colocar o desafio para a sociedade americana de votar num negro, mas votar também num homem chamado Houssein (nome árabe clássico, Saddam Houssein, lembram? Aquele que saiu do buraco para entrar na história). Outra coisa é sua religiosidade. Há quase certeza de sua aproximação com o Islã, mas quem cria problemas para ele é um pastor evangélico negro. Afinal, que apito toca o Obama? Aqui no Brasil, pelo menos, essa questão seria mais fácil. E, por fim, essa questão do elemento étnico-racial que uma hora ele dá sinais de avanços, mas, quase sempre, não assume como um elemento fundante de sua pessoa e de sua trajetória política.
É estranho esse Obama. Um dos fatos que o tornaram uma grande sensação política nos EUA nos ultimos anos foi exatamente ele ser negro, mas um negro que ao invés de se fechar no discurso de gueto, abriu-se para pensar a construção de um país realmente pluriétnico. Ótimo, maravilha, lindo, concordo com isso, mas ignorar a problemática real e diferenciada dos negros americanos o tornará artificial, como também só falar dela teria lhe tornado impalatável.
Lula para ser eleito se viu obrigado a assinar uma carta cujo título de fantasia era "Carta aos Brasileiros", quando devia se chamar carta ao sistema financeiro, empresarial e industrial brasileiro, que lhe obrigou a abrir mão de muitos elementos políticos que o PT vinha construindo há anos para poder passar pela gargante e de fato assumir o país sem provocar uma grande crise. Foi um acordão que, uma vez cumprido, tem permitido a Luiz Ignácio, até hoje, governar em águas calmas. O custo político disso perceberemos em algumas décadas mas uma coisa já é visível que foi a fragilização absurda dos movimentos sociais como um todo, mas isso merece um outro artigo.
Chavez abriu mão de qualquer acordo e, com seu estilo truculento e meio tresloucado tem levado a Venezuela aos trancos e barrancos.
Ainda não sabemos se Obama de fato será eleito, se ele crescerá na reta final da campanha ou se os americanos desistirão de correr o risco de apostar no novo e elegerão Mccain até por uma questão de se sentirem mais seguros no velho branco, típico representante da elite americana.
Mas uma coisa é certa. Obama não se elegerá sem abrir mão, talvez mais ainda, de elementos que para alguns ameaçam a sociedade americana, e um deles, com certeza é uma aproximação com os mais pobres, com uma agenda diferente daquela do Império.
Enfim, o que está posto é que por melhor que Obama seja, e eu apesar de o achar interessante ainda tenho dúvida para entender o que exatamente ele quer, ele para ser presidente terá que estar de acordo com os interesses das grandes coorporações, dos grandes conglomerados, da engrenagem poderosa que faz mover o Império. Se for assim, ele poderá ser negro, poderá ser jovem, poderá ser carismático, desde que cumpra a agenda. Desde que aponte em direção à seta-mestra do Império e esta, quase sempre, é a direção oposta de onde estão a América Latina, a África, os negros e os pobres.
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Algumas palavras sobre Benazir Bhutto
É fim de ano e a princípio tudo é festa. No entanto, venho percebendo de um tempo para cá que é no período entre o natal e o ano novo que acontecem alguns eventos extremamente impactantes. O atentado que culminou com a morte de Benazir Bhutto é um desses casos.Benazir Bhutto havia retornado ao Paquistão para lutar por um lugar que era seu. Líder oposicionista, francamente popular entre os mais pobres, oriunda da alta aristocracia paquistanesa que lutou pela independência e governou o país em determinados momentos (seu pai foi o primeiro primeiro-ministro civil do país), era certo que ela venceria as próximas eleições e se tornaria, pela terceira vez, a primeira-ministra de do Paquistão.
No entanto, foi morta ao melhor estilo covarde do terrorismo. Primeiro dois tiros, um no peito e outro no pescoço e logo depois o atirador se explodiu e matou mais 15 pessoas. Pura covardia, puro ódio, pura politicagem rasteira dasqueles que nao aceitam mudanças, que nao querem avançar no tempo.
Benazir Bhutto foi afastada da chefia do governo, quando primeira-ministra, acusada de corrupção. Nunca foram comprovadas as denúncias mas, claro, a imagem ficou marcada. Fato é que não se faz política sem sujar as mãos (já dizia Tancredo Neves numa versão mais escatológica que esta que publico). Mas não há dúvidas que Benazir representava a novidade.
Uma mulher, chefe de governo de um país árabe é sempre uma novidade. E Benazir foi a primeira. O bom de Benazir, tal como Bachelet no Chile, é que era uma mulher com cara e jeito de mulher. Não era uma mulher que se embruteceu para se tornar uma líder política. Era uma mulher que tinha um estilo feminino de fazer política.
A morte de Benazir Bhutto nos entristece. Nos mostra que o mundo está um pouco mais feio, um tanto mais complicado e que nós, que atuamos na política, que queremos transformar a realidade, temos muito que caminhar, muito que aprender e muito que tomar cuidado, porque matar ou morrer, para alguns, é apenas um movimento de peça num tabuleiro.
Que a morte de Benazir nos sirva a todos, homens, mulheres, árabes e nao árabes, mas nós, cidadãos do planeta, reflitamos sobre que mundo queremos deixar para as gerações futuras e que tipo de estilo político é esse que mata adversários sem a menor chance de defesa.
Para Benazir meu carinho e meu luto.
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terça-feira, 31 de julho de 2007
A receita Bush
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sexta-feira, 27 de julho de 2007
Superando as barreiras e os ressentimentos
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